sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Sobre Desejos e Reparações





"Chiquita bacana lá da Martinica 
Se veste com uma casca de banana nanica 
 Não usa vestido, não usa calção 
Inverno pra ela é pleno verão 
Existencialista com toda razão 
Só faz o que manda o seu coração..."
Chiquita Bacana

Nelson, ou melhor, Nelsinho, gostava do reinado de Momo desde criança ou, como diziam todos, parecia gostar desde a barriga da mãe, Dona Lúcia, uma mulher carola e demasiado hesitante. Muito diferente do tio Afonso. A propósito, era com o tio que assistia todos os desfiles do Hotel Glória e Monte Líbano, onde Clóvis Bornay, Evandro de Castro Lima e Mauro Rosas brilhavam ano após ano. Pensara que um dia poderia ser ele também. A mãe jamais deixaria, mas encontrava apoio no tio solteirão. Não entendia porque um homem como ele passava a vida sozinho. "Solteiro sim, sozinho nunca", dizia Afonso. Certa vez, talvez cansado de ouvir os protestos do sobrinho acerca da mãe, o tio lhe dissera que Lúcia não havia sido sempre daquela maneira irritadiça; houvera ali, um dia, uma mulher muito feliz. Houve Chiquita. E aquela mulher nunca saiu da cabeça de Afonso.

E tudo aconteceu mais ou menos assim.

Os carnavais costumavam ser na praia, Para quem vivia no interior, a viagem para o litoral era o grande acontecimento. O avô de Nelson alugava a mesma casa todos os anos e levava a família para o veraneio. A praia era muito concorrida naquela época, sempre repleta de turistas vindos dos mais variados lugares. Principalmente argentinos. Afonso gostava de contar as placas pelo caminho, Lúcia acompanhava os sucessos do momento pelo rádio. Entre uma coisa e outra chegavam já ansiosos por um banho de mar, Entretanto, aquele ano, aquele carnaval os marcaria para sempre. Nenhum deles voltaria para casa como antes, principalmente Lúcia.

A casa era sempre a mesma. Uma imensa varada, uma grande sala, cozinha, dois quartos e um banheiro. Havia um chuveirão no quintal que a avó de Nelsinho insistia para que só entrassem na casa após o banho de mar, depois de terem tirado toda a areia. Algo que nem sempre as crianças faziam. O quintal tinha um muro bem baixo que dava para o quintal do outro vizinho e, como as casas eram sempre alugadas para veraneio, os vizinhos nunca eram os mesmos. Num desses banhos no chuveirão, Lúcia ouviu alguém assobiar uma canção que ela achava muito engraçada; era uma marchinha de carnaval que dizia que a tal Chiquita era da Martinica e se vestia como uma casca de banana nanica. Não demorou e começou a cantar junto; distraída, não percebeu que o tal parceiro no assobio havia parado e que ela cantava sozinha. De repente, parou, olhou em volta e estava sendo espionada. Era um homem alto, loiro, olhos verdes, os fios loiros também emergiam da pele bronzeada. O homem sorria com o canto da boca deixando Lúcia desconcertada, mas não a ponto de sair correndo.

—  Cantas muy bien, Chiquita. 

E foi assim que a vida de Lúcia mudou.

Apresentou-se como Juan, argentino, natural de Córdova, mas que residia em Buenos Aires há muito tempo porque estava cansado do interior e da fazenda dos pais, ou rancho, como ele preferia dizer. A vida na capital era muito atrativa e ele precisava estudar e conhecer um outro mundo. Pelo menos, isso foi o que o tal larápio contou para Lúcia assim que se apresentou ao perceber a moça lívida olhando para ele.

Mas o fato era que o tal chamava-se Gastón, um boêmio que vivia de dar pequenos golpes em mulheres mais velhas e ricas e de seduzir moças como Lúcia, mas isso ela não tinha como saber, nem tampouco seus pais e aquela altura foi muito fácil seduzir a todos como um argentino rico e fútil. Os seus olhos pareciam penetrar na alma das pessoas descobrindo seus segredos mais escusos. Não demorou muito para que ele já estivesse sentado à mesa comendo com a família deslumbrada.

Juan, ou melhor, Gastón, acreditava que poderia conseguir um bom dinheiro com o pai de Lúcia. Seria um bom golpe e ainda poderia se divertir um pouco com moça que já estava encantada o suficiente pela forma como o argentino lhe dava atenção. Dizia que ela viveria como dizia a música, que iriam para a Martinica. E talvez hoje em dia alguém possa pensar o quanto Lúcia e sua família foram tolos em se entregar totalmente àquele malandro, principalmente numa época onde os tempos eram outros, mas aqueles olhos verdes faziam o mundo desabar. E pensavam os avós de Nelsinho que aquela paixão iria se acabar assim que subissem a serra. Um amor de carnaval que não vingaria, então não deram a importância devida. Eles fizeram vista grossa todas as vezes que Lúcia fugia do seu quarto na calada da noite para ter com o tal Juan, ou Gastón. E fingiam acreditar no que o casal dizia quando demoravam a voltar de um passeio pela praia ou na ida ao pequeno mercado da vila.

Afonso também estava encantado. Ele já havia se descoberto gay, mas ainda não havia revelado para ninguém e achava que aquele segredo era algo que ele jamais contaria. Os pais não aceitariam, imagine um filho de um militar e de uma fiel defensora dos bons costumes ter um filho gay. Mas eles não se importavam que a filha estivesse com um vigarista, afinal, antes um vigarista do que um gay. E ambos preferiam ver o filho morto, pensavam.

Mas aquele argentino parecia saber de muita coisa. Ele olhava para Afonso de uma maneira diferente e costumava coçar os genitais sempre que estava à sua frente. Tinha certeza que certa vez ele o estivera observando e podia jurar que ele piscara para ele quando estava com sua irmã. Mas ele não tinha certeza e ficava em cólicas. Havia algo ali e ele não sabia o que fazer. Não podia contar para sua irmã, não podia revelar aos pais. Talvez se...

O argentino alugara a casa sozinho e Afonso pensou que ele poderia ir ter com ele, podia arriscar; caso estivesse errado, poderia dizer que se enganou ou que tinha vindo apenas jogar conversa fora, afinal, os dias estavam passando muito depressa e logo mais eles estariam de volta à velha rotina. Ele iria tentar, tinha apenas uma chance. Aqueles sinais poderiam ser verdadeiros e em nenhum momento ele pensou que o tal argentino era o namorado da irmã. Às favas com escrúpulos, pensou ele. E assim seguiu.

O muro era baixo o bastante para que ele pulasse e se esgueirasse para a casa do argentino que falava com alguém. Era uma voz feminina, mas não podia ser sua irmã, já que ela encontrava-se  no quarto. Podia ouvir que era de uma outra mulher, sussurrando e ouvindo aquelas mesmas baboseiras que ele dizia para Lúcia. O pilantra está traindo minha irmã, pensava Afonso, mas quem era ele pra dizer algo já que também estava ali pensando em fazer o mesmo? E não podia pensar duas vezes, já estava ali, então pulou a janela do quarto e entrou no guarda-roupa. Afonso tinha esperança que ela não fosse demorar e mesmo que fosse ele iria esperar, não queria perder a oportunidade. Por outro lado, Juan, ou melhor, Gastón, sabia que não iria conseguir nenhum cobre com o pai de Lúcia e já havia se divertido em demasia com a garota, então tinha que conseguir com outra pessoa. Alguém que pudesse unir o útil ao agradável.

Ele levou a mulher para o quarto, o quarto onde ele esteve com Lúcia naquele mesmo dia, onde ele cantou para ela a marchinha de carnaval que levava seu apelido, e pedira para que ela dançasse para ele e mais uma vez lhe prometeu levar para Martinica e cansava de dizer que ela deveria fazer sempre o que seu coração mandava. O coração de Lúcia, ou melhor, de Chiquita, pediu que ela não dormisse, mas que esperasse que os outros dormissem; e ela nem percebeu que o irmão cobriu travesseiros com um lençol para que ela pensasse que ele dormia, e como o quarto estava escuro, ela acreditou. Ela saiu de casa e fez o mesmo caminho que fizera todas as noites, o mesmo caminho que seu irmão fez antes dela, que sua mãe fez antes do seu irmão. Mas todos esqueceram que o pai, o avô de Nelsinho, também podia fazer e que nunca deixou de andar armado.

Ela esteve na Martinica e sempre fez o que seu coração mandava, mas daquele dia em diante, ela preferiu deixar as lembranças de lado, seria apenas uma marchinha de carnaval que ela não queria mais ouvir e, porventura, apenas por isso, os carnavais nunca mais tenham sido os mesmos.

Ninguém mais voltou àquela praia e  todos naquela família sempre se lembravam dos olhos verdes de Juan, ou melhor, Gastón, ao ver os olhos de Nelsinho, que um dia desfilou no Hotel Glória e se sagrou campeão vestindo uma casca de banana nanica. E tudo isso porque houve uma vez Chiquita.

Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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