quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Tava no Fluxo, Avistei o Novinho no Grindr





Não, esse texto não é sobre uma pulada de cerca. Na verdade, nem é exatamente sobre o famoso aplicativo. Embora também seja sobre isso. Esse texto é sobre toda uma geração. Ou gerações. Ou a co-existência delas. E apenas um exemplo tangível de como a tecnologia está segmentando as gerações cada vez mais rapidamente – e isso, definitivamente, não é uma crítica.

Os aplicativos de encontros (ou de pegação, como alguns preferem) sem dúvida revolucionaram as formas de approach e até mesmo de relacionamento. Isso já foi tema aqui por mais de uma vez (lembro-me bem de textos dos amigos Glauco e Silvestre), mas para mim ainda é chocante como, poucos anos atrás, era uma realidade completamente inexistente. E creio que esse caminho sem volta dos aplicativos também ajudou a termos outra questão irreversível: fica a cada dia mais fácil sair do armário no mundo real.

Sou de uma geração que começou a interagir com a internet no fim do século passado. No começo dos anos 2000, ainda naquela tristeza de ter que usar discador para ter acesso à web e fazer isso somente de madrugada, tive os meus primeiros papos pela rede com outros rapazes gays, após aceitar que essa era a minha realidade. E o canal utilizado para tal foi o mIRC.

Quando falo a respeito, muitos hoje em dia sequer sabem que isso existiu. Para esses, vai uma breve explicação: além de esperar o seu telefone estar livre pra poder usar a internet, para entrar no mIRC você tinha que usar o programa/servidor (de cabeça, lembro agora de dois: Avalanche e 7 Deadly Sins). Depois, você ainda esperava que a conexão fosse estabelecida e, dessa forma, entrava em uma sala de layout completamente simplório (um fundo branco com letras quadradas bem ao estilo MS-DOS), no qual do lado esquerdo da tela ficavam todos os presentes, divididos em Administradores, Moderadores e a ralé (só não fui ralé por algumas breves horas) com seus nicknames, às vezes divertidos, às vezes safadinhos, mas a maioria ali estava para se relacionar (o meu era Chandler-Nit, em homenagem ao personagem de Friends. E Nit porque eu era de Niterói). Até porque, dia após dia, o povo entrava todo nas mesmas salas. Ainda que não te conhecessem de rosto, você tinha uma reputação virtual a zelar. E a fofoca corria muito fácil por aquelas bandas...

Lembro que conheci os meus dois primeiros namorados pelo mIRC. E alguns bons amigos fiz por lá também. Porém, cansado um pouco daquele mundo onde todos se conheciam e falavam da vida do outro, acabei buscando caminhos mais, digamos, diretos, recorrendo ao Bate-Papo do UOL. Por lá também tive a grata surpresa de conhecer o Cristiano, meu companheiro com o qual estou junto há mais de 11 anos.

Você, leitor, pode perguntar: mas por que recorrer tanto à internet para esse tipo de contato? Eu conheci algumas pessoas e até namorei outras sem ser pela web. Contudo, com meus 16 anos, quando aceitei internamente a minha orientação sexual (isso é papo pra outra coluna) e aos 17, quando finalmente dei o meu primeiro beijo, tudo era hostil, sombrio e apavorante. Se ainda hoje é um desafio ter um relacionamento homossexual em público, imagine para um garoto adolescente, que escondia da família e de boa parte dos amigos aquilo que sentia, que tinha medo de ser agredido ou humilhado, e ainda continha dúvidas povoando a sua cabeça... Não era sempre que havia a coragem para se lançar numa night, pois, pra mim, eram basicamente esses dois caminhos “de gueto” à disposição: a internet ou uma noitada em alguma boate.

Por isso, hoje acho incrível o que os aplicativos proporcionam para garotos, sejam novinhos como os do título ou mais velhos (mas igualmente inexperientes e, por vezes, confusos). Por mais que existam todos os medos e preconceitos reproduzidos até mesmo pelos usuários desses programas, há hoje uma infinidade de possibilidades de encontros literalmente à mão. Um facilitador para aqueles que ainda não sabem exatamente o que querem. Ou para aqueles que até sabem, mas desconhecem como lidar com isso. Ou também para os que querem sexo pura e simplesmente, com ou sem compromisso.

Isso tem criado uma geração de jovens gays, aos meus olhos ao menos, muito mais bem resolvida com a sua sexualidade e com o que eles desejam para o mundo: que por mais que os encontros se deem pelos aplicativos cada vez mais (e, com isso, aquela paquera ou flerte na rua talvez fique mais raro), podemos vislumbrar um mundo real mais tolerante e com mais caras no sol.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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2 comentários:

Janjão Júnior disse...

Muito bom Texto. Lembrei na hora de sua história com Cris. MAs, embora os aplicativos facilitem a auto aceitação e descoberta, é triste ver que ainda exista a necessidade de guetos (mesmo que virtuais) para se viver em paz.

Paulo Henrique Brazão disse...

É verdade, meu caro amigo Janjão. Mas ao menos enxergo nisso aí um caminho, sabe? Melhor do que as masmorras de antigamente...