sábado, 6 de fevereiro de 2016

Traumas, Confete e Serpentina




"Mamãe eu quero mamar, 
Mamãe eu quero mamar
Mamãe eu quero mamar...
Dá chupeta, me dá chupeta, 
Dá chupeta pro nenem não chorar..."
Mamãe Eu Quero

Apaixonada por carnaval desde muito menina, Ana Rita tinha dois traumas na vida: templos Evangélicos e a marchinha Mamãe Eu Quero. Para uma carnavalesca de carteirinha, o trauma por Templos Evangélicos poderia até ser compreensível, afinal, religião e a Festa de Momo são duas coisas pouco compatíveis, mas o trauma por uma marchinha de carnaval tão clássica e divertida como Mamãe Eu Quero, era difícil de entender num primeiro momento. A única que sabia os motivos do trauma de Ana Rita, além de seus causadores, era Duda, a melhor amiga.

Acontecia sempre do mesmo jeito, estivessem as amigas inseparáveis onde quer que fossem, em clubes ou blocos de rua, curtindo o carnaval, era só começar a tocar a marchinha imortalizada por Carmen Miranda, que Ana Rita escapava pra qualquer canto onde não conseguisse escutá-la, tamanha era sua aversão. Mas naquele carnaval, onde a amiga completava seus 30 anos, pois Ana Rita fazia aniversário em fevereiro, Duda decidiu dar um basta em seus traumas, pelo menos no que se referia a marchinha da qual ambas tanto amavam antes de tudo acontecer.

Ao perceber Ana Rita escapando, em meio a multidão do bloco de rua, logo aos primeiros acordes de Mamãe Eu Quero, Duda agarrou a amiga pelo braço, arrastando-a para um canto e sentenciou:

- Hoje você vai se livrar desse trauma, Ana Rita! Chega! Já se passaram 13 anos, você não é mais uma adolescente. Você tem 30 agora, TRINTA ANOS! Dá pra entender? Já passou dá hora de acabar com isso. Tudo tem um limite, e você já teve tempo mais que suficiente pra superar seus traumas do passado.

Enquanto Ana Rita disfarçava um choro contido, Duda continuou.

- Pôxa, minha amiga, nós éramos tão bobas, inocentes e felizes. Eles tiraram nossa inocência e ingenuidade, mas a felicidade ainda tá aqui ó, no meio de toda essa multidão. Eles tentaram tirar isso da gente, mas não conseguiram, muito pelo contrário, eles nos libertaram para que a gente pudesse viver o que somos de verdade. E esses anos todos, você deixou que eles ficassem entre nós, por conta desse trauma bobo. Desculpa. Eu respeito seus sentimentos, mas não vou mais deixar que sua aversão por Mamãe Eu Quero estrague mais nossos carnavais. Agora vem comigo vai... mã mã mã mã mamãe eu quero...

Cantarolou Duda, se afastando aos poucos de Ana Rita e chamando-a para o meio da multidão, mas Ana Rita escapou, e voltou aos prantos pra casa.  

Já em casa, de banho tomado e recolhida em sua poltrona preta com uma xícara de café fumegante nas mãos, assistindo ao desfile das escolas de samba de São Paulo pela televisão, Ana Rita chegou a conclusão de que o carnaval daquele ano tinha acabado pra ela, não sentia absolutamente mais nenhum clima para a folia de Momo, depois de ouvir o sermão de Duda. Mas em meio aos sambas-enredos, fantasias, entrevistas e comentários que vinham da televisão, Ana Rita ficou absorta em lembranças do passado, voltando à raiz de onde tudo começou.

De rígida família evangélica, Ana Rita, ou melhor Ritinha, como sempre foi carinhosamente chamada pelos familiares, sempre destoou um pouco dos irmãos Jacó e Ana Maria. Como caçula, sempre foi mais espevitada e questionadora. Tinha uma atração irresistível por tudo o que seus pais e a igreja condenavam como pecaminoso. Gostava de roupas curtas, paquerava os rapazes sem nenhum pudor, tinha loucura por músicas "não cristãs" e amava com todas as forças o carnaval; o ziriguidum a deixava enlouquecida. Mas Ritinha também era uma boa cristã, frequentava os cultos com a família religiosamente, nunca faltava nenhum; se emocionava com músicas gospel, com as orações e os louvores; acreditava no céu e no inferno, e dava testemunho de sua fé sempre que possível, mas não entendia e não aceitava a rigidez e o machismo da igreja. Sempre questionava, provocando a ira do pai, o Pastor Abel, e a desaprovação da mãe e dos irmãos.

Os irmãos, aos olhos do pai, eram exemplares. Ana Maria, a mais velha, tinha 23 anos e estava recém casada com Ismael, um marido, cunhado e genro perfeito. Jacó, o do meio, tinha 20, namorava Léia desde os 16, podia fazer o que quisesse por ser homem, e o pai nada dizia. Essa era uma das coisas que Ritinha mais se revoltava, pois vários rapazes se interessavam por ela, e o pai não permitia o namoro, alegando que era muito jovem pra namorar, e antes dos 20, filha sua não namorava. Ritinha sabia que aquela era uma atitude extremamente machista, mas pior que isso era o pai permitir que Jacó dormisse com a namorada em casa, alegando que era um namoro puro e santo. Ela já havia perdido as contas das vezes que flagrou o irmão e a cunhada em situações constrangedoras pela casa, de madrugada. Sem contar que desconfiava que a irmã havia casado às pressas para disfarçar uma gravidez antes do casamento, mas um aborto espontâneo destruiu as provas de que precisava.

Ritinha sentia que a hipocrisia pairava dentro de sua casa, mas por ser sempre tão fiel e verdadeira aos seus sentimentos nunca concentrou-se muito no pecado alheio, apenas tinha convicção de que não era hipócrita nem nunca seria. Também não queria ser como ninguém de sua família: o pai e o irmão machistas e hipócritas, a revoltavam; a mãe, Noemi, boba e submissa, lhe causava pena; e a irmã com o marido, aprendiz de pastor e a vida perfeita, sentindo-se a rainha de Sabá, provocava-lhe tédio. Claro que Ritinha amava sua família e em raros momentos sentia orgulho de percebê-la tão unida e forte, ainda que sob bases duvidosas.

Quando via seu pai ministrando cursos bíblicos e fazendo sermões no púlpito da igreja, enchia-se de admiração com o tanto de conhecimento e o dom da oratória que ele expressava. Ritinha observava o carinho que Abel tinha pelo genro Ismael. Ele preparava o marido da filha mais velha para ser seu sucessor na cédula que pertenciam, era uma amizade bonita de se ver. Estes pequenos momentos de reflexão e consideração sobre sua família, faziam com que Ritinha não achasse seus familiares de todo ruins. Mas no carnaval de seus 17 anos, Ritinha e Abel protagonizaram a pior briga que poderiam ter.

Aos 14 anos, Ritinha fugiu com Duda para seu primeiro baile de carnaval, acobertada pela mãe. Nos anos seguintes o episódio se repetira, sempre acobertada pela mãe, sem que o pai sonhasse. Foi assim aos 15 e aos 16, mas aos 17, Ritinha decidiu que não sairia mais escondida, e de antemão avisou ao pai, que como presente de aniversário, queria a permissão dele para ir ao Baile de Carnaval do Clube daquele ano. Abel rodou nas tamancas e esbravejou aos berros que enquanto vivessem debaixo do teto dele, ninguém daquela casa jamais entraria em um baile de carnaval.

Ritinha ficou amuada, mas não se deu por vencida, ainda faltavam algumas semanas para o carnaval, e aquele ano prometia. Ela já tinha planejado tudo com Duda, que era sua vizinha, e naquele baile de carnaval beijaria pela primeira vez, o garoto por quem estava apaixonada estaria lá, e os dois já haviam combinado de que ficariam juntos. Então Ritinha pôs-se a cantarolar pela casa, para acostumar os ouvidos do pai, marchinhas de carnaval: Ala lá ô, Ô abre alas, Olha a cabeleira do Zezé... Abel resmungava e mandava Ritinha calar a boca, que aquelas eram músicas cheias de duplo sentido para louvar a Satanás.

Mas Ritinha mantinha-se firme em seu propósito de convencer o pai a deixá-la pular o carnaval. Resolveu dar-lhe um choque de realidade. Num dia em que o pai havia acabado de chegar de seu ministério, avisou-o que tinha uma surpresa. Abel descansava no sofá, em frente à televisão quando foi surpreendido por Ritinha fantasiada de Carmen Miranda, dublando sua marchinha preferida: Mamãe Eu Quero. Dona Noemi avisara que não era uma boa ideia, mas Ritinha ignorou seus avisos, e o resultado foi um pai enfurecido rasgando em dezenas de pedaços a fantasia da filha e esbofeteando-a aos gritos de:

- MENINA ATREVIDA, IMORAL, CANTANDO ESSA MÚSICA SUJA, INDECENTE, DENTRO DA MINHA CASA, NA MINHA FRENTE! PERDEU A VERGONHA NA CARA, A NOÇÃO DO PERIGO, SEU DEMÔNIO DISFARÇADO DE FILHA?!?!

Foi um Deus nos acuda. Ritinha chorava convulsivamente sem sair do lugar, tamanho o choque pela reação do pai. A mãe desesperada, implorava que o marido se acalmasse.

Diante de tal acontecimento, Ritinha desistiu de pular o carnaval daquele ano. O pai não falava mais com ela, e para que tudo voltasse ao normal, ela resolveu abrir mão do carnaval que tanto amava. Numa conversa com a mãe, ela confessou sentir-se mal por ter afrontado o pai da maneira que fez, mesmo sem intenção, que o amava apesar de tudo, e não suportava vê-lo tão desgostoso com ela. Decidiu fazer as pazes, hastear a bandeira branca e pedir desculpas por sua "rebeldia".

Naquela tarde, Abel ministrava o curso de Pastor para o genro, Ismael. Era um curso particular e confidencial, mas Ritinha foi ao encontro do pai na Cédula e ficou esperando que ele acabasse com Ismael, para ter com ele. A igreja seria o melhor lugar para que os dois se entendessem, pensou ela. Esperou do lado de fora, mas o curso demorava além do normal. Resolveu entrar. Não havia ninguém na parte central da Cédula, Ritinha estranhou. Adentrou até os fundos do local, e a cena que viu atrás do púlpito a teria deixado cega, se fosse nos tempos bíblicos.

Seu pai, o Pastor Abel, estava ajoelhado diante do genro, o aprendiz de Pastor, Ismael, seu cunhado, marido de sua irmã, que estava com as calças arriadas. O pênis de Ismael estava na boca de Abel. Seu pai abocanhava com gosto o membro rijo e rosado do genro, entre gemidos, movimentos obscenos e palavras chulas.

Ritinha não sabia se gritava, se chorava ou se saía correndo. Seu cérebro foi invadido pelas lembranças da violência do pai rasgando sua fantasia e esbofeteando-a, em meio a marchinha de Mamãe Eu Quero. Sentiu asco, ódio, revolta e soltou um grito ensurdecedor carregada de uma raiva envenenada:

- PAAAAI!

Abel e Ismael ficaram desnorteados diante do flagrante. O pai balbuciou:

- Ritinha?!

Que continuou:

- Seu porco imundo! Eu odeio você!

Ritinha despejou em poucas palavras seus sentimentos e correu. Correu em direção ao nada, ela só queria desaparecer.

Quando anoiteceu, Ritinha bateu à porta de Duda. Pediu aos pais da amiga que não contassem aos seus pais que estava ali. Dormiu no quarto com Duda àquela noite, e só conseguiu contar o acontecido no dia seguinte.

Todos estavam preocupados com Ritinha em sua casa, o pai, mais do que preocupado estava apreensivo. Quando Ritinha apareceu, todos ficaram aliviados, mas Abel não sabia como reagir, então fez o que de melhor sabia fazer, fingiu. Ritinha ainda estava arrasada com tudo, mas manteve a frieza para seguir adiante com a decisão que havia tomado. Chamou o pai para conversar no escritório. A sós, Abel pediu perdão e ainda tentou explicar-se. Ritinha foi firme e categórica:

- Não fala nada. Eu não quero ouvir uma palavra dessa sua boca podre!

Abel sentia muito medo. O coração pulava na garganta diante da possibilidade de Ritinha expôr seu segredinho à toda a família. Ritinha prosseguiu:

- Eu só quero uma coisa de você, minha emancipação. Vá o mais rápido possível na Primeira Vara de Família, de preferência hoje, já. E me traga meu documento de emancipação, porque eu não posso passar mais nem um segundo sob o mesmo teto que você. Eu quero sumir, desaparecer. Não quero que você saiba da minha existência e também não quero saber da sua nunca mais. E se você demorar um milésimo de segundo a mais do que o necessário pra fazer isso, eu vou expôr você pra todo mundo, aqui em casa, na igreja, nas outras cédulas das quais você é conhecido como um exemplo de pastor. Eu divulgo na internet e acabo com a tua raça.

Abel tentou ponderar, mas ele percebia o brilho do ódio nos olhos da filha e achou melhor não arriscar uma barganha. Fez tudo conforme Ritinha exigiu. Em menos de 24 horas, ela inventou uma história qualquer para a mãe e foi morar na casa de Duda. Depois de algum tempo, com a emancipação em mãos e uma boa quantia em dinheiro depositada pelo pai em sua conta, as amigas viajaram para uma temporada de estudos em Nova York. Ao voltarem, já maiores de idade, alugaram um apartamento e foram morar juntas, nunca mais se separaram, e Ana Rita, que proibiu a amiga de chamá-la pelo diminutivo dado pela família, nunca mais viu o pai. A mãe sempre a visitava, os irmãos via esporadicamente, mas o pai nunca mais.

Decidiu que o melhor seria ficar quieta e jamais cogitar a possibilidade de uma revelação para a família, mas nunca mais conseguiu entrar em uma igreja evangélica e nem ouvir Mamãe Eu Quero.

Já era bem tarde quando Duda chegou e despertou Ana Rita de seus pensamentos:

- E aí cara-pálida, preferiu vir pra casa ficar remoendo sentimentos ruins, do que curtir o carnaval com a tua mana aqui, né?

- Eu vou dormir. - decretou Ana Rita, lacônica.

Ficou revirando na cama, sem conseguir pregar o olho. Às três da manhã, levantou, tomou um copo de leite frio, pegou o celular e discou o número. Uma voz rouca, cansada pelo sono e desgastada pelo tempo atendeu:

- Alô!

- Pai! Sou eu, Ana Rita.

- Ritinha!

- Só liguei pra dizer que eu te perdoo. Eu te perdoo, pai! Me perdoa também. Boa noite!

De manhã, ao acordar, Duda deparou-se com uma linda mesa posta para o café da manhã. Ana Rita já estava fantasiada de Colombina, e radiante.

-Bom dia, miga, sua louca! Vamos logo tomar esse café que eu não quero perder um minuto da folia hoje!

Ana Rita contou para Duda que sentia ter exorcizado os fantasmas do passado e estava pronta para curtir o carnaval plenamente.

Embaladas por Mamãe Eu Quero, em mais um bloco de rua, Duda e Ana Rita perdiam a voz de tanto entoar aos berros a marchinha preferida. Enquanto isso, Dona Noemi acordava com o barulho de algum bloco próximo a sua casa. Ana Rita esbarrava em um homem bem atraente de olhos azuis. Dona Noemi chamou o marido para que acordasse. Duda lembrou do carinha de olhos azuis, era o garoto que Ana Rita beijaria no Baile de Carnaval do Clube, o que seria seu primeiro. Os dois se aproximaram, sorridentes e atraídos um pelo outro, ele de Tarzan, ela de Colombina. A marchinha ecoava... dá a chupeta, dá chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar... Abel não acordara. Noemi sacudiu o marido, ele estava imóvel... tenho uma irmã que se chama Ana... Ana Rita e Tarzan já estavam com os corpos colados... mamãe eu quero mamaaarrrr... Abel não estava respirando. Noemi notou o celular na mão do marido, conferiu o último número: Ana Rita. O pai de Ritinha, tinha tido uma parada cardíaca, não resistiu à emoção de falar e ser perdoado pela filha após tantos anos. Seu coração parou. E Ana Rita beijava o Tarzan, livre, inteira e feliz. Uma colombina apaixonada.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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