sábado, 12 de março de 2016

A Homofobia de Benedito Ruy Barbosa (ou Quem Fala O Que Quer...)





Na última quarta-feira, foi divulgada nas mídias sociais uma declaração do novelista Benedito Ruy Barbosa. Declaração esta que deixou em polvorosa a comunidade LGBT, por tratar-se de uma "opinião" homofóbica. Benedito disparou:
“Odeio história de bicha! Pode existir, pode aceitar, mas não pode transformar isso em aula para as crianças. Tenho dez netos, quatro bisnetos e tenho um puta orgulho porque são tudo macho pra cacete. Não sou contra, não acho errado. O que acho é que quando eu tenho na mão 80 milhões assistindo minha novela, tenho que ter responsabilidade com as pessoas que estão me assistindo. Tenho que saber que tem muito pai que não quer que o filho veja, porque eles não sabem explicar, não sabem como colocar. Muita gente reclama disso para mim. O que não é justo é você transformar: só é normal o cara que é bicha, o que não é bicha não é normal. A mulher que é sapatona é perfeita, a que não é sapatona não é legal. É assim que estamos vivendo.”
O disparate foi dito na festa de lançamento da novela Velho Chico, estreia das 21h da próxima segunda, 14/03, uma ideia original do próprio autor, supervisionada por ele, mas escrita pela filha Edmara Barbosa e o neto Bruno Luperi. Disseram que a filha, aliás, ficou bastante constrangida com a verborragia insensata do pai, enquanto este emitia sua "opinião" à repórter que o entrevistava, tentando fazê-lo parar de dizer tais sandices, mas não adiantou. Benedito disse o que quis e a comoção da bicharada foi geral.

Diante deste episódio, não poderia deixar de me pronunciar e ressaltar alguns pontos que me fazem achar desproposital e absolutamente desnecessário esse desabafo de Benedito, se é que podemos chamar assim. E por que não posso deixar de me pronunciar? Porque o assunto envolve duas pautas que muito me interessam: novela e homofobia.

Pra começo de conversa, a declaração preconceituosa de Benedito não me surpreendeu. O que me surpreendeu, e achei um pouco chocante, foi ele tornar sua posição no assunto pública, quando, pelo visto, não estava em pauta uma postura dele sobre o tema, e mesmo que estivesse, não justificaria. Benedito Ruy Barbosa, é uma figura pública, que atua na área da arte e do entretenimento há muitos anos, tem uma carreira consolidada e grandes tramas, provavelmente admiradas por muitos fãs homossexuais ou bichas, pra usar um termo que ele prefere. Não tinha o direito de defecar pela boca suas opiniões homofóbicas.

Perdeu uma oportunidade preciosa de ficar calado, sendo deselegante e desrespeitoso até com os próprios colegas autores e atores de suas tramas que são gays. Digo que a oportunidade era preciosa para não emitir tal asneira, porque ele estava em uma festa, num provável momento de alegria, confraternização e comemoração pela estreia de um trabalho, mas ao invés de usar o bom senso, o velho Benedito, preferiu causar mal-estar nos familiares, que terão que carregar a novela nas costas nos próximos 7 meses, e provocar toda essa celeuma em uma comunidade que nunca fez mal pra ele.

Toda a declaração de Benedito foi um acinte, mas a pior parte pra mim é quando ele diz que tem orgulho por seus netos e bisnetos, 14 no total, serem "machos pra cacete". Gente, que absurdo! O que esse senhor entende por ser macho? E quem garantiu pra ele que essa ruma de macho é tudo heterossexual? Pelas minhas contas e experiência de vida, no mínimo uns dois devem gostar do que balança.

As novelas de Benedito sempre foram rurais, muito masculinas e até um pouco machistas, quase nunca vemos personagens LGBT's em suas tramas, mas há duas ou três curiosidades sobre a diversidade sexual que permeiam suas obras.

Em 1990, Benedito foi alçado ao patamar de autor de grande prestígio, ao lançar pela extinta Rede Manchete a novela Pantanal. Essa trama fez com que o novelista retornasse à Rede Globo, cheio de status, para escrever em um horário que nunca havia escrito, o nobilíssimo horário das 8 (hoje 9). Lembro que nesta novela tinha um personagem gay, o mordomo Zaqueu, personagem pequeno, extremamente caricato, que trabalhava na casa da matriarca Mariana (Nathália Timberg), no Rio de Janeiro. Mas ao acompanhar a patroa até o Pantanal, Zaqueu, que era vivido pelo já falecido ator João Alberto Pinheiro, torna-se um dos personagens mais simpáticos e engraçados da história, tendo direito até à uma paixão pelo peão Alcides, feito por Ângelo Antônio. O peão, macho pra cacete, como devem ser os netos e bisnetos de Ruy Barbosa, rechaça o mordomo afeminado, mas surpreendentemente, no último capítulo, Alcides permite que Zaqueu se deite com ele. Essa cena está cristalizada em minha memória, eu era uma bichinha afeminada aos nove anos de idade, e aquele momento de Alcides e Zaqueu mexeu com a minha cabecinha inocente.

Já em sua chegada à casa nova, na Globo, em 1993, Benedito estreou com Renascer. Nessa novela, o autor criou a personagem Buba, complexa, polêmica, um grande sucesso. Buba, vivida pela então estreante, Maria Luísa Mendonça, era hermafrodita, e confundiu um pouco a cabeça do público, mas com o decorrer da trama, a população brasileira passou a entender um pouco o que era o hermafroditismo. Só um autor sensível e desprovido de preconceitos escreveria uma personagem como Buba. Será que foi mesmo o Benedito que escreveu? E se foi, o que aconteceu com ele?

Avancemos nove anos, e estamos em 2002. A novela é Esperança. Problemática, lenta, um fracasso retumbante. A última de Benedito Ruy Barbosa no horário, após nove anos consecutivos. Durante os trabalhos, o novelista ficou muito doente e teve que ser afastado de sua história. O então recém contratado, Walcyr Carrasco, uma bicha assumida e que escreve bichas maravilhosamente, é chamado às pressas para substituí-lo no andamento da trama. Carrasco chega chegando, dá uma mexida tão brusca na novela, que chega descaracterizá-la, mas funciona, a lentidão acaba e a audiência reage aumentando alguns pontinhos no ibope. Engraçado, não, uma bicha foi a última esperança para a Esperança do homofóbico Benedito, e deu certo.

Hoje, parece que esse senhor sofre de um surto de amnésia e esquece todos esses momentos de sua trajetória que foram marcantes, e protagonizados por alguma letra da sigla LGBT.

Alguns, diante da declaração de Benedito, colocaram "panos quentes", justificando que ele já está muito velho e não merece ser crucificado. Nada disso! O respeito tem que haver em qualquer idade, 85, 90, 100, 10, não interessa. Posso citar como exemplo Sílvio Santos, que tem a mesma idade de Benedito, deve estar tão caquético quanto ele, fala um monte de besteiras, mas nunca desrespeitou ninguém.

Outros, em contrapartida, indignados, e com razão, falam em um boicote à nova novela que estreia na próxima semana. Curioso, que há um ano acompanhávamos uma polêmica inversa no horário nobre. A famigerada Babilônia sofria ameaças de boicote das igrejas evangélicas, por apresentar personagens gays demais, mais precisamente 4, em uma novela com mais de 50 personagens. A novela flopou, acredito que mais por ter sido mal conduzida do que por causa de boicote.

E nós, vamos boicotar? Acho que não deveríamos, não por esse motivo. Podemos nos mostrar superiores aos haters e homofóbicos, e talvez dar uma chance à pobre Edmara, que não soube onde enfiar a cara depois das porcarias que seu pai falou. Mas, de verdade, acho que não acompanharei Velho Chico. Simplesmente porque as histórias de Benedito Ruy Barbosa são chatas e cansativas, verdadeiros soníferos. Sinceramente, não curto nada do que ele escreve.

Pantanal era novidade, tinha um visual lindo, mas era lenta. Renascer, você pega o primeiro e o último mês, e temos uma novela perfeita, o resto, encheção de linguiça. O Rei do Gado, chata. Terra Nostra, insuportável. Esperança foi a que mais gostei, apesar do fracasso, mas também era lentíssima. Os remakes das seis, todos: Cabocla, Sinhá Moça, Paraíso e Meu Pedacinho de Chão, só pela misericórdia. Questão de gosto, não agrada meu paladar novelístico. Ainda assim, darei uma chance aos primeiros capítulos de Velho Chico, nem que seja pra falar mal com conhecimento de causa.

E se a novela flopar, não vale pedir ajuda dos coleguinhas Walcyr, Aguinaldo, Gilberto, Falabella, João Emanuel, Linhares... Porque titio Bené odeia história de bicha.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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7 comentários:

Aconteceu disse...

Parabéns pelo texto,como sempre excelente....Passei mal de rir lembrando vc pequeno bichinha na casa da vó,doido pra sabe se eu já fazia alguma coisinha kkkkkkkkkk.
Agora após essa polêmica tive a oportunidade de conversar com um grupo alunos,entre "sapatinhas" e "bichinhas",todos adolescentes acreditando que o mundo em que vivem é totalmente purpurina,todos bem jovens e super assumidos.
Aproveitei e mostrei o quanto a nossa sociedade é PRECONCEITUOSA.
E que ainda irá demorar muito para se existir respeito e igualdade....
Beijos saudades.......

Júlio Paiva disse...

Adorei a última frase do texto: e se a novela flopar não adianta pedir ajuda aos colegas como Linhares,Falabella,Walcyr...rsrs

Anônimo disse...

Acho que todos tem seu livre arbitrio, e isso foi dado por Deus. Cada um faz o que quer com sua vida. O mais importante é a felicidade, se você se sente feliz com o que faz, faça! A opinião dos outros não vai interferir na sua vida, ou como costumo dizer, não pagarão suas contas. Não acho correto, mas quem sou eu para julgar os outros?!

Anônimo disse...

bando de viados, vão tomar no cú.

Anônimo disse...

Só porque o autor não vai colocar um núcleo de viados na novela, as bichas vão boicotar, azar de vocês, 99% da população vai assistir...

Anônimo disse...

A imbecilidade nazigayzista é algo, hem?? Quer dizer que se não se baixar as exigências do NAZIGAYZISMO é motivo de ódio?? Vão tomar no cu (afinal, já o fazem ,não?) suas frangas de merda e aprendam que assim como vcs "exigem" respeito, respeitem a opinião dos outros, babacas acéfalos arrogantes!! Apoiadores de regimes fascistas ignorantes!!!

Anônimo disse...

Então é regra isto?
"só é normal o cara que é bicha, o que não é bicha não é normal. A mulher que é sapatona é perfeita, a que não é sapatona não é legal."

É também agora lei que em toda história os herois devem obrigatóriamente ser alguma "minoria" e os vilões devem obrigatóriamente não ser de nenhuma "minoria" também?
Fica difícil quando se criam tantas obrigações assim.