sexta-feira, 25 de março de 2016

"A Monogamia e as Religiões São Delírios Coletivos"





Eu inicio esse texto me apropriando do título de um vídeo do Welson Barbato, psicólogo e psicanalista, para o canal Casa do Saber, do YouTube. Esse vídeo discorre sobre um assunto que sempre permeou meus pensamentos e o psicólogo em questão traz o assunto à luz do pensamento de Lacan. Ele faz a introdução do assunto com a seguinte colocação: 
“A monogamia e as religiões são delírios coletivos. Por que delírios? Porque sustentam a existência de um objeto que me satisfaz plenamente.”
Lembro bem quando eu era bastante jovem e me entendi como gay, ainda na transição de minha infância para minha pré-adolescência. Eu, que morava em uma cidade do interior, pensava sempre naquele ideal de casa dos comerciais de margarina, onde eu me casaria com alguém, teria uma casa super legal e, quando economicamente estável, passaria a ter meus dois filhos. Tudo isso permeado, claro, pelo pensamento de fidelidade eterna. Ledo engano. Conheci pessoas, namorei e fui muito desapontado bem como desapontei. Alguns dos relacionamentos seguiram por um bom tempo, outros nem tanto tempo assim, mas uma coisa foi mudando: o meu modo de pensar a respeito de temas como companheirismo, fidelidade e qualquer assunto que siga em torno do relacionamento a dois. 

Lembro certa vez de ouvir uma pessoa dizer que preferiria alguém leal a alguém que oferecesse fidelidade. Isso martelou minha cabeça por um bom tempo e, com as experiências vividas por mim e por amigos próximos, fui moldando meu pensar. 

Welson Barbato ainda comenta em seu vídeo que essa ideia de monogamia é atrelada à ideia do amar. Se você gosta então você é, ou tem que ser, fiel. Se você não é fiel, é porque não ama. Claro, se o objeto que te satisfaz completamente é o teu objeto de desejo e por te satisfazer, ele precisa ser apenas seu. Uma ideia que demonstra nossa natureza controladora, egoísta e, por que não dizer, maniqueísta. Como diz Welson, essa lógica binária é cruel. 

Não estou defendendo que temos todos que sair por aí traindo, ou que não existam pessoas que se sintam suficientes entre si. O ponto ao qual quero chegar é que não deveríamos nos martirizar tanto com essa ideia de exclusividade, com essa ideia binária de bem e mal. Trai, não ama. Ama, tem que viver em função do outro. As pessoas esquecem que somos seres de desejo e sentir desejo, portanto, faz parte de nossa natureza. Entre os humanos, a opção pela poligamia depende do contexto sociocultural. Existem diversas culturas que aceitam e incentivam a poligamia. Para alguns grupos é uma questão cultural e aqui chegamos à religião. Esta impõe uma ideia de pecado e castigo. Sempre levando as pessoas a viverem sob a égide de regras pelas quais seremos salvos. 

Mais uma vez, não estou tentando dizer que temos que ser polígamos, ou que precisamos ser infiéis. Quero dizer que acredito com veemência no que ouvi naquele dia, que dou mais valor à lealdade que à fidelidade. Eu não sou hipócrita ao ponto de dizer que nunca dei um beijo fora de um relacionamento, da mesma forma que acredito que nos relacionamentos que tive o outro também não tenha feito o mesmo. Mas onde está o erro daquele momento? Para mim, está em não termos sido leais ao outro, não termos sido companheiros e não termos compartilhado o que sentíamos e o que acontecia em nossa vida. Quando há amor, em minha opinião, há companheirismo e compreensão. Por isso, hoje em dia, eu dou o maior ponto para os casais que resolvem não esconder o desejo que sentem por outros e até chegam em algum acordo para poderem administrar isso. 

Viver negando o desejo é viver se negando. É nos castigarmos por algo que faz parte de nossa natureza. É mentir para nós mesmos e, essa sim, para mim, é a maior mentira que poderíamos proferir, esse sim é o maior pecado. 

Não venho fazer apologia ao amor livre, apesar de apoiar os grupos. Venho fazer apologia ao respeito, que não necessariamente seria não desejar outra pessoa, mas ser verdadeiro, ser maduro, ser adulto e fazer algo que o ser humano tem muita dificuldade: conversar de peito aberto, de forma sincera. 

Venho fazer apologia ao respeito ao desejo, seja ele de ser fiel ou seja ele de praticar o amor livre, desde que a atitude seja sincera para com o outro mas, principalmente, sincera para si próprio. 

Leandro Faria  
Breno Silvestre é publicitário, não perde um Lollapalooza, é fã de Björk e quadrinhos. Tem fama de melancólico, mas é só fama mesmo.
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