quarta-feira, 23 de março de 2016

À Sua Imagem e Semelhança





Estamos às vésperas da Semana Santa, aquela que culmina na Páscoa. E Páscoa fala de renovação, seja você cristão ou não. Especificamente no caso de Cristo, para quem acredita nos escritos da Bíblia (ou para quem os enxerga em boa parte como metáfora, como eu), simbolizou a vitória da vida sobre a morte, num recado claro de que ideais estão muito acima da matéria. Desde a vinda do nazareno a essa Terra, há mais de 2 mil anos, muita coisa já se passou por essas bandas. Mas o povo, não só o hebreu, parece não ter aprendido exatamente essas mensagens.

As religiões, em sua essência, são também uma grande metáfora da humanidade: acreditamos tanto em um Deus que nos criou à sua imagem a semelhança quando, na verdade, o criamos também a nossa imagem e semelhança no nosso imaginário coletivo. Esse é o motivo de vermos tanto na mesma Bíblia de um Deus que oscila entre momentos impiedosos e irados e outros dóceis e repletos de amor.

Por isso, esse acaba sendo um texto sobre o ser humano. Temos vivido momentos de extrema intolerância, principalmente em nosso país. Curiosamente, uma nação conhecida e reconhecida por seu acolhimento, hospitalidade, calor... humano. Acredito que essa intolerância, na verdade, sempre existiu, mas esteve canalizada em reações como machismo, racismo, homofobia, discriminação social. Agora, num momento em que vivemos imersos em uma nova era, na qual a informação e opiniões são difundidas em redes e até mesmo a mais ignóbil das opiniões tem espaço, vemos discordâncias que antes eram pacificamente solucionáveis se tornarem fins da picada.

Roupas vermelhas demonizadas nas ruas tais como suásticas; manifestantes agressivos e impositivos; xingamentos em público a autoridades que, queiram ou não, representam (ou ao menos, representaram) a maioria dos seus compatriotas que optaram por votar em alguém – e, por mais que não possam ter essa maioria absoluta no momento, ainda representam as esperanças de milhões de pessoas que não estão refletidas nas manifestações das ruas.

Tenho minhas convicções políticas. Assim como as minhas religiosas. Sempre tive como princípios só debatê-las com quem está aberto a isso. Nunca entendi muito o motivo de se ir ao extremo em uma discussão de ideias. A grande arte de viver consiste em saber envergar, e não quebrar. Porque sempre estaremos submetidos a situações de estresse, pressão e discordâncias.

Infelizmente, parece que não estamos encontrando um caminho de mais diálogo e compreensão. Não à toa, cresce a corrente jocosa de pedir para o meteoro vir e dar um grande reset na humanidade, tal como foi com os nossos precursores dinossauros. Se seria Deus impiedoso ou bondoso ao optar por tal apocalipse, tenho minhas dúvidas. Mas enquanto a grande maioria dos brasileiros estiver evitando a carne vermelha na Sexta-Feira da Paixão e comendo seus chocolates no Domingo de Páscoa, lamentavelmente não estarão refletindo sobre os rumos que tomamos, sobre a renovação que a data busca nos fazer refletir.

O mundo está fervilhando. O Brasil está fervilhando. É um direito de todos aproveitar o feriado entre descanso, chocolates e bacalhaus. Mas um dever também pensar na mensagem do nazareno, antes de termos que declarar a falência definitiva da humanidade – sem a necessidade de meteoros para nos dizimar... 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Homem, Homossexual e Pai disse...

Belo texto... não sabia que tinha tanta gente esperando o meteoro, eu estava pensando mais num pouco de paciencia e gente mais centrada para tentar melhorar as coisas por aqui! eu nem acho que esta tudo tão ruim... era pior quando nao sabiamos de nada! abraços!