sábado, 26 de março de 2016

Azul Escuro





As luzes piscantes. A batida do som, repetida. A fila do bar lotada. Os go-go boys sarados, suados, com micro-sungas brancas em suas performances rebolativas. Bichas batendo cabelo, outras fazendo carão. Gente bêbada. Gente frustrada. Num canto, os bombados discretos, no outro as pintosas afetadas, na eterna e cansativa segregação gay. Meu amigo tinha se enfiado no dark-room. O carinha que eu tinha beijado há uma hora já estava se agarrando com a quarta pessoa depois de mim. Passavam das quatro da manhã. Eu já estava de saco cheio daquele circo. Bebericando uma caipirinha de limão, tudo o que eu pensava era que só queria encontrar alguém legal naquela boate, alguém que eu pudesse enxergar à luz do dia, no dia seguinte, alguém que não fosse apenas mais um rosto e uma boca aleatória na multidão.

O calor estava insuportável e eu morrendo de vontade de tirar a blusa, mas diante de tantos corpos malhados, desisti. Sempre fui meio gordinho, fora de forma e nunca tive coragem de ficar sem blusa na balada. E em meio a esse pensamento sobre corpos e a ditadura da beleza no meio gay, ele surgiu entre nuvens de gelo seco e o brilho dos estroboscópios, lindo feito um deus. Fiquei atônito, com a respiração suspensa por segundos, de repente não consegui pensar em mais nada. Vi-o entrando no banheiro, fui atrás sem pestanejar. Sabia que jamais teria uma chance com aquele homem monumental, mas precisava olhá-lo até que ele sumisse do meu campo de visão pra sempre. Me lembrei de uma canção de Ana Carolina e Seu Jorge que diz "eu não sei parar de te olhar, eu não me canso de olhar, não vou parar de te olhar...". 

E no banheiro cheio de gente, quando ele entrou não houve quem não olhasse, todos admirados e embevecidos, desejando uma lasquinha daquele Apolo. Eu fiquei parado num canto, observando o movimento e o frisson que ele causava. Ninguém ficava indiferente àquele pedaço de homem esculpido meticulosamente por uma vida dedicada a exercícios físicos e um rosto que mais parecia pintado por um mestre renascentista, a não ser ele, o carinha de polo vermelha que lavava o rosto na pia, alheio ao burburinho em torno do outro.

Era destoante a indiferença do cara de polo vermelha em meio a todos os olhares de interesse e admiração em torno do boy-magia. Tão destoante que despertou minha curiosidade: por que ele não olhava? Será que era um daqueles caras que abominavam o tipo narcisista, bombado, arrogante, que se acha a última bolacha do pacote e sente um imenso prazer em desfazer dos outros, simples mortais? De qualquer forma, mesmo detestando esses tipos, como eu também detestava, era difícil ficar indiferente ao Mr. Macho Escultural. Nem ao menos uma olhada de esguelha. Agora, ele olhava fixamente pro espelho, enquanto secava o rosto rosado com o papel-toalha.

O não olhar do cara de polo vermelha chamou a atenção de Mr. Macho Escultural, que propositadamente se aproximou da pia e puxou assunto com ele. De onde eu estava não dava pra ouvir com clareza o que falavam, eram quase sussurros, mas consegui fazer uma pequena leitura labial. O bofe escândalo disse "Oi", e só então o cara da polo vermelha virou-se pra ele com um sorriso tímido, mas simpático. Mr. Macho Escultural falou algo sobre os olhos dele serem lindos, e pelo que eu pude perceber de longe eram azuis, pareciam bonitos mesmo, mas depois desse elogio, ele pareceu ficar ainda mais tímido. Agradeceu e fez menção de ir embora, porém Mr. Macho Escultural, inconformado em ser dispensado, deu seu golpe de misericórdia. Puxou o outro pelo braço, pedindo que esperasse um pouco e tirou a camisa, exibindo seu perfeito e maravilhoso torso nu, indagando em seguida: 

- Que tal, gosta do que vê?

Com aparente ar de incredulidade, o cara da polo vermelha rebateu.

- Como? 

Mr. Macho Escultural fez com que a mão do outro pousasse em seu peito dourado e musculoso e arrematou.

- Isso tudo pode ser seu. Já pensou quantos aqui não queriam estar no seu lugar? 

O cara da polo vermelha parecia chocado e indignado. Afastou-se com veemência e disse que não estava interessado. Enfurecido, o mais cobiçado da noite, rejeitado, vociferou.

- Você é um babaca, cara, nunca ninguém me dispensou assim. Nunca mais vai ter uma chance como essa, imbecil! 

E saiu feito um boi brabo, batendo a porta.

Imediatamente o banheiro se esvaziou. Ficamos eu e o carinha de polo vermelha, sozinhos. Ele parecia meio zonzo, meio desnorteado. Recostou-se na pia. Fui falar com ele.

- Oi, você tá bem?
- Oi! Tudo bem sim, foi só uma tontura, já vai passar. Deve ser o calor.

Mais próximo dele, pude reparar o quanto era bonito. De uma beleza suave, mas madura. Parecia ser uns dez anos mais velho que eu. O cabelo era bem escuro, negro e muito liso, tinha a pele branca quase rosada e olhos azuis cristalinos que pareciam olhar através de mim. O corpo também era muito bonito, em forma, bem diferente do meu. Estava vestido de um jeito que eu gosto, calçava tênis da Nike, uma calça jeans escura, e claro, uma polo vermelha da Burberry.

- Meu nome é Igor.
- Prazer Igor, Caio!
- Adoro esse nome, Caio!
- Obrigado!
- Chato o que aconteceu, né? Aquele cara foi um idiota!
- Foi o que pareceu, um grandessíssimo idiota!
- Mas eu tenho que confessar, poucas pessoas dispensariam um cara daquele. Só alguém mesmo muito seguro de si. Em nenhum momento você sequer olhou pra ele, só quando ele foi falar com você. Enquanto todo mundo aqui tava babando por ele. Isso mexeu com a vaidade dele. Queria ser como você, não me impressionar por esse tipo de cara. Ser mais eu, sabe?
- Você jura que também não percebeu? - Questionou-me ele.
- Percebi o que?
- Olha bem nos meus olhos! 

E Caio se posicionou diretamente em frente ao meu rosto, e então eu me dei conta. Seus olhos me traspassavam porque Caio não enxergava, ele era cego. E de repente uma onda de amor e doçura me envolveu como um abraço quente. Ofereci uma bebida pra ele e saímos do banheiro.

Conversamos muito. Toquei o rosto dele e ele tocou o meu. Eu finalmente conheci o cara mais legal de todos, aquele que esperei por noites intermináveis. E na escuridão do azul profundo de seus olhos, ele me enxergou além da superfície e me amou mais do que eu jamais sonhei. E eu o amei. E nós nos amamos!

Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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