terça-feira, 22 de março de 2016

Cotidianos Múltiplos - Escuridão




E aí, gente, tudo certo?! Vou fazer uma introdução rápida aqui, beleza? Eu andei conversando com um grupo de pessoas que estão passando por diversas situações em suas vidas. Luto, depressão, términos de casamento, alcoolismo, enfim e enfim. Foram várias experiências tristes ali compartilhadas, eu ouvia tudo atentamente (estava acompanhando um amigo que está passando pelo processo do luto) e várias histórias me chamaram atenção. A forma como eram contadas, usando analogias, transportando seus problemas para outras dimensões, criando cenários, situações que, em suas mentes, deveriam ter acontecido, mas que não aconteceram. Foi aí que eu resolvi trazer algumas dessas situações para o Barba, sem comprometer a identidade de ninguém e, é claro, com a autorização de cada um.

Foi assim que surgiu o primeiro de três contos isolados: 

Escuridão

Lá estava eu, voltando pra casa. Os alarmes sentiram a minha presença e começaram a latir e uivar, de diversos pontos do caminho. Não importa o quão silencioso eu ande, eles sempre conseguem sentir a minha presença. Acredito que consigam sentir a presença de qualquer um, o que é uma habilidade e tanto.

Ainda estava tentando entender os acontecimentos da noite anterior. Não conseguia me lembrar como foi que eu fiz aquilo de estar num lugar e, de repente estar em outro. Eu sabia da habilidade de audição e cópia, mas saltos no espaço-tempo? Essa é nova! 

Eu só ouvia o som dos meus passos, ecoando pelo caminho molhado e lamacento. Me concentrei pra aguçar a audição, que não é tão boa quanto a dos alarmes, tentando ouvir mais passos, saber se eu estava sendo seguido, mas não ouvi nada, felizmente. O céu estava negro, o caminho estava na penumbra, com aquela névoa pós-chuva que bloqueia a luz dos iluminadores.

Ouvi algo se aproximando. Parecia grande e pesado. Inspirei e respirei, forte e lentamente, focando a minha audição na direção do barulho. Um gigante metálico passou por mim, fazendo barulho, cantando uma canção estranha que não consegui identificar. Ele andava devagar e pareceu não notar a minha presença, graças a roupa preta que eu usava. É sempre bom usar roupa preta em noites escuras. Os alarmes uivaram e latiram com mais força. Não diminuí e nem acelerei o ritmo dos meus passos, mas mantive a minha atenção no gigante, que seguiu seu caminho fazendo barulho e cantando.

Entrei no caminho da minha casa. Não havia iluminadores. Nem névoa. Nem nada. Só escuridão. Pesada, intimidadora. Os guardiões me encararam de cima dos muros. Silenciosos, eles moviam a cabeça lentamente a cada passo meu, sem tirar os olhos de mim. Tinham olhos amarelos que se destacavam, mas não muito, na escuridão, outros com olhos tão negros quanto os pelos. Olhei para o outro lado do caminho, não consegui ver os morros. Não via nada. De repente ouvi minha respiração. Eu estava respirando alto demais, isso não é bom. Os guardiões continuavam me observando, era só o que eles faziam. Observavam.

Ouvi outro barulho. Provavelmente outro gigante metálico, só que não consegui  ver de onde ele vinha, a escuridão estava me distraindo e o som ecoava no silêncio. Mantive meu ritmo, foquei no final do caminho.

Foi quando uma luz surgiu no final. Era como se o sol estivesse acabado de nascer ali. Comecei a me alegrar com aquilo. A luz me encheu de calor, de vida, de esperanças.

Aí eu lembrei que, quando a escuridão é quase palpável de tão densa, a menor faísca pode significar a nossa maior esperança. Ou a nossa maior destruição.

Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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