terça-feira, 29 de março de 2016

Cotidianos Múltiplos - Romance





No penúltimo conto eu retrato duas histórias românticas que teriam sido lindas se tivessem acontecido desse jeito. Duas pessoas feitas uma para a outra e, ainda assim...

- Ei...
- E aí! Tá tudo bem? Pensei que já estava se apresentando.
- Não, ainda não. Daqui a meia hora.
- Certo. E o que você manda?
- Nada. Só um pouco de nervosismo. Queria ouvir a sua voz.
- Essa minha voz horrível? HAHAHAHAHA
- Não é não! Você e essa mania, hein... Sua voz é ótima.
- Até parece.
- Então, converse comigo. Me distraia.
- Ah, então é isso que eu sou pra você? Distração?
- Você sabe que não consegue fazer drama, não é?
- Não custa tentar, certo? AH, fiz bolo de limão. Acabei de fazer, na verdade.
- Hum... Tem aquele creme por cima?
- Tem sim!
- Até salivei.
- Você vem pra cá?
- Você quer que eu vá?
- Eu... Não sei o que você quer...
- Eu quero o que você quiser.
- Certo... E os filhotes, já conseguiu doar todos?
- Sim, felizmente!
- Se eu pudesse adotaria um, mas a minha vida é tão corrida...
- Vida de artista, eu sei como é... Hahahaha
- Eu faço backing vocal, não é tão glamouroso assim. É bacana, até.
- Seu trabalho é ótimo!
- É, eu sei, eu sei.
- Tá tudo bem? Tem uma tensão na sua voz...
- Tá tudo bem sim... Bem... Sabe como é...
- É sobre o que eu disse, não é?
- Não, é que...
- Me desculpe.
- Pelo que?
- Por ter dito o que eu disse naquele momento. É que eu... Eu tinha essa ideia de nós, lado a lado, pra sempre.
- Eu sei.
- Não era pra ter saído daquele jeito, muito menos naquele momento. Eu teria feito como você gosta: nós dois num restaurante, quem estivesse tocando começaria a tocar a sua música favorita, e enquanto isso eu me levantaria da cadeira, me ajoelharia e pediria na frente de todo mundo. Como você gosta, bem romântico. Você adora romance.
- Faria isso?
- Claro.
- Ajoelharia num restaurante? Na frente de todo mundo? Por mim?!
- Claro!! Eu te amo! Estávamos bebendo muito, empolgados, a festa estava ótima, e você sabe que eu tenho aquela coisa com ansiedade, não é? Não me aguentava de vontade de te pedir em casamento. Foi muita estupidez da minha parte dizer "EU TE AMO, CASA COMIGO!" daquele jeito!
- Eu me assustei, é verdade. Mas não foi por isso. Pensei que você não quisesse se casar. Sempre que eu falava, você parecia meio... sei lá, parecia que isso te incomodava. Foi uma surpresa e tanto pra mim!
- Foi?
- Foi sim.
- Droga... Agora vou ter que pensar em algo mais romântico ainda. Talvez algo com pombos brancos, e quem sabe um monte de criancinhas, algo assim, preciso pensar.
- HAHAHAHAHA não precisa!
- Claro que sim! Você merece!
- Ei, dez minutos. Preciso entrar.
- Tudo bem. Boa sorte.
- Valeu! Ah, e mais uma coisa.
- O que?
- Eu aceito.

Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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