domingo, 20 de março de 2016

Daqui a 20 Anos Pode Ser Muito Tarde





Essa foi a semana mais conturbada da nossa história mais recente. Os fatos se atropelaram de uma maneira tão rápida que foi até difícil entender tudo o que estava acontecendo. Tornamo-nos um país tão polarizado que, dependendo da sua opinião você já é encaixado num espectro político que, às vezes, está longe de ser o seu de verdade. Sobre isso todo mundo já falou, e eu peço a permissão pra usar esse espaço plural para compartilhar o meu desafio desses últimos dias. Procurei ler muitas opiniões de todos os lados, li especialistas em Direito e debati pelas mídias sociais com pessoas contra e a favor do governo. Mas o maior trabalho estava onde eu menos esperava: na sala de aula. 

Meu nome é Eduardo Maiolino e já estive aqui no Barba Feita duas vezes anteriormente (textos aqui e aqui), sempre a convite do meu cunhado Paulo Henrique Brazão, o colunista oficial das quartas-feiras. Sou professor de História e, antes que você grite “Marxista! Comunista! Petralha!”, calma. Não é por aí. Sou de esquerda sim, mas não me considero um radical, muito menos um doutrinador. Não vou devorar as criancinhas. Para mim, o meu dever máximo ao ensinar é conseguir formar a capacidade do aluno pensar por ele mesmo. Por isso não me nego a conversar sobre qualquer assunto, e SEMPRE me posiciono sobre o tema proposto. Muitas vezes não domino um tema ou não sei uma resposta, e sou muito sincero em confessar que não posso dar uma opinião embasada. Faço a Glória. Mas mesmo assim: aborto? Vamos conversar. Casamento gay? Pra agora. Liberação das drogas? Quero. Machismo, feminismo, racismo, liberdades individuais, etc. E aí chega a quinta-feira de manhã, dia 18: 
- Professor, o que você acha do que tá acontecendo com a Dilma? 
Vi muitos colegas se perguntando como os professores iriam explicar o “rebosteio” daqui a 20 anos. Não, esquece o futuro. Isso deve ser explicado e debatido em sala agora. Nossas crianças precisam ter mais consciência política, e isso deve começar desde cedo. Conversei sobre os fatos da semana com alunos do 6º ao 9º ano, tentando ser didático e me posicionando quando necessário. E sempre ouvindo o que tinham pra perguntar e quais eram suas opiniões. E eles têm tanta coisa pra perguntar! E também têm muitas verdades impostas a eles pelos mesmos canais que manipulam as informações para os adultos: 
“Mas professor, eu vi que o filho do Lula é um dos caras mais ricos do mundo!” 
Precisei atualizá-los sobre os fatos. Comecei pela Lava-Jato e pelo Moro; falei sobre o processo de Impeachment, sobre as manifestações de domingo, a delação do Delcídio, e a indicação do Lula pro Ministério; cheguei à quebra de sigilo dos telefonemas e na sexta-feira os atualizei sobre a liminar que impedia Lula de tomar posse, além de lembrar que teríamos naquele dia manifestações pró-governo. Não sabia quais seriam as cenas dos próximos capítulos, por isso disse pra eles que estava tudo muito em aberto. Sofri com uma enxurrada de perguntas, que iam desde se eu gostava do Moro, até se eu achava que teria um golpe militar novamente. Até aquele-que-não-deve-ser-nomeado (cica: o nome da criatura começa com “Bol”) apareceu. 

Comecei a dar minhas opiniões, mas antes lembrei que eles também precisavam buscar outras fontes. Como dizia um professor meu da UFF: 
“Nada que eu falo pra vocês é verdade.” 
Dentre outras coisas, falei pra eles que acho a Lava-Jato importante, mas que ela me parece ter muitos problemas, principalmente no modo como alguns políticos delatados são investigados e outros não. Que o juiz Sérgio Moro parece muito, às vezes, querer holofotes, criando espetáculo e agindo até acima da lei (como no caso da divulgação dos grampos, na opinião de alguns juristas); disse que as manifestações de domingo passado foram históricas e MUITO importantes, mas que por mais que a mídia tentasse passar essa imagem, ela não representava o todo da população (e lembrei da Marcha da Família pré-golpe de 1964); que a oposição e a mídia parecem já criar um veredito sobre Lula e Dilma, mesmo que eles só estejam sendo investigados, e que a força das mídias sociais multiplica isso por mil; disse que achei estranha a indicação de Lula para o Ministério, mas que discordava da tese de fuga do STF, mesmo após os áudios; que concordo com a tese de que há um golpe político sendo tramado, e que acho que a Dilma toma o Impeachment; e finalmente disse que se forem provados quaisquer tipos de crimes, que eles sejam presos. Só eles não, qualquer político corrupto. Ninguém está acima da lei. 

E lembrei a eles de Getúlio Vargas e João Goulart. Políticos massacrados pela mídia, acusados por todos os lados, e que tiveram fins trágicos, cada um a seu modo. Porque esta é minha função também: fazer com que eles consigam relacionar o passado com o presente. Se no final da aula der certo e eles conseguirem fazer isso e ainda pensar criticamente sobre política, quem sabe daqui a algumas gerações não precisaremos ter manifestações contra a corrupção no Brasil. Essa sim deveria ser uma luta de todos nós.

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Leandro Faria  
Eduardo Maiolino tem 29 anos, mora em Niterói, é músico e professor de História, mas não lembra data nenhuma. Só a do aniversário da filha.
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Um comentário:

Deborah disse...

Gostei de quase todo o texto. Só a previsão pessimista (porém realista) de que a Dilma"toma o golpe" é que não gostei. Insisto em querer manter a esperança.