terça-feira, 8 de março de 2016

Das Reflexões Que Minha Cadela Me Faz Ter





Eu tenho uma cadela que se chama Honda. Uma vira-lata linda, orelhuda, da língua grande, e um catiço. É sério, Honda é um catiço de cachorra. Lembram do Taz, dos Looney Tunes? Então, é Honda. E assim, o quintal? É dela! Ninguém além da família tem permissão pra entrar, e isso inclui os pardais e demais passarinhos que vêm pra cá por conta das plantas, os beija-flores, lagartixas que ficam na parede da varanda, sapos, gatos, essas coisas. E ela grita mesmo, tá gente? Grita de um jeito que eu acordo e saio desesperado pra ver o que é, isso lá pelas três, quatro horas da madrugada. Outro dia ela estava dentro do quarto dos meus pais, latindo com o vizinho, presta bem atenção. O cara estava na casa dele, subindo a escada pra ir pro terraço, e ela inconformada com aquilo. Eu falei: “Ô Honda, quer fazer o favor de parar?!”, e ela seguiu, inconformada, mas parou de latir, só ficou bufando, porque a movimentação estava incomodando ela. 

Outro dia estava eu deitado tomando café e Honda, num dos raros momentos de paz e quietude, estava deitada do meu lado, olhando pro nada, me fazendo companhia. Fiquei olhando pra ela e comecei a falar com ela (se vocês não fazem isso com os animais de vocês, não sabem o que estão perdendo): “Por que você não é sempre assim? Por que tem que sair gritando, alucinada? Nem tudo você precisa sair no grito não, sabia?”, e ela me olhava como quem diz: “Quê?!”. Mas ela me entende, essa cadela não é normal, o que é bom! 

E foi aí que surgiu esse texto, porque tem umas coisas na vida que são tão desimportantes, e que a gente acaba se preocupando, não é mesmo? “Ai, por que fulano se veste assim?”, ou então “Nossa, fulano sai assim de casa? Eu tenho que dar um pitaco”, e até mesmo: “Iiih, essa Coca é Fanta, hein? Vou atazanar esse aí até ele sair do armário!”, e vamos gritando, alucinados, tentando resolver as coisas no berro, na força. Fulano te magoou, jogou uma indireta pra você no Facebook, aí é hora de você pensar: Vale a pena? Fulano tá fazendo isso por quê? Eu devo postar uma indireta pra fulano? Devo chamar ele pra conversar?

Aí você chama fulano pra conversar e já sai esculhambando tudo, jogando verdades na cara, dizendo coisas que não precisavam ser ditas; ou então você vai lá e posta uma indireta pro fulano, e aí o Facebook vira aquele auê, com troca de ofensas pra todos os lados. Pra que, né? Se você tem a opção de ignorar uma indireta e deixar a pessoa falando sozinha, se passando por louca, então não tem motivo pra revidar, certo?

Outro caso: Ciclano está no armário e isso te incomoda. Por que isso te incomoda? Por que você sair gritando pra todo mundo que Ciclano é gay? Eu to falando de Ciclano, mas pode ser Ciclana também, tá? Coloquem aí o gênero que vocês acharem melhor. Não é mais fácil parar e pensar: “Ciclano é gay, mas tá no armário. Bem, se ele me der abertura pra falar sobre isso, eu posso tentar dar um conselho, ou uma palavra amiga, alguma coisa pra tentar ajudar Ciclano. Mas se ele não me der abertura, vou ficar quieto aqui, afinal, ele tá subindo a escada da casa dele e eu tô dentro da minha casa, então eu tenho que cuidar da minha vida.”. Viram? Não tem necessidade de “latir”, vamos colocar assim (não quero ofender ninguém) pra Ciclano, só porque o que ele faz com a vida dele te incomoda.

Não precisa sair alucinado(a) debochando de Beltrana, ou Beltrano, por causa das roupas que a pessoa usa. Vai ver ela não tinha dinheiro pra comprar uma melhor, ou vai ver a pessoa gosta de se vestir assim. O ideal é a gente cuidar do nosso próprio quintal. Claro, tem umas coisas que a gente vai ter que dar uns gritos sim, mas só em caso de invasão de privacidade, até porque ninguém merece alguém querendo cuidar da nossa vida, né? Mas até isso a gente pode tentar combater sem fazer como a Honda e sair gritando alucinado pelo quintal, fazendo todo mundo ouvir, irritando todo mundo (porque sim, uma cadela berrando alucinada às quatro e meia da madrugada irrita qualquer um). Então vamos tentar, em 2016, resolver menos no grito e mais na conversa e reflexão? Repetindo: Tem horas que o grito é necessário, mas é interessante gritar apenas quando imprescindível, senão a gente acaba ficando com a atitude gasta e isso não é legal, eu acho.

Então é isso, fica aí a dica, e eu volto na próxima terça sim. Até lá!

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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3 comentários:

Maria Tereza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Tereza disse...

Ah Hondaaa... que delícia é você! !! Nesse mundo de gritos, quem está certa é você! Seus gritos são por puro instinto de proteção, preservação e sobrevivência... enquanto nós, os "humanos", gritamos...pelas coisas erradas!?!?!? Devíamos nos importar sim, com o essencial, que é invisível aos olhos e buscar as coisas do alto!!!! Parabéns meu primo Glauco!!!! Realmente os animais são assim... inspiradores e apaixonantes...

Glauco Damasceno disse...

♥ ♥