segunda-feira, 14 de março de 2016

Ensaio Sobre a (Falta de) Visão





Na semana que passou eu tive uma pequena crise de estresse com sintomas físicos causados por chateações no trabalho. Um assunto que me envolvia diretamente foi conduzido de uma maneira amadora e eu fiquei tão irritado com a situação, com uma raiva tão acumulada que, quando me dei conta, minha visão ficou turva e eu fiquei durante alguns bons minutos sem conseguir enxergar direito. Acho que minha pressão baixou um pouco e, com a irritação em níveis estratosféricos, o sintoma físico acabou surgindo. Acho que aprendi que, às vezes, você ouve barbaridades e é melhor partir logo para o enfrentamento do que fingir naturalidade; a minha saúde agradece.

Entretanto, foi a sensação de ter a visão minimamente prejudicada que me faz escrever esse texto. Eu não tenho nenhum problema de visão. Não uso óculos, enxergo bem de perto e de longe e, por isso, ver é algo natural, no qual eu não paro pra pensar sobre. Afinal, basta abrir os olhos e o mundo se descortina para mim. Ter esse sentido comprometido, mesmo que por alguns minutos, foi desesperador e me fez pensar: e quem não consegue enxergar?

É claro que estou falando do assunto de forma literal, mas a minha mente voou. Deve ser uma merda ser cego ou, em menor grau, ter a visão um pouco prejudicada. No meu caso, minha vista perdeu um pouco do foco e eu não consegui distinguir exatamente o que estava na minha frente por alguns minutos. Eu estava na frente do computador, lendo um texto e, de repente, apenas borrões. Levantei assustado e parei na mesa de uma colega de trabalho e enxergava apenas a sua forma, não a sua imagem real que eu conheço muito bem. Não enxergar é uma droga. 

Ensaio Sobre a Cegueira, livro de José Saramago que inspirou o filme de mesmo nome dirigido por Fernando Meirelles, tratou sobre o assunto de maneira sublime, fazendo uma ligação direta da visão com a degradação humana. Forte e perturbador, a obra trata de um caso de cegueira branca que acomete a população mundial de uma hora para outra, privando apenas uma mulher de tal destino. Do nada, uma atras da outra, as pessoas começam a deixar de enxergar, mas não entram numa escuridão, como normalmente associamos à cegueira; as pessoas do livro e filme apresentam uma cegueira branco leitosa, onde parecem mergulhadas em um mar de leite. E, junto com a cegueira mundial, vem também a degradação da sociedade, já que as regras de convivência atualmente em vigor são deixadas de lado quando um dos sentidos básicos do ser humano simplesmente para de funcionar. 

É claro que a obra de Saramago é uma grande alegoria para falar da sociedade como um todo e da forma como os nossos valores são pueris. E se vivemos hoje dias estranhos, associadas por muitos com a Idade das Trevas, muito se deve à falta de visão, dessa vez a metafórica, em que nos encontramos. O homem, ao invés de evoluir, parece regredir, cego às necessárias mudanças cotidianas que nos são apresentadas.

Cegueira política, religiosa, ideológica. São tantas as vendas que colocamos em nossos olhos, borrando nossa visão para o todo e não permitindo que enxerguemos a realidade. E, ao contrário do meu desconforto com a minha visão turva literal, causada pelo estresse, esse tipo de cegueira parece não incomodar quem a possui, acostumados que estão a viver em sua própria escuridão e pequenez. É cômodo não se permitir enxergar a realidade quando não se sabe que a visão ampla nos reserva paisagens deslumbrantes. Cada um no seu quadrado, com a sua visão embaçada, perdendo grandes landscapes e possibilidades infinitas de ser e pensar.

Só posso dizer que, depois de um colírio e dos poucos e aflitivos minutos com a visão borrada, me senti novamente completo ao poder enxergar tudo de maneira normal, com todos os seus contornos. E percebi ali que a minha visão, pelo menos a física, é primordial.

Tudo isso (esse texto, esse pensamento, essa desconstrução) porque fiquei puto, muito puto com o meu trabalho. E abri os olhos. Isso não é legal?

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    Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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