quarta-feira, 30 de março de 2016

O Amor Fora do Gueto





Noite de segunda-feira, São Cristóvão, Rio de Janeiro. O ônibus da linha 461 faz a sua última parada antes de retomar a rota circular até Ipanema e voltar. A porta se abre e os passageiros começam a descer, contrastando o ar condicionado do coletivo com o quente bafo da calçada próxima à estação de trem do bairro. Entre eles, um rapaz, que foi recebido por outro com um largo sorriso e um caloroso abraço.

O homem, literalmente, o agarrou, o encheu de palavras efusivas de amor e os dois se beijaram. Ambos transbordavam de felicidade. Poderiam não se ver havia tempos. Ou mesmo simplesmente passaram o dia de trabalho longe do outro. Saíram de mãos dadas pela calçada, provavelmente em busca de outro transporte, já que a estação é um famoso ponto de baldeação da capital. 

A cena não foi ficção; eu mesmo a presenciei, de certa forma feliz e surpreso. E apreensivo. Assim que me dei conta do local onde estávamos, fora do mundinho da Zona Sul, em especial Ipanema (onde, ainda assim, não é tão comum ter demonstrações homoafetivas), fiquei preocupado de alguém os repreendê-los ou mesmo agredi-los. Mas nada aconteceu. Nem os dois foram hostilizados, nem sete anjos desceram do céu tocando trombetas anunciando o Apocalipse ou destruíram a cidade inteira com fogo e enxofre como em Sodoma e Gomorra. Todos seguiram sua vida adiante, inclusive eles, de mãos dadas.

O fato de até eu mesmo ter estranhado a cena me levou a uma reflexão. Quantos casais homossexuais deixam de demonstrar seu afeto em público por medo de uma agressão? Quantas vezes eu mesmo me privei de manifestar o que sentia pelo meu companheiro com o receio de apanhar (ou “tomar um coió”, na gíria gay)? 

É óbvio que o amor é muito superior às suas provas públicas, mas às vezes seria tão bom poder dar um beijo em quem se ama onde der vontade sem o medo de ser atacado por vândalos que não compreendem... o amor. 

Lembro-me de uma vez um dos meus melhores amigos, Felipe Tostes, dizer que via lirismo nos caminhos encontrados pelos amantes homossexuais para demonstrar seu afeto: às vezes uma simples encostada de pernas em um ônibus, um entrelaçar de dedos mindinhos, um carinho na parte interna do braço... Tudo longe dos olhos do grande público, mesmo estando no meio dele. Feliz seriam os casais que pudessem enxergar nesses pequenos gestos as grandes mensagens que passam. Mas mais felizes mesmos seriam os que os fizessem por opção, e não por medo de arriscar sua integridade física. 

Um dos momentos mais importantes da minha vida foi o meu casamento. Estar ali rodeado de centenas de pessoas que desejavam o nosso bem e vibravam positivamente para o nosso relacionamento dar certo, com as bênçãos dos nossos pais, foi a mais clara evidência de que o amor é tão mais pleno quando não precisa viver dentro de um gueto. Poder andar em um país como o Uruguai, no qual ouvimos que não existiam lugares gay friendly porque todo o país era tolerante e respeitoso com a orientação sexual do outro, também. Logicamente que existiam discordâncias e resistências por lá; sempre haverá. Mas com uma legislação que protege os direitos do cidadão e punições duras e efetivas, com programas de educação eficientes, todos podem conviver no país vizinho sabendo que, por mais diferente que sejam de você, todos são iguais. 

Não sei se um dia verei nosso país e nosso mundo como um todo terem espaço para uma convivência tão pacífica em relação aos direitos do outro. Não sei se viverei para poder compartilhar o meu amor com quem eu quiser onde quiser com a garantia de que voltarei vivo e bem para casa. Só sei que amor nenhum deveria viver no gueto. Pode demorar, pode levar séculos ainda; mas acredito que o amor vence. Sempre vence.

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


2 comentários:

Ronaldo Torres disse...

Bela observação. Também chego a estranhar quando aqui no distrito que moro ou redondezas avisto um casal homossexual demonstrando algum tipo de carinho. É menos comum que os adolescentes héteros que vivem por aí em parzinhos, mas mesmo em menor número nos saltam aos olhos.
Sempre penso como é bom pensar que é possível deixar-se ser gay longe da região da Paulista, o reduto gay paulistano. Ainda sinto medo, mas tenho que acreditar que as periferias também estão construindo outra dinâmica no mundo contemporâneo.

angelo pessoa disse...

Parabéns pelo texto. Lembro-me que há uns 15 anos (eu, então com 35!), conversava sobre este assunto com uma amiga. Ela me disse: 'Vamos morrer e não veremos a celebração das diferenças'. Ela estava certa. Até hoje pouco ou nada mudou. Virou tolerância (palavra que abomino). Vamos sim. Eu e ela 'fazer a grande viagem'e deixar um mundo com seus preconceitos velados. Infelizmente. Mas... como você bem disse no final: um dia, o amor vencerá! Abraços.