sexta-feira, 18 de março de 2016

O Caminho dos Ídolos





Não há coisa mais mainstream do que trintões ou quarentões relembrando com passadismo como as coisas eram em sua infância, reavivando as melhores memórias (afetivas) de seu tempo e emendando ainda com jargão já bem desgastado: “Ali sim era infância! Era muito melhor que hoje em dia!”. É certo que cada época tem suas alegrias e dissabores, e uma simples decrescência cronológica não implica superioridade nenhuma, mas vai dizer isso para os tradicionalistas! Passionais como são, te enfiarão numa máquina do tempo na mesma hora, e quando menos perceber, estarás dentro do Pac-Man, correndo dos fantasminhas...

E quem sou eu para, em 2016, ser mais um conservador a reclamar a volta da minha época áurea? Não faria nunca isso, tenham certeza. O caso é que andei pensando muito numa coisa do mundo atual que é totalmente diferente de outrora. Preparado para a maior quantidade de deslikes possíveis, tomei coragem e agora lanço a bomba: 
“VIVEMOS NUMA ÉPOCA SEM ÍDOLOS!”
Como assim? Elucidemos com um breve retrospecto:

Anos 70, 80...

Antigamente, éramos mais passivos. Seja sentando diante de uma tela de cinema ou televisão, seja ligando o rádio ou recebendo o jornal de papel, bastava apenas isso para nos alimentarmos (de forma imposta) daquelas informações. Os veículos de comunicação eram limitados, a internet não era comum no nosso cotidiano, logo, dependíamos de que trouxessem o aprendizado/cultura/entretenimento até nós. Éramos burros? Não. Manipulados? Muitas vezes. 

Ainda nesse panorama de imposição, havia espaço para que elegêssemos nossos ídolos, devotados e seguidos. Só que tinha que esperar passarem seus clipes na TV, ou sair o LP novo na loja, ou lançarem revista da banca que continha a tradução de uma música deles (no caso dos internacionais), publicarem nota no jornal informando sobre show na sua cidade...”Seguir” seu artista predileto naquele tempo era isso!

Anos 90....

A internet chegou às nossas residências de forma definitiva em meados da década de 1990, e firmou-se como mais um veículo de comunicação – aquele que maximizou as habilidades de pesquisa, antes relegadas apenas às bibliotecas e sebos. Resultado: quebrou a dependência de que as informações só chegassem por meio de outros veículos, e foi crescendo... Agora já nos era permitido saber particularidades de seu ídolo, pesquisar sobre sua vida pessoal, ler muito mais reportagens sobre ele e – advinha – baixar seus discos e gravar em CD! 

O ídolo era respeitado, mas ele que morresse de fome sem vender discos com a profusão da pirataria... Antes ele que eu, gastando meu rico dinheirinho de trabalhador brasileiro!

Anos 2000 em diante...

Enquanto os demais veículos se desdobravam pra existir num mundo já tão virtualizado, a internet continuava crescendo. Um simulacro de situações, num universo completamente paralelo. Foram criadas as rede sociais, onde todo mundo era tão mais simpático e adorava mostrar só o seu melhor lado. E seu ídolo? Já se rendeu à nova era, sendo ele mais um usuário, expondo sua vida, suas ideias e, descuidadamente, seus defeitos. 

Não por acaso, nessa fase, muitos de seus ídolos deixaram de sê-los, pois o lado dark estava lá, exposto e publicado, pra muita gente ver e se decepcionar. De certa forma, essa foi a fase da quebra do mito – não há mais figuras míticas, e a pá de cal foi a morte de Michael Jackson, tão revolucionário e alvo de polêmicas, que ninguém mais tinha interesse de saber sobre sua vida de ídolo de outrora...

Anos 2010!

Os computadores estão nos nossos bolsos. A internet ao alcance a toda hora. A gente não exerce mais o raciocínio ou a memória – o Google faz todo o trabalho. Livros? Baixo em menos de 1 minuto. Televisão? Ainda assisto, mas sem deixar de olhar pra tela do celular... E também eu posso fazer meu horário de TV!

Ídolos? Que ídolos? O ídolo sou eu!! É só gravar um vídeo, colocar no Youtube e...Poxa vida? Mais de 10.000.000 visualizações?

Os ídolos de outrora? Batalhando por shows pra poder pagar suas contas...

Leandro Faria  
Thiago Henrick 33 anos, alagoano morando há cinco anos em São Paulo, é advogado, jornalista e adora música e cultura pop em geral. Tem seus ídolos e já se decepcionou deveras com eles também!
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