quarta-feira, 9 de março de 2016

O Mundo é dos Espertos?





Desde sempre eu ouço a máxima: “O mundo é dos espertos”. Admito, ser esperto em determinadas situações é bem bacana. Quando essa esperteza é sinônimo de ser safo, tomar decisões corretas. Mas, infelizmente, ser esperto no Brasil é muito mais (ou menos, dependendo da ordem de grandeza) do que isso. É exaltar o famoso “jeitinho brasileiro”; é aplaudir o tão conhecido “se dar bem em cima de alguém”, muitas das vezes flertando com a desonestidade; é perpetuar essa morrinhenta prática que tanto degrada e ainda continua degradando a nossa sociedade.

O pior nesse processo todo é vermos o quanto já nos acostumamos com essa situação. Quantas vezes já não recebi agradecimentos por ter avisado que a pessoa me deu troco a mais do que deveria (já até ganhei balinha como recompensa). Ou li matérias em que alguém que encontrou uma carteira ou objeto de valor devolveu ao seu dono e virou notícia. Como jornalista, sei que um dos pilares da notícia é o inusitado. Se não fosse inusitada, dificilmente uma matéria como essa seria veiculada. E assusta pensar que se tornou incomum hoje em dia justamente ser honesto! Devolver aquilo que alguém esqueceu, perdeu ou não se tocou. Ser premiado, ainda com um doce, por não subtrair o que não é meu.

Nem posso dizer que é algo exclusivo do Brasil. Em diversos países onde fui, encontrei gente querendo se dar bem em cima de mim. Bolívia, Peru, Argentina e até nos Estados Unidos percebi atitudes desonestas ao notarem que eu era turista. Mas é impressionante como, por sermos acostumados com isso em nossa terra, tiramos de letra situações como essas no exterior. E ainda comentamos: “saí do Rio de Janeiro pra darem uma de esperto comigo aqui?”.

E chega a ser risível vermos como isso se naturalizou em nosso país e, por outro lado, muitos dos quais não se importam com isso (pelo contrário, às vezes estimulam e praticam) são os mesmos que pedem o fim da corrupção; a prisão daqueles ligados a esquemas obscuros; o linchamento público de políticos. Os mesmos que acreditam que o mal do país reside em uma ou duas siglas partidárias, e não na perpetuação do nosso “jeitinho” permissivo com cafezinhos para não levar multa, mãos molhadas para furar processos burocráticos ou trocas de favores para objetivos escusos.

Nunca fui muito “esperto”. Lembro que durante muito tempo na minha infância, trapacear de mim sempre foi algo fácil, pois era relativamente ingênuo. O tempo e a convivência em uma sociedade que te provoca a decifrá-la para não ser devorado por ela acabaram me calejando um bocado. Mas sempre acreditei que eram os inteligentes e os esforçados, não necessariamente nessa ordem, que moviam o mundo; e não os espertos.

Enquanto seguirmos compactuando em coroar aqueles que parecem se dar bem sobre os outros e eternizando a máxima que abriu esse texto, de nada adiantará operações da Polícia Federal, do Ministério Público ou mesmo do Vaticano. Muito mais do que jatos, precisamos lavar as velhas e ignóbeis práticas que nos deram essa feia fama.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Um comentário:

Rodrigo Fernandes disse...

Paulo, concordo com tudo que disse e também passei por essa fase de ingenuidade e também de ser enganado. É incrível como as pessoas estão acostumadas em se dar bem com esse "jeitinho". Lembro que alguns anos atrás, achei uma bolsa e uns colegas estavam comigo, falei em devolver e eles queriam era pegar tudo que tinha dentro. Por minha insistência em querer devolver, me trataram como sendo um bobão. Excelente post!