domingo, 13 de março de 2016

Parem de Culpar a Geração Y





Não há coisa mais irritante e pejorativa do que uma empresa acreditar que está fazendo um favor de te manter empregado. Não, não é um favor. Os empregados produzem (e muito) e por isso continuam empregados. Em tempos de crise econômica, é impressionante como automaticamente surgem experts em finanças e caos. Aparentemente todo mundo consegue prever o futuro e se gabar de ter sobrevivido em meio à falências e portas fechadas pelo país inteiro. A questão é que, vamos combinar, a moeda tem dois lados: se uma empresa sobreviveu, mesmo com a crise, significa que precisou manter seus funcionários. Caso todos resolvessem pedir demissão para tentarem empreender por conta própria, a empresa não produziria nada e, consequentemente, fecharia. Acho que isso deixa bem claro que um precisa do outro, e ninguém tá fazendo favor para ninguém. 

A falta de empatia nas relações profissionais vão levar as empresas para o buraco. Me sinto humilhada quando sou tratada como uma máquina, que você compra numa loja, liga na tomada e ela funciona perfeitamente. Pessoas não são eletrônicos, não são ligadas na tomada e nem continuarão fazendo isso por muito tempo sem desenvolver uma depressão severa ou um surto de estresse. Quando a empresa condiciona seus empregados à condições sub-humanas de trabalho, à pressões psicológicas e ameaças diárias, fatalmente vão gerar um corpo profissional desestimulado, desinteressado e improdutivo. Ainda que a demissão seja uma atitude paliativa – para não dizer desesperada –, o custo de rescisões, admissões e de treinamento de novos funcionários é tão alto que não compensa a pose de chefe-absoluto-majestade-salve-salve. 

Por mais difícil que seja se acostumar com as mudanças num âmbito geral (climáticas, ideológicas, políticas, econômicas, atitudinais, e por aí vai...), elas estão aí, quer queira ou não. O formato normativo de décadas atrás já não tem lugar no ano que vivemos, mediante às transformações no pensamento da sociedade. Não funciona mais o patrão sentado em seu trono disparando ordens sem participar ativamente da produção de sua empresa. Não funciona mais o modelo corporativo 9 às 18h dentro de uma grande caixa iluminada artificialmente. As propostas mudam, as demandas são diferentes e a criatividade se faz mais necessária do que nunca para continuar atraindo olhares para o seu negócio – ou pelo menos manter os que já olham pra você. E criatividade não vende na farmácia. 

A culpa do desinteresse e da infelicidade não é da geração Y, queridos empresários. Talvez a culpa seja da geração passada que impregnou os ouvidos da nossa geração com o argumento de que felicidade e sucesso estão estritamente ligados a bons cargos e salários. E pior, que fraqueza é sinônimo de fracasso. A culpa, também, é das empresas que acreditam que pedir aumento de salário ou melhores condições de trabalho é um luxo dessa geração, e não um direito. E que continuam proferindo o discurso de que “se você não quer, tem quem queira por metade do seu custo”. Sim, tem. Contar com o desespero atual da sociedade que precisa pagar contas e comer seu arroz com feijão é uma saída. Mas é temporária. O desespero também te faz aprimorar seu discurso e se vender por muito mais do que você realmente é. E aí você tem um quadro de funcionários com capacidade inferior, pró atividade inexistente e a mentalidade de cumprir a jornada de trabalho e não produzir nada diferente do bê-a-bá do seu escopo. Com o tempo – e bem pouco, na verdade – isso começa a refletir nos resultados. Investir na gestão e na competência de mentores que olhem além do contracheque é o maior dos desafios profissionais da atualidade. É preciso abrir a cabeça, o diálogo e o coração, não esquecendo jamais de que seres humanos precisam ser tratados como tal. Uma boa conversa sai de graça, previne custos desnecessários e ajuda a construir valores para embasar seu negócio como sendo algo de gente para gente. 

A geração Y é mais do que infelicidade e reclamação, é um catalisador de talentos, disposição e inovações que podem mudar o destino de muita coisa no mundo atual. Fazer parte disso é mais do que um benefício, é uma obrigação. Não se deixem enganar: crises são cíclicas, passageiras e ensinam muito. Podemos aprender a partir do caos, e descobrir novas formas de relações profissionais.

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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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