domingo, 27 de março de 2016

PrEP: Você Tomaria um Medicamento, Mesmo Sem Estar Doente?





Você tomaria um medicamento, mesmo que não estivesse doente? E estou falando de medicamentos fortes e que podem ter efeitos colaterais bastante incômodos. Pois saiba que muitas pessoas responderiam SIM sem titubear. Mas, por quê? Porque existem pesquisas, inclusive no Brasil, que têm comprovado que o uso de uma combinação de medicamentos presentes no Truvada protege da infecção pelo HIV em quase 100%! É o que chamamos de PrEP, que é o uso de medicamentos antes de se expor ao vírus. 

Isso já seria um bom motivo para repensar sua resposta, se ela foi NÃO, não é mesmo? Mas, agora, vamos aos pontos positivos e negativos dessa maravilha da ciência: 

PONTOS POSITIVOS 
  • Protege quase 100% das infecções pelo HIV  
  • Possui relativamente poucos efeitos colaterais 
PONTOS NEGATIVOS 
  • Não se sabe os efeitos do medicamento a longo prazo 
  • Pode ter efeitos colaterais que podem incomodar 
  • Não protege de outras infecções sexualmente transmissíveis (IST) 
  • Custo alto de manutenção (com algumas exceções) 
  • Compromisso diário de tomar os medicamentos, pois não pode falhar as doses 
E, depois de falar tudo isso, algumas pessoas podem pensar: "Caraca, essa parada é muito boa! Nunca mais vou transar de camisinha!!!" Ok ok ok... Vamos dar uma atenção maior aos pontos negativos? O medicamento protege do HIV, mas as pesquisas em curso também têm mostrado que algumas infecções sexualmente transmissíveis bem sérias são muito frequentes entre o grupo pesquisado. Além disso, tomar um medicamento forte sem ter alguma doença pode trazer problemas. 

E eu gostaria de falar um pouco mais sobre as outras infecções sexualmente transmissíveis que não são prevenidas com a PrEP. A gente não dá a devida atenção a essas doenças que podem causar problemas graves, inclusive a morte. As mais comuns são sífilis, HPV, herpes e hepatite B. A sífilis pode causar cegueira, nos casos mais graves. Estamos tendo o maior surto de sífilis no nosso país desde muitos anos. O HPV, por sua vez, é o principal responsável pelo câncer de reto e garganta. Assim como a hepatite B, é uma doença que pode passar muitos anos sem apresentar sintomas, mas quando apresenta, podem causar a morte do indivíduo. E você sabe qual a maneira mais eficiente e barata de evitar todas essas infecções, inclusive a Aids? CAMISINHA. 

Hoje, o HIV já não mete aquele medo que metia há alguns anos atrás e isso é bom e ruim. Bom, porque estamos desconstruindo aquela ideia de que todos que têm HIV vão morrer, estigmatizando e causando discriminação e dor aos soropositivos. E saibam que essa ideia está muito muito errada. Pessoas com HIV conseguem viver quase normalmente, com algumas restrições, é claro, pois ainda têm que tomar medicamentos todos os dias, devem ter hábitos de vida saudáveis sob o risco de desenvolverem doenças sérias e que são comuns entre essa população, além de ainda terem que enfrentar alguns efeitos colaterais. Porém, podem namorar, viajar, trabalhar, constituir família etc. É certo dizer que ainda morrem soropositivos, mas em quase todas as situações, é porque eles descobriram tarde demais ou não puderam/quiseram/conseguiram se tratar. 

A parte ruim do HIV não meter mais aquele medo é que as pessoas têm se descuidado muito. Eu mesmo já ouvi várias pessoas falando que não usam camisinha “porque, hoje, basta tomar um comprimidinho”. Saibam que não é bem assim. Considerem o que falei no parágrafo anterior e saibam, também, que as pessoas que vivem com HIV ainda enfrentam preconceito porque estamos falando de uma doença que ainda é tabu na nossa sociedade é ninguém normal gosta de ter uma doença. 

Se mesmo assim, você prefere abrir mão da camisinha (ou aumentar a proteção) e partir para a PrEP, prepare os bolsos, porque essa estratégia de prevenção não deve ser gratuita a todos que quiserem. O Ministério da Saúde pretende disponibilizar esse medicamento gratuitamente, apenas, a pessoas com alto grau de vulnerabilidade. Esse grau está sendo definido levando em conta diversos fatores. O objetivo das pesquisas de PrEP em curso não é comprovar a eficácia dos medicamentos, pois já existem outras grandes pesquisas que comprovaram e estão comprovando isso. É, principalmente, verificar a aceitabilidade da estratégia no nosso contexto e sua viabilidade na política pública do Sistema Único de Saúde (SUS). 

O que eu sei, de fato, é que devemos comemorar mais essa importante ferramenta de prevenção do HIV e esperar um pouco mais para ver como as coisas vão funcionar aqui no nosso país, mas continuo insistindo que a maneira mais barata, eficiente, sem efeitos colaterais, rápida e fácil de se prevenir do HIV, ainda é a nossa velha amiga camisinha.

Leandro Faria  
João Geraldo Netto é marketeiro, barbudo, gay, soropositivo, ativista, apaixonado, inquieto, metódico, chato e muitas outras coisas. E o responsável pela coluna mensal Conversa + aqui no Barba Feita.
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