sexta-feira, 4 de março de 2016

Teatro e Trajes Não Cenográficos





Gente, vamos aprender a viver com todos e deixarmo-nos de atavismos provincianos, tresandando a mofo e naftalina. Essa do traje social é mais bolorenta que mofo em cisterna abandonada.

Vem o comentário a propósito duma regra que o Teatro Santa Isabel, no Recife (“O teatro é um equipamento público pertencente à Prefeitura do Recife” como é referido no site oficial do mesmo), em que “não é permitida a entrada de pessoas trajando bermuda, short, camisa sem manga, e chinelo, bem como portando alimentos e bebidas”. Os alimentos e bebidas deixemos de lado, pois aquilo não é um restaurante ou boteco, muito menos parque florestal para fazer piquenique, mas quanto à indumentária... Aí é que “a porca-torce-o-rabo”.

Na última semana de Janeiro houve uma contestação da classe artística e de algum público contra essa norma de 1960. O debate desceu à praça pública e a elite burguesa, fedorenta nos seus perfumes importados, logo guinchou que era inconcebível essa vulgarização dum espaço de grande beleza arquitetônica, da autoria do engenheiro francês Louis Léger Vaultier, a pedido do Conde de Boa Vista; que iriam conspurcar o teatro com a vulgaridade miserável das gentes de periferia; que gentalha assim não deveria barbarizar os espaços da “elite culta e esmerada” nos seus puritanos princípios segregacionistas.

A edilidade interveio, como administradora do espaço em causa, suspendendo a norma restritiva do traje dos espectadores. Tudo se acalmou e o espectáculo/premiação que havia sido ameaçado de boicote pelos artistas, decorreu tranquilo. No dia seguinte, a prefeitura repôs a norma de 1960 sobre as normas exigidas ao vestuário do público. Típico! Políticos covardes e traiçoeiros.

Numa região com uma temperatura média perene de 30º C, a norma em questão revela-se completamente inadequada e grosseiramente despropositada. O caso vem levantar uma reflexão sobre a questão da autonomia nacional dos costumes e cultura. Afinal, qual o perfil cultural do Brasil? Será que é mesmo uma nação autônoma com cultura e tradição próprias, ou apenas uma continuada colonização/imposição cultural, com laivos exóticos de miscigenação? Com a declaração de independência o Brasil desenvencilhou-se da soberania da coroa portuguesa, mas prosseguiu o processo de colonização/europeização ou, não fosse essa independência declarada pelos próprios colonos usurpadores de terra alheia, que se perpetuam na classe que continua dominando toda a hierarquia administrativa e social.

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Leandro Faria  
ManDrag nasceu em Moçambique (África), viveu em Portugal (Europa) e agora mora no Recife/PE (Brasil). Português de nacionalidade e cidadão do mundo. Profissão? Sobrevivente desse grande cataclismo que é a vida.
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