sábado, 19 de março de 2016

Uns Abraços, Uns Sorrisos e Alguns Silêncios Sufocantes






E no meio daquele monte de fotos e perfis, achei que você seria apenas mais um. Tentei a sorte, mandei meu "oi". Você respondeu, como fazem dezenas, "oi". Mais algumas meia dúzia de frases repetidas e cansativas e fiz o que poderia parecer precipitado, pedi seu contato. Surpreendentemente você passou. Alguma coisa em você parecia especial, poderia ser só minha vontade louca de que fosse especial, mas seu olhar e sorriso tão doces num cenário solar me fisgaram de um jeito insistente.

Te mandei uma mensagem privada e esperei. Você demorou pra responder. Insisti. Então veio a esperada resposta. Diálogos curtos, rápidos, você parecia menos interessado. Mas alguma coisa me dizia que você era muito interessante. Uma semana depois, o convite para um primeiro encontro. Mal acreditei. Os outros enrolavam semanas a fio, às vezes, mais de um mês, e quase sempre me deixavam a ver navios. Tenho uma lista de "primeiros encontros frustrados". Mas com você procurei não criar muitas expectativas, até o último momento esperei receber uma mensagem sua desmarcando. Felizmente (acho) não aconteceu.

Era uma quarta-feira. Desci na Paulista, entrei na Haddock Lobo e encontrei você sereno, com o mesmo sorriso doce, me esperando com um mini-muffin. Tão encantador e delicado. Eu me emocionei com seu gesto. Conversamos um pouco. Eu tímido. Você seguro. Fomos caminhando à procura de um café que não fechasse às 22h. Descemos a Augusta falando amenidades. Finalmente, achamos aquele café, um pouco barulhento pro seu gosto, que queria conversar com tranquilidade, mas com um cardápio saboroso. Experimentei o delicioso leite com doce de leite, e você, o café da casa, simples e saborosíssimo.

Foi um bate-papo maravilhoso, tinha alguma coisa mágica no ar. Talvez, sua presença esotérica. Foi diferente de tudo o que se espera de um primeiro encontro entre duas pessoas que se conheceram num aplicativo de relacionamento e, por isso mesmo, foi tão bom, pelo inusitado da coisa, e a sensação de que estávamos nos conhecendo de fato. Sem pressa nem urgências. Saboreamos a companhia um do outro, assim como nossos cafés.

Então as horas passaram e o encontro precisava terminar. Abraços ternos e um até mais. No ônibus, de volta pra casa, a dúvida: nos veremos uma segunda vez? Você foi tão amável, mas não deixou nenhuma evidência física que aquele primeiro reconhecimento tinha suscitado o desejo de um novo encontro. Sosseguei o coração, justificando em pensamento que seu jeito era cauteloso. Por isso nenhuma promessa nem reações de carinho efusivos.

Na sexta-feira, um telefonema inesperado. Você me surpreendendo mais uma vez. Um convite pro cinema, irresistível, mas tive que recusar. Remarcamos o cinema pro domingo. E assim se deu, debaixo de muita chuva, um segundo encontro lindo. Mãos dadas no cinema. Chá. Abraços na rua. E mais uma vez, uma despedida sem beijos nem promessas.

Não sei se entendi ou se fiquei confuso, mas decidi não alimentar esperanças. Dois dias depois estava na cama de outro, tentando me convencer de que nossos dois encontros não significaram nada além de simples encontros. Estar com outro foi ótimo, mas quando tudo terminou era até você que iam meus pensamentos. As mensagens via WhatsApp escassearam. Eu lamentava o prenúncio do fim de algo que nem havia começado, mas poderia ser tão bonito. Duas semanas depois, outro homem, outra cama, bom também, mas não era você.

Angustiado pelo seu silêncio, a falta de um sim ou de um não, tomei minha posição. Disse por mensagem tudo o que não tive a chance de dizer pessoalmente. Abri meu coração, expus meus desejos, sentimentos e intenções. E decidi sair de cena. E mais uma vez, surpreendente, você pediu que eu ficasse. Eu amoleci, aceitei seu pequeno sinal verde, e voltei atrás de tudo que falei que faria para esquecê-lo e não sofrer com a ideia de não ser desejado como te desejo. Prometi que ficaria em silêncio até você dar o próximo passo. Mas já me arrependi.

Acho que estamos perdendo tantas coisas, tantos momentos. E fico aqui pensando em lugares, em eventos, livros e filmes que gostaria de compartilhar com você, além de mais abraços, e os beijos que nunca aconteceram.

Não sei se consigo me segurar e continuar em silêncio. Mas também não quero continuar insistindo, ser a pessoa que não aceita perder. Talvez o melhor mesmo fosse excluí-lo de todos os meus contatos, como disse que faria. Ou esperar que o tempo, sempre sábio e soberano, leve mais esse desejo com ele.

E o que acontece comigo, não sei. Talvez o poema de Paulo Setúbal sintetize bem esses sentimentos que sempre me dominam:

Só Tu
De todos que me beijaram,
De todos que me abraçaram,
Já não me lembro, nem sei.
São tantos que me amaram,
São tantos os que eu amei...
Más tu que rude contraste,
Tu que jamais me beijaste,
Tu que jamais abracei,
Só tu nesta alma ficaste,
De todos que eu amei...

Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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