quarta-feira, 16 de março de 2016

Vou-me Embora pra Latibom





Vou-me embora pra Latibom. Lá, sou amigo do Rei. Na verdade, lá eu sou o Rei. Latibom só tem dois habitantes. Ou melhor, só habitou a cabeça de duas pessoas: a minha e a de minha irmã. Tem cheiro de infância, gosto de Nescau e biscoito Maizena. Tem casquinha de joelho ralado de quem está aprendendo a andar de bicicleta e livro de caligrafia de quem rabisca o seu primeiro beabá.

No fim da década de 1980, eu e minha irmã éramos duas crianças felizes. Sempre muito grudados, com uma conexão surreal em pensar e falar as mesmas coisas. Entender e errar também. Não à toa, naquele ano de 1988, Angélica fez um sucesso estrondoso com seu Vou de Táxi. Daí surgiu Latibom. Nossos ouvidos e cabeças entendiam, juntos, que a loira cantava: 
“No espelho. A cor do batom. Lembro o beijo. Foi pra Latibom...” (em vez de “lá de bom”).
Logo, se aquela nossa recreadora matinal, segunda loira mais importante em nossas televisões (sorry, Sra. Huck, mas nós sempre fomos mais fãs do Xou da Xuxa), queria pegar o mais famoso táxi da música brasileira para ir pra Latibom, por que nós não quereríamos?

A década de 1980 foi considerado um período perdido. O início dos anos 1990, idem. Lembro-me dos meus pais penando para conseguir comprar carne, tanto pelos poucos recursos quanto pelo ágio cobrado. Presunto e requeijão eram artigos de luxo. Sorvete só dava pra ser aquele napolitano que vinha em forma de tijolo e se cortava de faca; o pote de 2 litros também não era pro nosso bico.

Ainda assim, éramos felizes na nossa ótica infantil.

Nessa mesma esteira, veio o confisco das poupanças. Meu pai, num golpe de sorte, tinha sacado semanas antes tudo o que tinha guardado para mim e para minha irmã, para dar entrada em um apartamento modesto no também modesto bairro do Fonseca, em Niterói. Hoje em dia, soube de gente que de desesperou. Houve suicídios e infartos fulminantes.

Nós, miúdos, alheios a tudo isso, nos preocupávamos apenas em sermos criança.

Somente ouvíamos as críticas a Collor (falei pra minha tia, a caminho da urna, pra votar no Brizola por causa da musiquinha, mas ela não me ouviu), Zélia e PC Farias; ouvíamos também falar sobre Casa da Dinda e o presidente ter “aquilo roxo”. Porém, talvez o momento mais doloroso do nosso dia fosse a hora em que tínhamos que enfrentar a fria água da piscina do prédio pra fazer natação às 7h da manhã, de estômago vazio (sim, porque se não ficaríamos enjoados, diziam) e depois descermos a longa escadaria abraçados, quase com uma hipotermia e de pernas tremendo pelo exercício, pela fraqueza e pelo frio. Mas também, quando voltávamos, era hora do suco de laranja (às vezes, um leite de saquinho tipo A ou B substituía) com pão comprado na venda da frente.

O tempo avançou mais um bocado e veio o Plano Real. Coincidiu com a época em que nos mudamos para outro bairro de Niterói, Itaipu, bem mais isolado do que o anterior. Havia muito mais mato do que construção. Nossa mudança foi no exato dia em que Alemanha e Bolívia abriram a Copa de 1994, nos EUA. Um mês depois, o Brasil se tornaria tetracampeão e seria possível comprar uma caixa de Bis ou uma cerveja de garrafa a R$ 1. A vida floresceu; vi meu pai viver ótimos momentos de bonança e outros de crise financeira, segurando o negócio familiar numa corda bamba coberta por cerol. Havia anos em que o Coelhinho da Páscoa ou o Papai Noel poderiam não vir tão inspirados. Ou mesmo poderiam não vir. Ouvia meu pai falando que eu não precisava me preocupar, como ele, com as suas “duplicatas” a pagar. Ele tinha razão; preposições essenciais, tabela periódica e fórmula de Baskara eram minhas maiores preocupações naquela época. Talvez não ter meu amor platônico pela menina mais desejada da sala de aula retribuído também.

A adolescência não foi fácil. Encarar pais separados (eles reataram seis anos depois, gente) ao lado de uma irmã que pela primeira vez parecia pensar muito diferente de você foi uma tarefa bastante, digamos, ingrata.

Mesmo assim, vivia ainda longe das maiores preocupações do mundo adulto.

Hoje, imerso em um mundo cada vez mais intolerante, lidando com dificuldades que ciclicamente sempre existiram em nosso país (mas nunca me exigiram diretamente, pois ainda tinha as confortáveis asas dos meus pais para proteger), às vezes me pego pensando em todos os perrengues que enfrentei durante a minha infância e que, ainda assim, minhas ocupações eram brincar, ser um bom aluno e um bom filho. Como era mais fácil lidar com a vida entre o sorriso triunfal de chegar ao céu em uma amarelinha e o choro ardido de um Merthiolate...

Como seria mais fácil simplesmente entrar naquele táxi com aquela loira (ou aquelas loiras, porque a minha irmã certamente iria comigo) e falar para o motorista: leve-nos pra Latibom! 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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