domingo, 10 de abril de 2016

Antropofobia





Recentemente, um amigo postou em seu Facebook uma notícia sobre um jovem que foi fortemente agredido após dar um "selinho" em seu namorado numa lanchonete. Além da notícia, ele postou a seguinte reflexão: "quando algum casal heterossexual apanhar por dar um selinho, a gente pensa em conversar sobre heterofobia".

Eu, orgulhosa e esperançosa da qualidade e sensibilidade da maioria das pessoas que ainda me cercam, comentei que não entendia ainda porquê alguns acham que podem USAR esse termo "heterofobia", como se ele fizesse algum sentido. Não faz. Concordamos, nos apoiamos, e a vida segui.

Só que fiquei pensando nas definições aurelianas do que seria fobia, e principalmente o que ela representa. Ai pensei cá com meus botões que iria fazer um texto dizendo que a heterofobia existe, sim. Quando a gente pensa no literal significado de fobia, e de como atualmente alguns héteros-bolsofãs-conservadores despertam isso em mim (e em muitos outros): medo.

Mas aí acabei lendo um outro comentário sobre um movimento importante de um grupo feminista da PUC-RJ, uma das principais e mais caras universidades da cidade, que conseguiu que o DCE cancelasse uma palestra que seria ministrada por uma "ex-feminista" (seja lá o que isso for), que afirma que o movimento feminista acaba com os valores da mulher e diminui o homem. Até aí era pra ser uma notícia ótima. Até que resolvi ler os comentários e, sistematicamente, eu quis provar o que eu desconfiava: a quantidade de MULHERES xingando as feministas, desmoralizando-as, desmerecendo qualquer avanço do movimento, era maior que a quantidade de homens que falavam o mesmo. Sim, eu contei. Eu precisei contar e anotar cada menina que comentava "isso é falta de rola (sic)" (desculpem o palavreado baixo, estou somente reproduzindo), "feminismo é ditadura", "o feminismo emascula o homem", "feminicídio não existe, mulher morre assim como homem morre", e - deixei o melhor por último - "mulher morre mais porque anda com assassino, traficante, vagabundo".

Isso foi proferido por mulheres, jovens, estudantes de uma universidade CATÓLICA (vamos, ao menos, respeitar o próximo, né gente?) privada e cara - o que me faz concluir que ao menos metade delas são classe média-alta. 

Todos esses comentários, e provavelmente a minha falta de rola também (desculpa de novo, gente!), me fazem querer nascer de novo. Em outra era, outro mundo se possível. Porque cada vez que eu acho que tem um movimento muito grande impulsionando o mundo a ser um lugar melhor, ainda com toda a maré contra, eu despenco de um abismo quando vejo que minha geração falhou.

Ainda somos muitos e estamos lutando, tentando, se informando, estudando, simpatizando com o breve e simples conceito de ser humano. Mas, no geral, no fim das contas, a minha geração falhou. A dos meus pais também. E me dói saber que eu tenho tanta esperança na geração futura, mas ao mesmo tempo, um medo indescritível de dizer que esse é o mundo que sobrou pros meus filhos - se um dia eu os tiver. Se não forem meus filhos, serão os dos outros. De todos nós. 

É verdade, a heterofobia não existe. Meu medo não é da atrocidade ou maldade de uma parte dos heterossexuais. Nem dos homos. Nem mulheres ou homens. Meu medo é disso que se formou e entitularam de sociedade, e que difere de tudo o que me foi ensinado com o mesmo nome. Se isso é uma sociedade, e se ela é composta de pessoas, eu afirmo com veemência: eu tenho medo de pessoas.

Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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2 comentários:

Anônimo disse...

Olha minha amiga, comento anonimamente pois as repercussões que incorrem de certos debates e minha incapacidade de me expôr são incompatíveis. Mas estou aqui pra comentar com todo o respeito. Com relação ao feminismo, acho que têm muitas questões que são chorumelas sim, porque dão a entender que o homem não sofre pressão da sociedade, o que não é verídico. Muito do que hoje as feministas reclamam dos caras só existe porque nós também fomos submetidos à pressões. Assobiar na rua, por exemplo, é resultado de uma delas. Então, o machismo pra mim é um termo equivocado pois afeta também os homens, muito embora reclamar do direito de não ser incomodada, bom, parece mesquinho. Todos queremos, não é uma questão feminina, é uma questão humana.

Não vejo a mesma pressão para o tema que eu considero essencial, a dificuldade da mulher em se locomover nos meios, ser bem sucedida. Hoje, a mulher se esforça muito mais pra chegar no mesmo lugar e ganhar menos, menos nas áreas que a sociedade impõe ser "coisa de mulher". Bom, se cozinhar e viver a moda é "coisa de mulher", porque chef's e estilistas homens têm mais prestígio e ganham mais? O futebol deveria ser o contrário então?

A questão da liberdade sexual também é importante.

Agora, um estuprado não é um machista, quando se chama um estuprador de machista tu só diminui o fato de ele ser um criminoso perigoso. Um cara eu é atraído por uma menina de 12 anos não é um machista, é um pedófilo que deve ser afastado do convívio da sociedade.

Acho que defender seu lado é também saber onde seu lado ataca o espaço do outro, e o quanto o seu lado é tão importante quanto todos os lados da sociedade.

E, só pra constar, nada mais anti-democrático que cancelar uma palestra. Para mim, até que fosse uma palestra nazista, o correto é ir lá e confrontar as ideias, se não pode fazer isso, bom, todas as vozes devem ser ouvidas, nunca caladas, ou só substituiremos um sistema opressor por outro, e por outro, e por outro...

Ronaldo Torres disse...

O que consta no texto e no comentário acima é que chegamos em um ponto que as intersecções apontam para o desmerecimento de alguns movimentos e para a formação de outros. Devemos nos reconhecer como sujeitos privilegiados quando for o caso, e lutar não só pelos direitos pessoais e subjetivos, mas pelo reconhecimento e respeito de todos diferentes ou não.
Afinal ser branco, de classe média a alta, viver no centro de uma metrópole ou em um bairro abastado me confere direitos históricos que ao mesmo tempo exclui a maioria da sociedade que não é branca, é pobre, LGBTQ (ou qualquer definição que vocês preferir para este caso), periférica, etc.
Todos independente da sua condição enfrenta suas lutas, mas por que diminuir a luta do outro? Subjulgar? Por que manter este status quo baseado em um biologicismo? Eu não tenho estas respostas mas são questões que me afligem... Abraços...