terça-feira, 5 de abril de 2016

Cotidianos Múltiplos - Viver





Quando resolvi escrever os três contos da série Cotidianos Múltiplos, eu queria que os textos fossem como um alerta. Muitas pessoas à nossa volta passam por problemas pesados, e a maioria não se abre, ou porquê não têm com quem se abrir, ou por puro medo, e esses problemas vão crescendo de uma tal forma que chegam no tema desse último conto. Enquanto eu ouvia as histórias trágicas, tristes, e algumas amargamente engraçadas daquele grupo, eu pensei em como existem pessoas realmente solitárias nesse mundo, e que a gente não percebe, ou por elas serem boas em disfarçar isso, ou por simples distração nossa. Do mais leve ao mais pesado, problemas são problemas, e problemas incomodam, como pelinha no cantinho da unha, e alguns até matam. Que possamos ficar mais atentos ao que acontece ao nosso redor, com as pessoas ao nosso redor, e que aprendamos a resolver nossos problemas juntos. Tá no ar o último capítulo, espero que gostem:

Viver

Eu já me acostumei com isso. Com o abandono. Pessoas vêm. Pessoas vão. E eu fico aqui. Se acostumar não quer dizer gostar. Não é porque as pessoas me abandonam que eu realmente goste disso. 

Não gosto disso. Não quero mais isso. Por isso que o mar me pareceu uma ótima ideia. Todos estão lá, comemorando mais uma entrada de ano. Dois mil e quinze. Viva! Me chamaram pra passar o réveillon na praia. Todo mundo insistiu. "Vamos, vai ser legal!". Tá tão legal que eu tô aqui, prestes a cometer suicídio. Esse vai e vem da água nas minhas canelas tá tão convidativo... Cadê todo mundo? Eu sei lá, deve estar se divertindo. Deve estar sendo legal pra eles. 

Ótima maneira de começar um ano: sem emprego, sem dinheiro, com um monte de contas pra pagar, a faculdade atrasada, um término de namoro totalmente sem explicação... Eu tô no caminho certo! É, me matar vai ser melhor. 

Por que eu não pulo de uma ponte? Não quero causar congestionamento. Não quero causar dor a ninguém. Só quero entrar mais um pouco nessa água gelada e deixar ela me levar pra longe. Me envolver e me puxar pro fundo, me deixando lá pra sempre. 

Já está na cintura. Melhor abrir os braços. Isso, assim... Que ventinho bom! A água me empurra, pede volta à praia. Não, idiota, é pra me levar com você. Por que não me levou com você? Por que me abandonou? Por que me mandou embora do emprego? Por quê? Nada deu certo em dois mil e quatorze, por que daria em dois mil e quinze? 

No calçadão, um monte de gente caminha junto, sem nem se importar comigo. Estão certos. Não mereço atenção. Só mereço isso. 

Só a minha cabeça pra fora. Por que minhas pernas se movem? Meu corpo está estranho... É como se quisesse sair de dentro da água... Não, não posso sair. Não existe solução para os meus problemas. Esse é o único jeito. Ninguém vai sentir falta. Já estou longe da praia, meu corpo não me obedece. 

Não. Não posso fazer isso. Não dá. Não é a única solução. Não posso me matar. Aonde eu estava com a cabeça?? É tudo coisa da minha mente. Claro que sentem a minha falta. Claro que querem a minha companhia. Todos tentando me ajudar e eu aqui... Droga, a água me puxou. Calma, calma, calma. Mexe os braços. As pernas. Isso. Lembrei da minha professora se natação, que sempre gritava: "MEXE ESSA PERNAS!!"

Mexe. Mexe. Pernas. Braços. A água é forte, mas a minha força é maior. Estou voltando. Estou voltando pra casa! 

Pronto. Difícil respirar. Quanto sal. Meu cabelo é puro sal. 

Escuto alguém me chamar. 

- O que estava fazendo?? 
- Como sabia que eu estava aqui? 
- Você disse, ué! 

Não me lembrava disso. Eu pedi ajuda. Então eu não queria morrer... Por que eu tentei? 

- Vamos pra casa. - Disse, me estendendo a mão pra levantar da areia. 
- Vamos. Preciso de uma coxinha e um copo de Coca-Cola. - E rimos. 

Eu não queria morrer. Eu não podia morrer. Me estenderam a mão pra que eu me levantasse. Foram atrás de mim. Eu faria falta. Eu tinha que me salvar. 

Foi em dois mil e quinze que eu nasci de novo. 

Viver. Esse seria meu objetivo. Viver.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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