quarta-feira, 20 de abril de 2016

Impedimentos




Esta semana completam três meses desde a minha cirurgia para retirada do apêndice inflamado. Uma operação considerada simples, mas que me trouxe uma série de impedimentos nesses 90 dias que a sucederam. Além das duas primeiras semanas de repouso, coisas simples como carregar uma sacola de mercado, limpar a casa ou passear com os meus cachorros requereram mais alguns dias até poderem voltar à normalidade. A rotina de exercícios, então, essa nem se fala. Talvez isso tenha se potencializado porque, menos de três meses antes, havia passado por outra cirurgia, de septo nasal, que também me obrigou a não fazer esforço por um mês.

Curioso que justamente quando nos sentimos privados de algo é que realmente damos falta dele... Em relação aos exercícios, o que mais senti foi a minha corrida. Alguns sabem, sou corredor nas horas vagas, extremamente amador, mas apaixonado por superar meus limites na esteira e nas ruas. Participo volta e meia dessas corridas coletivas em que a gente se mata às 8h da manhã de um domingo pra ganhar uma medalha, uma banana e um isotônico no final (mas que sempre a gente se pergunta por que está lá e depois já promete se preparar pra próxima). E não pude, nesses três meses, sequer dar um trotezinho. Sonhava, literalmente, que estava correndo; por diversas noites, meu subconsciente me punha correndo durante o sono e eu ouvia a consciência dizendo: Paulo Henrique, você ainda não pode correr!

O mesmo vale para os exercícios de academia. Nunca fui muito afeito a eles. Mas sentir seus músculos, por mais que não sejam belos exemplos estéticos, parados por tanto tempo já me dava aquele incômodo... Ainda mais por ter entrado em uma academia havia cerca de duas semanas antes da apendicite, estar conhecendo (e gostando) do pessoal e do ambiente, estar com um novo foco após nova avaliação e nova série. São coisas mínimas, por vezes fúteis, mas que mostram como também não percebemos como o nosso cotidiano nos faz falta quando nos é tomado de assalto.

A recuperação da cirurgia também foi um período para refletir. Sobre muitas coisas. Sobre quem se importa com você é a mais óbvia de todas elas. E recebi o carinho, seja pessoalmente, por telefone ou pelas redes sociais, de mais de uma centena de pessoas que eu nem tinha conhecimento que se preocupavam comigo. Até há pouco, nos últimos dias, muitos me perguntando ainda se já estava 100%, se tudo correu bem. Outra coisa foi refletir sobre uma série de coisas que você julga importante para você e que, após privado, tenta entender um pouco o sentido ou o papel na sua vida. Como o sexo. Ou a religião. Ou pegar sua sobrinha no colo. Ou pegar sol.

Ah, é verdade. Ainda não posso pegar sol, se quiser evitar marcas futuras. E, embora eu seja esse ser branquelo, sou uma pessoa bem solar. Gosto dos dias. Não tenho problema em ficar sob o sol e adoro uma praia para recarregar as baterias. Também sinto uma baita falta de um mergulho e de ficar sentado na areia simplesmente fazendo nada... Principalmente após atravessar um verão inteiro assim.

Todas essas limitações e impedimentos são uma droga. Mas a outra opção ao encarar a cirurgia era morrer. Ou seja, não era uma opção. Se fosse eu nascido algumas dezenas de anos atrás, provavelmente não estaria sequer aqui pra contar história. Melhor o repouso e a prudência. A rotina me espera agora.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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