domingo, 3 de abril de 2016

Minha Fé é Meu Jogo de Cintura





Eu fui criada cercada de diferentes religiões. Estudei em colégio católico, fui batizada e fiz primeira comunhão ao mesmo tempo em que frequentava o centro kardecista onde minha mãe é médium, mas sem esquecer de saudar todos os orixás e entidades que sempre estiveram presentes na minha família. 

O que mais me move na religião é a caridade. Claro que não é preciso nenhuma doutrina para isso. Podemos (e devemos) fazer o bem sempre, sem trocas com Deus ou lugar no paraíso. Mas pra mim a fé sempre foi importante. Eu, filha de Oxum e Ogum, protegida por Exu e devota de Santa Bárbara, faço da religião uma forma de melhorar como pessoa, desenvolver minha espiritualidade e usar isso para o bem. E uma coisa que eu abomino é maldade. Não exclusivamente o egoísmo, de só pensar em si. Ou o sadismo, de sentir prazer com o sofrimento do outro. Mas a maldade de ser indiferente à dor de alguém. É optar não fazer o bem quando você pode. É fugir do compromisso de ser um ser humano melhor, só porque sempre terão outras opções de ser. 

Hoje carrego comigo metade de um ano na companhia de uma doença tão comum e ao mesmo tempo tão desconhecida: a depressão. Fui diagnosticada com essa senhora abusada, após meses e meses de assédios morais no âmbito profissional. Muita coisa mudou desde então: a profissão, o status de relacionamento, a confiança nas pessoas, o modo como encaro certas notícias (nem todas as mudanças são positivas, não é mesmo?) e, especialmente, o modo como eu gostaria de ser encarada. E a depressão me fez enxergar que, às vezes, eu estava me tornando uma pessoa má. Daquelas que são incapazes de sair um minuto de si para viver na pele do outro. Não por querer, nunca sequer foi minha índole, mas como uma auto sabotagem: ser mau faz a gente descontar no outro a dor de carregar consigo uma doença na qual você é dominado, dia sim, dia também. E depois ruminar a culpa de ter feito isso, para se sentir pior. Eu sofro, tu sofres, ele sofre e a vida segue cinzenta, cheia de mágoas por aí.

A depressão nos faz criar a tendência da vitimização. Pobres coitados que têm hora pra dormir porque o remédio que manda. Que não podem descontar as frustrações do cotidiano da vida real numa taça de vinho ou numa cerveja com os amigos, porque misturar remédio e álcool dá problema. Mas a vida não dá espaço para os desafortunados, vemos isso estampado todos os dias em nossa mídia sanguinária. Os que já nascem sem chance, talvez nem consigam chegar lá. Se a realidade feia não for maquiada pela novela da Globo, não é digna de pena. E eu sou feita de carne e osso como todo mundo, de pernas e braços como alguns, de coração grande como poucos. E é por isso que eu acordo todo dia e luto contra isso, contra toda e qualquer maldade que me cerca - até a minha própria. A depressão vai exigindo que a gente se conheça cada vez mais, nossos preceitos, nossos valores. Nos conhecendo, então, aprendemos quando alguns comportamentos - como a maldade - aparecem e não são verdadeiramente nossos. 

Eu luto para que eu não vire uma pessoa má. Para que eu não magoe as pessoas que eu amo. Para que eu não culpe o mundo pelos problemas que são meus. Para que eu não me culpe por uma doença que existe e que pode ser tratada. Ninguém tem o direito de ser mau com o outro, tampouco a depressão te dá o direito de ser mau com alguém. E para não cair na tentação da maldade, apelamos para a raiva. Trabalhando muitos anos em agência de publicidade, onde todos somos descartáveis e quem paga manda, eu ouvia e repetia diariamente a frase: a pressa passa e a merda fica. Não adianta fazer tudo correndo e as coisas saírem erradas. O ótimo é inimigo do feito.

A depressão tem uma característica muito marcante: a ausência de sentir. Não é tristeza, não é bem vazio. Não é alegria também. Não é, apenas. E não ser é duro demais. Então a gente tenta criar sentimentos, ri sem vontade, engole o choro todo dia, leva aquele Rivotril (insira aqui um semelhante) dentro da bolsa para ninguém ver sua crise no meio da rua. Tudo parece artificial. E é mesmo. Até a gente fica um pouco plastificado.

Outro dia me vi conversando com amigos e um deles começou com um discurso carregado de raiva, nem lembro bem de quê, pra ser sincera. Mas rapidamente eu me vi completamente contaminada por aquilo. Queria sentir aquela raiva, que dá pra ver nos olhos, sabe? Que só de contar a sua história você sente o sangue ferver. E lá estava eu, propagando mais raiva. E no dia seguinte a gente vê que a raiva passa. E fica a pressa. Quem tem depressão tem pressa de tudo: de ficar bom, de parar de tomar remédio, de voltar a ser feliz, de não se culpar mais, de sentir qualquer coisa. A raiva vai embora e essa pressa fica, aumentando mais a ansiedade que já nos é gigante. Aceitar que o nosso tempo é diferente é uma tarefa difícil para quem está perto. E pra nós também. Não é com raiva que os problemas vão embora. Também não é fingindo que somos perfeitos e estamos sempre satisfeitos com tudo que o mundo nos devolve. Não é sendo mau que recuperamos o que perdemos.

É aceitar que cada um tem um passo diferente. Alguns vão no dois-pra-lá-dois-pra-cá; outros ainda estão engatinhando. Cada ferida cura num tempo diferente - e você não vai poder nunca controlar isso. Cada um tem sua bagagem nas costas. Não importa se é boa ou ruim: é sua. Arrume-a no seu tempo, e vá tirando, pouco a pouco, a raiva de dentro dela. 

Eu sigo firme com a minha fé de que hoje, pelo menos, eu já ganhei algumas dessas lutas contra a minha maldade e a minha raiva. E vou me segurando onde der para enfrentar as próximas. A única coisa que a depressão não me tirou ainda foi a esperança.

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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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