sábado, 30 de abril de 2016

O Professor de Educação Física





Estava com 12 anos e todas as suas coleguinhas já haviam começado a se interessar por rapazes. Ela também já estava começando a sentir coisas, mas era diferente. O garoto que invadia seus sonhos já não era mais nenhum garoto.

O nome dele era Miguel, tinha quase 40 anos, casado, pai de três filhos adolescentes e era seu professor de Educação Física. Jéssica não sabia dizer exatamente quando começou, mas sentia que era algo que crescia gradativamente dentro de si.

Nas aulas, observava maliciosamente as pernas grossas e peludas do professor; à distância, mordiscava os lábios de excitação. Os garotos da sua idade não tinham aquelas pernas, nem aquele tórax torneado e os bíceps perfeitamente definidos, sem falar nos charmosos fios grisalhos que lhe cobriam tão sensualmente a cabeça, pensava entre suspiros.

Definitivamente, Miguel fazia Jéssica pensar loucuras. Era apenas uma menina, mas as coisas que imaginava com o professor eram dignas de qualquer obra de Nelson Rodrigues ou Vladimir Nabokov com sua indefectível Lolita.

O ápice de seu desejo aconteceu em um campeonato de vôlei juvenil. Jéssica era excelente jogadora e quando conquistou a vitória naquele jogo, recebeu de Miguel um esfuziante abraço comemorativo. Aquele abraço foi o motivo de muitas noites insones para Jéssica, e naquele mesmo dia, no escuro do seu quarto rosa de menina, cercada por bichinhos de pelúcia, barbies e pôsteres do New Kids On The Block, ela se tocou delicadamente pela primeira vez. Sentiu a maciez de sua carne tenra misturar-se com a aspereza recém-brotada de sua pele, aumentou o ritmo e então, como estocadas alucinantes, ela sentia seu corpo se debater freneticamente sob os lençóis macios e perfumados. O rosto de Miguel, vermelho e suado por causa dos exercícios, invadia sua mente. Também o corpo dele, inteiro, latejante. Imaginava o que haveria dentro do minúsculo short azul que o professor usava em todas as aulas.

E nesse exercício de imaginação, intenso e pululante, explodiu em gozo e delírio. Sentiu a respiração ofegante diminuir suavemente e adormeceu exausta e completamente satisfeita.

Nos dias que se seguiram, Jéssica sentia-se estranha. Nas aulas, não ficava mais a vontade com o professor. Ele mexia com ela agora, de uma forma diferente, mais real, mais intensa, e era como se ele soubesse que desde o momento daquele abraço, eles dormiam juntos e "faziam amor" quase todas as noites.

Notando a mudança de comportamento da aluna, Miguel imaginou que fosse coisas da idade e decidiu manter-se à distância para não invadir o espaço da garota. Aproximava-se e falava com ela apenas o estritamente necessário. Diante disto, Jéssica começou a fantasiar que o professor havia descoberto sua paixão e suas práticas noturnas em homenagem a ele e, por isso, sentindo-se desrespeitado, deixou de dar-lhe a atenção que antes lhe dedicava. Quando pensava isso, sentia dores no estômago de tanta vergonha, não conseguia mais encarar o professor de jeito nenhum.

Faltavam poucos meses para o final do ano letivo e Jéssica não via a hora para que acabasse logo. Por fim, as aulas terminaram. Jéssica sentiu-se triste por ter de se afastar de seu querido professor, mas também aliviada, pois não aguentava mais ser torturada pelo constrangimento que a ideia do professor saber de tudo, lhe provocava.

O tempo passou. Jéssica cresceu, saiu da pequena cidade em que morava, foi estudar fora. Tornou-se uma moça moderna, descolada, antenada com o mundo.

Muitos anos mais tarde, de visita à casa dos pais, na cidadezinha de sua infância, tudo continuava praticamente igual, exceto ela. Não entendia como algumas pessoas conseguiam viver uma vida inteira em uma cidade tão provinciana.

Um dia, enquanto caminhava sem destino, deparou-se com um senhor de aparência cansada e andar lento. Seu rosto iluminou-se de admiração e surpresa ao reconhecer naquele senhor o professor que tanto lhe roubou o sono, num passado já quase esquecido até aquele dia.

Sim, era ele, Miguel, o professor de Educação Física. O vigor já não era o mesmo de antes, o rosto já estava bem enrugado, os cabelos mais grisalhos, mas o olhar e o charme permaneciam os mesmos.

Jéssica o cumprimentou entusiasmada. O professor, já aposentado, foi apenas educado e não trocou mais do que duas palavras. A garota ficou desapontada com a frieza do ex-professor, pois acreditava ter sido uma aluna especial, pelo menos era assim que gostava de pensar.

Nas horas seguintes ao inesperado e frustrante reencontro, Jéssica pensou na vida, no tempo, em como ele passa rápido e pode ser cruel para alguns e, como junto com ele, as pessoas mudam ou não.

Seguiu assim um antigo ritual de infância. Caminhou à beira-mar, sentindo o vento no rosto. Voltou pra casa, tomou o lanche especial que sua mãe sempre preparara. Ouviu um pouco de música. Recolheu-se então ao seu quarto de menina, que permanecia intacto. Os mesmos pôsteres, os mesmos bichos de pelúcia, as mesmas bonecas, os mesmos lençóis perfumados e um único e pertinente pensamento, o professor de Educação Física.

Naquela noite, depois de muitos anos, Jéssica adormeceu exausta e completamente satisfeita.

Leia Também:
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: