quarta-feira, 27 de abril de 2016

Onde Se Esconde o Seu Preconceito?





Cuspes, xingamentos e memes nas redes. Nos últimos dias, presenciamos uma enxurrada de movimentos (pro e contra) causas feministas, homossexuais e políticas. Correntes que tomaram, principalmente, redes como Facebook, Twitter e blogs. As mídias sociais, sem dúvida, democratizaram o acesso à informação e também a sua produção, dando mais voz às mentes brilhantes, mas, também, aos imbecis. Pessoas que se comportam de uma forma no trabalho ou mesmo nos círculos sociais aparecem completamente intolerantes e raivosas nas redes virtuais, trazendo à tona preconceitos que teimamos em acreditar que não existem mais. Puro engano. 

Como um monstro que hibernava, os preconceitos despertam num momento mais favorável a eles; mais famintos do que nunca, ávidos por colocar em dia todo o tempo perdido. Impressionante como um movimento cheio de significado, mas de forma alguma agressivo, como o “Bela, recatada e do lar”, encontrou resistência; inclusive entre as próprias mulheres. Só o fato de uma campanha como essa ter existido já diz muito de nós, enquanto sociedade machista, patriarcal e falocrática. Mas, admito, até eu, que me considero uma pessoa despida de muitos preconceitos, ainda me pego pensando a respeito de suas motivações e refletindo se estou sendo, ou não, um bom cidadão.

No último fim de semana, vi um grupo de quatro amigas chegarem, uma a uma, a um bar na Tijuca, onde moro no Rio de Janeiro. Pareciam que vinham de lugares diferentes; umas de casa, outras da praia ou piscina. Riram, beberam juntas, comeram algo. Sem sequer a companhia de um homem. Não aparentavam terem relações entre si que não as de amizade. E eu me perguntei se, anos atrás, não poderia estar tendo o mesmo pensamento machista de muitos de que ali não seria lugar pra elas; que estarem bebendo seria degradante por serem mulheres; ou que por estarem rindo espalhafatosamente, em trajes simples e que valorizavam suas silhuetas, como uma saída de praia, não estariam “provocando”. Simplesmente por nascerem mulheres.

Isso me fez voltar no tempo e lembrar de quantas vezes não fui provocado a fazer piadas machistas ou homofóbicas quando era criança ou adolescente; e quantas vezes não possa tê-las feito como uma questão de afirmação e aceitação, ao ver os demais fazendo. Também quando ouvi uma vizinha dizer que não tinha preconceito contra negros, “era apenas uma questão de higiene”, provocando gargalhadas da rodinha de amigos. Quantas vezes não presenciei crianças incitadas a segregar pessoas que teriam, aparentemente, menor poder aquisitivo em um colégio de classe média alta, como o em que estudei; ou mesmo segregar por apenas serem diferentes, seja de origem, de jeito ou fisicamente.

Sim, o Brasil é um país preconceituoso. Éramos apenas um grande caldeirão de diferenças sob uma casquinha mal cicatrizada de tolerância. Casquinha essa destruída ao primeiro toque mais agressivo e que só faz sangrar ultimamente. Sem previsão pra estancar.

O monstro mora na nossa vizinhança, no nosso Facebook, na nossa casa. Mora dentro de nós. Importante identificar onde ele se esconde. Mas mais importante ainda é não alimentá-lo. Porque quando ele se tornar maior do que nós mesmos, ele nos devora. E leva com ele a nossa humanidade.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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