segunda-feira, 18 de abril de 2016

Os 'Politizados' e as Redes Sociais





Vivemos um momento estranho da nossa história recente, em que vamos acompanhando, dia a dia, acontecimentos que se sobrepõem e que mudam como esses fatos serão narrados no futuro. A piadinha de que os professores de História terão bastante trabalho para explicar o que vivemos hoje daqui a 20 anos já deixou de ser brincadeira para se tornar um fato. As nuvens negras que pairavam no horizonte de nossa política hoje estão sobre a cabeça de todos nós.

E, com uma polarização política clara que vem desde as últimas eleições, parecemos viver um clima de final de Copa do Mundo, com torcida pró e contra governo, a favor e contra o impeachment. Mas, o que deveria ser racional, com cada um respeitando a opinião e a orientação política do outro, virou um campo de batalha, com agressões, insultos e até mesmo um muro construído em Brasília para separar coxinhas de mortadelas. Pode rir. A piada é uma notícia do mundo real.

Claro que em tempos de internet livre (por enquanto, e isso é muito preocupante) essa ~disputa~ política também está nas redes sociais. Mais do que isso, acredito que são elas, as redes sociais, que amplificam as manifestações, com a possibilidade de destilarmos nossas ideias e ideais, do conforto do nosso lar, apenas digitando em nossos tablets, celulares e computadores. E isso seria maravilhoso, se as redes sociais não estivessem sendo usadas de maneira tão vil por nós mesmos e nossos 'amigos' e contatos, maximizando preconceitos, intolerância e, tantas vezes, mau-caratismo disfarçado de boas intenções.

Para fins de transparência, deixo aqui registrada a minha posição política: brinco que sou um coxinha de caviar. Nem coxinha de direita, nem esquerda caviar, eu prefiro me abster, ficando ali pelo centro, observando os acontecimentos. Normalmente voto em pessoas, não em partidos. Mas, no caso específico do impeachment da nossa presidente, apesar do que já foi sacramentado, sou contra, mesmo não sendo a favor do atual governo. São muitas nuances, mas me recuso a compactuar com uma situação que vai levar Temer e Cunha ao poder. E, parafraseando a célebre frase de Regina Duarte, eu tenho medo.  Muito medo.

Voltando às redes sociais, que caos, meus caros, que caos. Preciso confessar que, desde as últimas eleições, eu tenho revisto meu conceito sobre algumas pessoas que são meus contatos no Facebook e no Twitter. E isso é válido para partidários e extremistas de ambos os lados, tanto entre os que defendem o governo e o "não vai ter golpe" ferrenhamente, quanto os que são contra governo e que se tornaram cientistas políticos graduados via internet. E, confesso, começo a duvidar da inteligência de muita gente que frequenta as minhas timelines.

São compartilhamentos mentirosos, histórias inventadas, fontes não checadas. Tudo ali, disponível a um clique antes do Compartilhar. E me dá preguiça, sabe? Ver gente que gosto, que acho interessante, pagando de imbecil apenas porque não deu uma olhada no Google antes de se levar por uma fé cega de que está do lado certo e de que o outro precisa ser derrubado e desmascarado. Vejam bem onde chegamos.

Agora somos todos politizados, espertos, dispostos a derrubar argumentos e provar a nossa razão. Conhecemos a história de cor e salteado, ao mesmo tempo em que sabemos que o nosso ideal é que vai mudar esse país, com nossos candidatos honestos assumindo honradamente o poder ou mantendo-se nele. Enquanto isso, fora das redes sociais, vamos pra rua gritar contra a corrupção ou contra o golpe, mas continuamos furando fila, nos aproveitando de uma situação com o nosso famoso jeitinho brasileiro, nos dando bem às custas dos outros. Tá feio, muito feio.

Somos politizados de redes sociais. Cientistas políticos de botequim virtual, onde podemos gritar nossos preconceitos e sair impunes de tudo isso. Podemos ser racistas, misóginos, homofóbicos, desde que seja para desmontar o argumento alheio, desmerecer a opinião do próximo, fazer valer o nosso ~direito~ de estarmos certos. Queremos ganhar no GRITO, no caps lock, no compartilhamento do meme mais infame. Queremos continuar mesquinhos, pequenos, mas donos da (nossa) razão.

No fim das contas, o que é certo é que os tempos difíceis apenas começaram. Com ou sem impeachment, temos uma crise bizarra para lidar que, sinto informar, não sumirá de maneira mágica com a troca de uma presidente. Mais do que isso, temos um Congresso Nacional vergonhoso, deplorável, incompetente, eleito por cada um de nós, com um bando de picaretas ocupando lugares e que continuarão a nos roubar, com a nossa anuência.

Parece brincadeira que tenha sido em 1987, há quase 30 anos, que Renato Russo tenha composto a música abaixo. Porque o tempo pode passar, mas a gente continua a se perguntar: que país é esse?


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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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