segunda-feira, 11 de abril de 2016

Os Pretensiosos Com Fé





"...a é a certeza de coisas que se esperam; a convicção de fatos que não se vêem." 
Hebreus 11:01

Eu já disse algumas vezes por aqui e isso não é novidade para mais ninguém. Eu cresci em uma família religiosa, fazendo parte de uma religião formal, com dogmas próprios e crenças peculiares ~baseadas~ na Bíblia e em sua interpretação. Eu acreditava no Juízo Final, no paraíso na Terra, no acerto de contas entre Deus e o Diabo, tendo os humanos como peças fundamentais dessa equação. Eu tinha fé. E eu achei, fiel e verdadeiramente, que apenas aquilo em que eu acreditava era a verdade.

E é aqui que eu preciso citar novamente a Bíblia e a conhecida passagem registrada no livro de João 8:32, que diz "...e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Entretanto, se a verdade é clara como água cristalina, com tantas religiões e interpretações diferentes para um mesmo livro, que é proclamado como a Palavra de Deus, por que tantas verdades diferentes, que são levadas como únicas por tantas pessoas? 

As religiões se proliferam. E, deixando de lado a minha percepção clara de que a fé é um grande e lucrativo negócio, temos de convir que muitas das pessoas que se tornam membros de instituições religiosas o fazem por necessidade. A religião é o ópio do povo, já dizia Karl Marx, e acredito sinceramente que algumas pessoas precisam da religião e da fé para se manterem sãs. Além, é claro, daqueles que se tornam pessoas melhores por acreditarem em algo superior e terem fé em alguma coisa que os conforta. Tenho exemplos próximos a mim que me confirmam que ter princípios religiosas podem fazer bem e salvar determinadas pessoas de um destino não muito digno. Mesmo que alguns considerem um destino religioso pior que o mais indigno dos destinos. 

Mas é aí que eu entro no insight que me levou a essa coluna. Encerrado mais um dia de trabalho, eu retornava para a minha casa, dentro do metrô, distraído com uma leitura qualquer. Quando minha atenção foi desviada para um jovem engravatado que entrou no vagão em que eu estava e começou a pregar a sua verdade em alto e bom som a todos os presentes. O seu discurso, agressivo e em alto volume (e essa é uma das coisas que aprendi com gente religiosa: Deus deve ser surdo; porque do jeito que gritam, apenas essa explicação faz sentido), era direcionado às pessoas sem fé e pervertidas que voltavam para casa depois de um dia exaustivo de trabalho. E em sua ~pregação~ ele convidava a todos para conhecerem o Deus da verdade e a serem inundados pela única fé que salvava vidas. A dele mesmo, é claro.

Confesso que ri. Depois da vontade de pegar o meu bastão de basebol invisível que carrego em minha mochila e quebrar a cabeça daquele louco fanático que estava gritando no metrô e atrapalhando a viagem de todo mundo, eu quis puxá-lo pelo braço e perguntar se ele não tinha vergonha de tamanha pretensão. Afinal, em um mundo com mais de 7 bilhões de pessoas, a fé dele (e de um grupo pequeno que tivera a sorte de acreditar nas mesmas coisas que ele) era a única verdadeira. Deus, Zeus, Jeová, Alá, Superman, o Mestre dos Magos ou seja lá quem for a entidade superior em que ele acredite, havia escolhido alguém que gritava alto e perturbava a paz dos demais para levar a sua mensagem de verdade e arrependimento. Coerente, eu pensei. E continuei a rir durante a tentativa da minha leitura.

Mas já era tarde e o assunto ficou em minha cabeça. E eu lembrei de eu mesmo adolescente e me sentindo superior e mais importante que um mundano, porque eu teria vida eterna e todos os outros morreriam no Armagedon por não acreditarem no mesmo do que eu. Mais que isso, pensei em todas as outras pessoas que conhecia, de instituições religiosas diferentes da minha na época, e que, infelizmente, não se salvariam e acabariam morrendo por não ter tido a sorte de escolherem a mesma e verdadeira religião que eu. Eu era pretensioso e equivocado, certo de que era melhor que os demais por ter uma fé que me fazia especial aos olhos de Deus. 

Hoje, livre dessas amarras e com a mente mais aberta, tenho vontade de rir daquele garoto. Ao mesmo tempo em que tenho um pouco de pena e até penso na tristeza que seria se aquilo que eu acreditava fosse real. Sério, vocês conseguem imaginar um paraíso cheio de gente que acredita naquelas coisas que eu acreditava? Seria chato demais e, desculpem-me os mais sensíveis, Deus me livre de viver em um mundo rodeado de pessoas intolerantes ao diferente, que pensam quadrado e aceitam apenas a sua própria fé como verdadeira. Deus, se existir, deve ficar é muito chateado com tudo isso.

E a culpa é do que mesmo? Da nossa pretensão. Da necessidade de nos acharmos superiores, melhores, mais importantes que os demais. E se tem algo perigoso é gente pretensiosa com fé. Ou que usa a fé alheia para realizar as suas próprias pretensões que, muitas vezes, não tem nada de inocente ou equivocado; é pura maldade e mau-caratismo mesmo, vide tantos políticos de bancada evangélica ou líderes religiosos empresários.

Sinceros ou não, equivocados ou perdidos, a pretensão de se sentir único e especial para Deus é um grande problema. Porque, sinto lhe informar, você não é, muito menos se é do tipo que se considera superior por ter a sensação de ter encontrado a religião e a fé verdadeiras. Deus, se existir, deve estar muito mais preocupado com outro tipo de problema do que em olhar e abençoar seres minúsculos e que são verdadeiras partículas de pó dentro desse universo e que, com sua pretensão, apenas aumentam os problemas de uma humanidade que, a cada dia, prova que é um projeto fadado ao fracasso.

Tenha fé, não é pecado. Mas não seja pretensioso. Ao contrário disso, lembre-se de Shakespeare e de sua máxima:
"Há mais coisas entre os céus e a Terra do que supõe vossa vã filosofia..."
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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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3 comentários:

Dalagnol disse...

Olá Leandro, gostei de seu artigo, apenas achei um pouco ácido para com os religiosos, mas muito bom. E na verdade acho que esse egocentrismo nos é intrínseco, pois vemos isso no torcedor de futebol , no política, e tantas outras coisas que nos humanos tornamos "sagrado", para nos sentir superior ao próximo, até o que possuímos geralmente é para sentir-se superior ao outro, pena que essa consciência venha tão tarde..... Abraços.

TheQuedolaomer disse...

Ex-Testemunha de Jeová, né mano? kkkkkkk eu também já fui.

Anônimo disse...

Independente de religião, crer ou não é um direito concedido a todos. A fé é muito importante em diversos momentos da vida. Porém concordo que a arrogância e pretenção é a doença do mundo. Narrativa interessante!