sábado, 2 de abril de 2016

Pela União do Poder Gay






Eu já contei isso outras vezes, mas sempre há uma nova razão para relembrar. Quando eu era criança, na escola, me agrediam repetidamente. O bullying era uma rotina cruel. O tempo todo as agressões eram verbais, mas as agressões físicas também existiam. Com os xingamentos, as chacotas, as palavras venenosas acostuma-se, criamos um escudo, faz-se ouvidos moucos, e tentamos seguir a vida, magoados, envergonhados, mas fingindo que não é com a gente, que não nos atinge. Pelo menos era assim que eu agia. Não tinha ânimo, coragem e nem repertório para confrontar a turba de moleques que me atacavam gratuitamente. Aos 9, 10, 11 anos, que argumentos você vai usar contra o ódio que sentem pela sua diferença, um ódio alimentado por adultos? Fica-se realmente sem chão e sem defesa, como num salto mortal sem rede de proteção. Tudo o que te resta é fazer de conta que se está em um grande pesadelo, e que logo você vai acordar.

Sim, apesar de ser terrível, é possível sobreviver quando criança e adolescente aos ataques verbais homofóbicos dissimulando, ignorando, fazendo de conta que não é com você, um paliativo que pode funcionar, até que o pesadelo realmente acabe, porque ele acaba um dia, embora pareça eterno enquanto dura. Mas quando a agressão é física, ignorar, fingir que não é com você, é uma opção inviável. Atinge sua integridade física, fere sua dignidade, mais do que o seu corpo, marca sua alma. É uma invasão violenta de um espaço que é só seu e que ninguém tem o direito de se aproximar sem sua permissão. É uma violação imperdoável do seu corpo, do seu templo mais íntimo.

As lembranças mais dolorosas e revoltantes que tenho, não porque me revoltam agora, mas porque lembro nitidamente da sensação de ódio e impotência daqueles momentos enquanto escrevo, era quando me atiravam pedras, ovos e água. Nunca me agrediram com socos e pontapés, as modalidades de ataque eram mais criativas. Cada semana era uma coisa nova. Os haters se reuniam para decidir qual seria a forma de crueldade que impingiriam a mim durante a semana. Eu ficava num canto da sala, ouvindo os cochichos e vendo eles olharem na minha direção com deboche e escárnio, morrendo de medo e rezando em pensamento para descobrir um jeito de me safar.

A modalidade mais duradoura de tortura foram os ovos. Um belo dia, meus queridos coleguinhas decidiram que seria muito divertido tacar ovos em mim na saída das aulas. Era um terror. Eu me defendia como conseguia, às vezes contava a história pra professora e pedia pra sair da aula mais cedo, outras me misturava às pessoas no ponto de ônibus, para que eles ficassem inibidos em atirar os ovos. Quase sempre eu conseguia me safar, mas a tensão, o medo de um ataque iminente, de ser machucado e humilhado por nada, eram horríveis demais.

Quando levei uma pedrada nas costas, que me deixou uma marca roxa durante dias, não consegui esconder. Num momento de descuido, saindo do banho, minha mãe percebeu. Constrangido, tive que contar o motivo da agressão. Minha mãe chorou, passou uma pomada na minha ferida e disse que não ia mais deixar isso acontecer. No dia seguinte, para me proteger de um novo ataque, fiquei sentado na porta da secretaria da escola, até que que meus agressores, vencidos pelo cansaço, fossem embora e me deixassem em paz. Na porta da secretaria, ninguém ousaria me atacar. Mas eles não foram embora, ficaram em volta de mim como abutres ao redor da carniça, me provocando, dizendo que não iam embora, me acuando por todos os lados. Eu queria que a diretora saísse de seu pedestal e botasse todo mundo pra correr, mas ela não fez nada, nenhum adulto fez. Quem surgiu do nada, surpreendentemente, pro meu alívio e salvação, feito uma leoa feroz e furiosa pra proteger sua cria, foi minha mãe, minha heroína, minha mulher-maravilha.

Ela ficou à espreita, observando a ação dos pequenos malditos durante um tempo, até onde seu coração de mãe conseguiu aguentar calada. Quando não pôde mais, surgiu em minha defesa, alucinada, em meio a oito ou 10 pré-adolescentes sedentos pelo meu sangue. Aos gritos, disse que se eles continuassem a me importunar, iria na casa de cada um conversar com os pais deles, e se não adiantasse, ela mesma daria uma surra de deixar em carne viva, em um por um. Incrível como aquela ameaça funcionou, nunca mais sofri ameaças de ataques físicos, mas o bullying verbal jamais parou. E quanto mais passava o tempo, mais me incomodava servir de chacota pra toda uma escola. Era impossível, mas parecia que eu era a única bicha do colégio inteiro.

Eu estava crescendo, e não queria mais ser defendido pela mamãe. Queria conseguir me defender sozinho, mas isso parecia impossível diante dos covardes que sempre atacavam em bando. Se os enfrentasse, sabia que seria massacrado. Mas eu tinha uma fera dentro de mim, ensandecida para responder às ofensas que me proferiam. Por essa razão, nasceu em mim a vontade de aprender algum tipo de luta. Essa vontade surgiu aos 12 anos, quando uma conhecida me levou para assistir uma aula sua de karatê. Tina era negra, lésbica e analfabeta, e me incentivou a fazer um curso de defesa pessoal, garantindo que ao aprender a me defender, ninguém nunca mais ousaria mexer comigo. Lutar como Daniel San, ser uma bicha carateca, passou a ser uma ideia fixa, que não foi adiante. Não consegui persuadir meus pais, que achavam ser algo muito violento. E assim, deixei a infância e atravessei a adolescência sendo o alvo preferido dos bullies, sempre acuado, amedrontado, sem coragem de responder, pra não apanhar.

Adulto, nunca mais fui uma vítima ostensiva do bullying, mas pior do que tudo o que me aconteceu, ouvi notícias e vi imagens de pessoas assassinadas. Gays sendo mortos, pelos mesmos motivos que me atiraram pedras e ovos em outra época. Eles não querem mais "apenas" nos humilhar, querem tirar as nossas vidas.

Somos transparentes, sensíveis, dóceis. Somos da paz. Não gostamos de brigas, nem queremos machucar ninguém. Amamos a arte, a alegria e a liberdade. Não somos preparados para a violência, talvez tenhamos jogo de cintura para suportá-la, mas não queremos impingi-la a ninguém. Só queremos amar. E diante disso ficamos frágeis e assustados demais quando somos vítimas, tornando-nos presas fáceis para os dragões que não conhecem, nem nunca conhecerão, o paraíso. Dessa forma, quem poderá nos defender? O que a gente faz para aplacar essa chacina contra homossexuais?

Porque algo tem que ser feito. Se a Lei não nos defende e tampouco investiga ou pune os crimes contra nós, é preciso que seja feito qualquer coisa para proteger-nos da sanha assassina que nos assola. E tem gente fazendo. Algo extremado e completamente fora dos padrões do politicamente correto, mas que tem o meu total apoio.

Eles atendem pelo nome de Check It. Trata-se de uma gangue, formada por cinco garotos gays negros, dos Estados Unidos, para se defender da violência homofóbica. Os rapazes entre 14 e 22 anos, usam facas, socos ingleses e até bastões como membros da gangue, e justificam: "Se ninguém vai nos defender, vamos ter que fazer isso por conta própria".

A história dos garotos virou documentário com o título de mesmo nome da gangue, e conta com depoimentos de seus membros, falando sobre a dureza de sofrer preconceito por todos os lados, sendo gays, negros e pobres. Aqui você confere um trecho do Doc:


Eu realmente vibrei com essa notícia. Acho uma iniciativa excelente, que pode sim diminuir a violência contra os gays. Tomara que a ideia se espalhe pelo mundo e mais gangues surjam. Claro que vão surgir os "caga regras" com o papinho politicamente correto de que violência gera violência e blá blá blá.

Que gere, e que nos matemos todos uns aos outros de uma vez, pelo menos morremos com dignidade, lutando, tentando nos defender. Porque continuar morrendo em silêncio ou gritando por uma ajuda que não vem, é que não dá.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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4 comentários:

Anônimo disse...

Já existem gangs de homossexuais extremamente violentas, sua anta tapada! A imbecilidade desse texto só é superada pela imbecilidade de antas tapadas que acham que a esquerda é "amiga" dos homossexuais...

Unknown disse...

Este texto é de um despropósito tão grande quanto a situação que ele defende.... beleza, continue pensando assim, só que quando você for vítima de violência não se queixe a ninguém, engula o seu choro e revolta e vá para casa.

Anônimo disse...

SUA BICHONA, BAITOLA, VIADO, PEROBO...

Ronaldo Torres disse...

Não concordo com a violência de qualquer lado. A união seria mais efetiva como no caso de São Francisco, não?