sexta-feira, 1 de abril de 2016

Sobre a Ave Dodô (ou Inocências Perdidas)







A ave dodô era um animal tão inocente que foi facilmente extinta pelo homem. Hoje vivemos numa sociedade que não comporta mais atitudes assim, é necessário ser esperto e quando digo ser esperto, não me refiro a ser velhaco e sim, sagaz, manter os olhos vivos para as crueldades do mundo. Sempre vamos encontrar alguém querendo nos passar a perna e, muitas das vezes, o nosso inimigo mora ao lado e não percebemos. É necessário compreender o tempo. 

E existem momentos em que dar um tempo é essencial, até mesmo nas relações pessoais. Já dizia a mãe de um amigo que “amizade muito fina, quebra”. E eu sei bem como é isso. Eis que o grande segredo é mesmo o equilíbrio em todas as coisas, nem muito, nem pouco. Oferecer-se demais ou de menos dá sinais que podem confundir.

Mas chegar a esse equilíbrio leva-se tempo; precisa-se quebrar a cara algumas vezes ou até muitas para poder aprender a encontrar a paz interior. E antes que esse texto descambe para o lado zen, o que estou falando aqui não é nada zen. A verdade é que vivemos numa sociedade de mentiras, onde expor a verdade dói demais. Quantas pessoas já se viram obrigadas a se calarem, ou até mesmo a contar mentiras para se protegerem?

Quando convivemos demais com uma pessoa acabamos conhecendo muito de seus defeitos e se não der crédito para que essa amizade vingue ou se achar que tais defeitos são mesmo impossíveis de se conviver então ou se diz na cara o que incomoda, coisa perigosa por demais, ou dá um tempo; ou finge que concorda com tudo para evitar possíveis atritos, ou aceita-se. 

E eis que dar um tempo é necessário, pessoal. Dar um tempo para conhecer melhor a pessoa, dar um tempo num relacionamento que está se desgastando, dar um tempo no trabalho para voltar com as baterias recarregadas... enfim, dar um tempo em qualquer coisa é bacana e esse tempo vai depender obviamente da situação de cada um.

Mas como qualquer coisa existem prós e contras.

Pode ser que o tempo seja eficaz para amenizar situações ou até mesmo fazer com que reflitamos. Mas ele também pode passar levando consigo oportunidades que poderão demorar muito para voltar ou talvez nem voltem. Difícil saber, a vida é uma incógnita ou, como diria a mãe de Forrest Gump, uma caixinha de bombons.

Então, se não nos mantivermos espertos para o que a vida nos oferece, ou seja, se não prestarmos bem atenção aos sinais, se deixarmos nossa essência de lado em virtude de algo ou alguém, poderemos nos perder. Eu iniciei este texto falando sobre a inocência de uma ave; pessoas que mentem perdem essa inocência e não se dão conta do tempo que perdem deixando de ser elas mesmas. A ave dodô pagou com a vida um preço muito alto: ser ela mesma e não teve tempo para mudar, para aprender a se defender.

Ela foi extinta não apenas porque não conhecia o inimigo, mas também porque nunca precisou lutar para se defender. Hoje vivemos um momento em que precisamos lutar todos os dias e, mesmo assim, ainda corremos risco de sermos extintos pelas mentiras alheias ou nossas, pela falta de bom senso e ética, por muitos outros fatores. Não há espaço no mundo de hoje para uma ave dodô. Mas será que haverá espaço para nós?

E eu estou de volta (sentiram minha falta?) depois de umas merecidas férias. Nada melhor que voltar para um lugar que me é tão bem quisto. Beijos e até semana que vem.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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