sexta-feira, 15 de abril de 2016

Sobre Esse Tal de Rock and Roll





O rock tupiniquim surgiu quando a galinha ainda tinha dentes. Era uma coisa bem iê iê iê, normal, já que o rock no mundo todo era  assim mesmo. Enquanto isso, por aqui a galera usava e abusava das versões do rock gringo, pouca criatividade.

E lá chegamos nos anos 60, quando quem mandava mesmo era a Jovem Guarda. Roberto Carlos reinando absoluto ao lado de seus amigos Erasmo, Wanderléa, Martinha e cia bela. Todos estouraram no país inteiro. E eis que veio a psicodelia e muita gente embarcou nessa; até o príncipe Ronnie Von entrou nesse barco. 

Pode se dizer que os Mutantes não foram apenas a maior banda de rock da época, mas é a melhor até hoje, influenciando toda uma geração de roqueiros endiabrados com seus tons de brasilidade ferrenha e guitarras divertidas. E ainda tinham uma jovem e linda Rita Lee, mais danada que nunca.

Raul Seixas se tornou mito ainda em vida e, quando Rita foi expulsa dos Mutantes, ela seguiu linda e carregando a coroa de rainha do rock brazuca. A ovelha negra colecionava sucessos e seus antigos colegas se perdiam no horizonte das drogas pesadas. O rock, tão presente na TV, meio que some, dando espaço para o som de Fernando Mendes e Odair José, que ouriçava a mulherada, que a essa altura, deixavam o feminismo de lado e paravam de tomar a pílula.

Se os anos sessenta foram libertadores, os setenta foram bem pudicos durante um tempo, pelo menos até a chegada das discotecas e o som de Donna Summer assumir as carrapetas, mas veio o punk rock e daí trocentas bandas, já cansadas da ditadura que massacrava o país, começaram a pegar as guitarras.

Enquanto Renato Russo se perguntava que país é esse, outros tantos respondiam. Veio a Plebe Rude, os Picassos Falsos e até espaço para a bossa despretensiosa da Blitz, que colocava o dedo na ferida fazendo graça. Paula Toller se tornou a grande musa desse período, e titia Rita não andava lá muito feliz com o som que essa galera andava fazendo, mas abençoou muita gente mesmo assim. Cazuza que o diga. E se tínhamos uma musa, porque não um muso? Paulo Ricardo era o grande sex simbol estampando todas as capas de revista e balançando seu mullet pra lá e pra cá. As meninas voltaram a tomar a pílula e sonhar com o moço em seus lençóis.

O rock invadia novamente a nossa TV nessa época e,  se podíamos ver os Titãs pulando no Chacrinha ou Raul Gil, deixamos de vê-los nos anos 90 quando a MTV chegou, para a alegria de muita gente, inclusive a minha, que sempre fui de de criar historinhas na minha cabeça pras músicas que ouvia, sempre fui muito visual, então os clipes sempre me fascinaram e eu cresci na onda MTV.

A coisa mudou de figura. Se por um lado, segundo Paulo Ricardo, a culpa foi do canal, que segmentou tudo abrindo espaço para a música sertaneja, o pagode e o axé invadirem o mainstream, temos que levar em consideração que o rock nunca foi pop e sempre brigou contra isso. Então tome dupla sertaneja, tome pagode e tome Carla Perez rebolando até o chão. Até Faustão dançou na boquinha da garrafa! As bandas que resistiram aos anos oitenta escolhiam muito bem onde tocar na TV aberta.

Mas eis que nem tudo estava perdido para o rock tupiniquim. Uma geração cansada de trinados cafonas de cantores de calça justa e das mesmas baboseiras do pagode e do axé baiano rebolando que continuavam esfregando a bunda em nossa cara em programa de domingo, surgiu o Abril pro Rock, no Recife, fazendo a cidade voltar pro mapa, trazendo Chico Science, Mundo Livre, Eddie, Jorge Cabeleira e, posteriormente, Otto, que não canta nada mas tem boas intenções. O mangue beat de Chico reinventou o rock, sendo a coisa mais bacana desde a Tropicália, segundo os críticos e o povo brasileiro agradeceu. 

Se Recife voltou pro mapa, então muita coisa começou a aparecer. Raimundos saíram do gueto e foram tocar até na Xuxa, assim como Charlie Brown Jr; Jota Quest, inspirado no blues e na black music dos anos setenta vieram de Minas colocar café no bule; os Titãs gravaram um acústico e voltaram ao topo e, se Dinho Ouro Preto achava que sua carreira tinha chegado ao fundo do poço quando se viu cantando numa churrascaria, ele não poderia imaginar que voltaria para o Capital Inicial e fazendo o sucesso que nunca fizera antes. O rock bombante na MTV voltava ao lugar de antes, ocupando espaço em canais abertos a todo tipo de público. Com o novo milênio surgia a internet pra ajudar novas bandas a se projetarem. Pitty, NX Zero e Fresno faziam a alegria de uma nova geração de jovens que precisavam ser escutados novamente. 

Tudo isso até que uma nova geração cansada do som urbano trouxe de volta um tal de sertanejo universitário, que em nada se assemelha àquele outro sertanejo; talvez apenas as velhas calças justas, mas dessa vez os rapazes são bonitos, gostam de exibir seus corpos em redes sociais. É o tal do arroxa. Mas a internet, sempre democrática, avisa que não adianta o Serginho Groisman colocar sertanejo todo sábado em seu programa, que o pessoal cansa e vai atrás de outras coisas. Por enquanto, ficamos nós todos arroxados no canto da sala esperando a morte chegar, como diria Raul.

Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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Um comentário:

ManDrag disse...

Boa resenha compactada! Pelo que vejo o rock tupiniquim é como as marés, vai e vem com as ondas.