sexta-feira, 8 de abril de 2016

Sobre Rivais (ou Sobre Bette e Joan)





Rivalidades existem em nossas vidas. Quem nunca teve um rival, quer seja tentando passar a perna no trabalho ou tentado roubar seu amor ou amigo? Rivais existem, é fato, mas para os neuróticos de plantão, nós somos os rivais e eles as vítimas. Seria essa a tal necessária oposição que precisamos ter em nossas vidas? Por que perder tanto tempo criando uma situação de confronto? Hoje em dia, essa rivalidade está cada dia mais acentuada nas redes sociais, mas antes isso era visto nos tabloides nas bancas de revista. 

Bette Davis e Joan Crawford foram duas das maiores estrelas do cinema de todos os tempos. Tinham reputação de mulheres fortes, que não levavam desaforo pra casa, sempre com uma resposta na ponta da língua. O motivo de viverem se engalfinhando é repleto das mais diferentes lendas. Ninguém de fato sabe o porquê, talvez uma tenha roubado o homem da outra, talvez o trabalho. Bette era estrela da Warner Bros, Joan da MGM; pode ter sido um exímio golpe de marketing que acabou sendo benéfico para as duas estrelas, mas o fato é que elas acabaram gostando de tudo isso e amavam se odiar.

As duas estrelas brilharam numa época em que Hollywood era muito diferente do que é hoje. Se agora temos câmeras espalhadas em todos os lugares e as pessoas possuem mais acesso à informação  factoides, por mais que surjam, podem ser desmascarados rapidamente —, antes dependíamos muito mais do que nos era oferecido pela mídia e ela determinava quem deveria ocupar o lugar de destaque. Ok, hoje isso também acontece, porém, a internet tem um peso considerável e o público não é mais o espectador passivo de outrora. Entretanto, o espaço para mulher não mudou muito: elas ainda ganham menos que os homens e, ao envelhecerem perdem o espaço para as mais jovens. Neste caso, tanto Bette quanto Joan conseguiram envelhecer com dignidade aos olhos do público, conseguindo importantes papéis.

Bette Davis
Bette Davis começou a carreira nos palcos da Broadway e em Hollywood travou lutas famosas com os chefões dos estúdios; quando não conseguia um personagem, a pessoa entrava para sua temida lista negra. Joan Crawford começou a carreira como dançarina, até ser descoberta por um executivo da MGM que a viu trocando de roupa; casou com o maior acionista da Pepsi-Cola e foi durante muito anos presidente do conselho da empresa.

Bette Davis ganhou dois Oscars e foi indicada dez vezes, além de ter vencido vários outros prêmios importantes; nunca chegou a ser um ícone da beleza, mas era intensa em tudo que fazia. Joan Crawford foi indicada três vezes ao prêmio da Academia e venceu uma; adorava ostentar e parecer formosa em todos os momentos, até mesmo na cama exibindo seu Oscar. Ambas fizeram filmes que se tornaram clássicos do cinema e suas interpretações são lembradas até hoje. Ambas são consideradas lendas do cinema pelo American Film Institute.


Bette Davis tinha fama de língua ferina e não poupava ninguém de seus comentários; certa vez disse: "Por que sou tão boa interpretando vilãs? Talvez porque eu não seja uma vilã. Talvez por isso a Joan Crawford sempre interprete mocinhas". 

Joan Crawford deserdou os filhos mais velhos e deixou uma pequena parte da sua fortuna para os mais novos. Se a tal rivalidade fora criada para incrementar a carreira e ajudar a perpetuar a figura mítica que ambas gostavam de gerar em torno de si mesmas, isto ninguém sabe, porém, elas e os estúdios souberam usar muito bem isso a seu favor. Não precisaram disso para se tornarem estrelas, elas tinham talento suficiente para se tornarem lendas, mas as lendas em torno de tudo que diziam uma da outra ainda hoje provoca frisson. 

Se durante tanto tempo as farpas entre elas eram motivo de alvoroço perante a imprensa e o púbico, as coisas ficaram piores quando Joan, estrela da MGM, foi contratada pela Warner, reduto de Bette. Anos depois se viram trabalhando juntas no mesmo filme, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?. O interessante é que no filme as duas estavam completamente desglamourizadas; enquanto Bette usava uma maquiagem carregada e um figurino ridículo, Joan estava presa a uma cadeira de rodas, gorda e sem maquiagem. O que motivou a crítica e o público a assistir ao filme foi justamente o embate entre estas duas mulheres de temperamento forte que nunca se calaram para ninguém. Duas grandes atrizes em cena, apenas isso.

Joan Crawford


Bette Davis dizia que "Nunca se deve falar coisas ruins sobre alguém que está morto. Apenas coisas boas. Joan Crawford está morta. Ótimo!" Ambas estão. Joan faleceu em 1977 e Bette em 1989. Mas conseguiram. Se tornaram lendas e levaram a palavra rivalidade ao pé da letra.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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