segunda-feira, 4 de abril de 2016

Vou de Uber





O Rio de Janeiro parou na última sexta-feira, dia 1º de abril. Não, e nem foi piada, apesar de parecer. Um "protesto" de taxistas contra o serviço Uber atrapalhou a vida de milhares de pessoas, gerando um total de 125 Km de congestionamento na cidade. Isso mesmo que você está lendo: os taxistas, essa classe de trabalhadores super preparada, protestando contra o nosso direito de utilizar um serviço de qualidade (superior) ao ofertado por eles. Pensando bem, era 1º de abril, devia ser piada.

No interior do Rio, na cidade onde nasci (beijos Paraíba do Sul!), táxi era item de luxo. A cidade é pequena, possui uma boa quantidade de ônibus que levam para os quatro pontos do lugar e usar táxi nunca foi uma realidade. Tirando raras exceções, não me lembro de ter entrado com tamanha frequência dentro de táxis até me mudar para o Rio, onde a utilização desse serviço é trivial. O preço não é barato, mas também não é inacessível, principalmente de e para onde eu normalmente me locomovo. Assim, depois que vim para cá e optei por não ter carro (vagas de garagem custam um absurdo nessa cidade, eu bebo e existem mil leis secas, a gasolina está pela hora da morte - motivos não me faltam para manter a decisão), andar de táxi se tornou uma realidade bastante conveniente para mim. E eu já vivi cada situação dentro de táxis nessa cidade...

Antes de mais nada, é necessário um parágrafo para falar sobre o taxista carioca, esse ser maravilhoso e surreal. Sabe esse jeito malandro e descontraído dos moradores do Rio que é amado (e odiado na mesma intensidade) por tantas pessoas? Então, esse jeitinho também está impregnado nos taxistas. Eu, quando quero, sou normalmente simpático. Mas não,  não tenho obrigação nenhuma e sequer vontade de bater papo com taxista quando entro em um carro. Isso quando você consegue entrar em um táxi, já que por aqui é comum um taxista recusar corridas curtas e para lugares que eles não conheçam. Fora, é claro, a adorável mania que tem de sempre escolherem o caminho mais longo para lucrar em cima de você, o usuário do serviço.

Durante muito tempo eu, que não nasci aqui no Rio, fazia um sinal para os táxis na rua e começava todo um processo de concentração em meu comportamento. Se o táxi parava e eu conseguia entrar nele, forçava um sotaque carioca carregado e um jeitão mais largadão e dizia para onde eu queria ir. O objetivo era claro, mas eu muitas vezes fui obrigado a falar para o taxista: "Ei, eu moro aqui, conheço a cidade e você não vai me enrolar!". Sério, eu tenho verdadeira pena de muitos turistas que aqui chegam e precisam de táxis para se locomover. 

Fora que, mesmo assim, eu posso contar dezenas de histórias bizarras que já vivi dentro de táxis. Como a vez que um taxista ouvia uma estação de rádio evangélica em um volume absurdo e, quando eu pedi para trocar, ele disse que no táxi dele mandava ele e que se eu tivesse incomodado eu poderia descer; eu desci. Ou quando eu dei o local para onde estava indo e, ao me distrair, vi que o taxista escolheu o caminho mais complicado e, quando apontei para ele o "erro" ele mandou um "se liga, mermão, o taxista sou eu" e eu disse que sabia quando custava a corrida até o local e ia pagar apenas pelo valor justo e não pelo passeio que ele estava dando comigo; ele bateu boca, eu fiquei quieto e desci quando ele parou em um sinal. Ou ainda, e provavelmente a mais assustadora das vezes, quando o taxi que eu estava fechou um outro carro "sem querer" e ainda fez um sinal obsceno para o motorista, para passarmos então a ser perseguidos, até que em determinado sinal o outro motorista saiu do seu carro com um revólver apontado para a cabeça do taxista e eu só pensava que ia morrer indo para o Aeroporto Santos Dummont, levando tiro por causa de um taxista fdp, parado em um sinal na Cinelândia. 

Isso tudo porque sou  homem. Fico imaginando como deve ser terrível ser mulher nessa cidade e depender de um serviço exercido por motoristas não capacitados e, em sua grande maioria, machistas e interessados em tirar uma casquinha de possíveis presas que entram em seus táxis. Lendo o depoimento de uma amiga no Facebook, por exemplo, eu me dei conta de que se tá ruim para mim, imagina para as mulheres, que tem de conviver com verdadeiros animais no volante quando precisam se locomover pelo Rio de Janeiro?

Mas o mercado, ainda bem, se mexe e se renova. Apesar dos pesares (e de muitos motoristas ainda incapazes), o serviço de táxi tem melhorado bastante desde o surgimento dos aplicativos para celular, como o Easy Táxi e o 99 Táxis, por exemplo. Termos para quem reclamar (não, o telefone 1746, a ouvidoria para o serviço de táxi no Rio NÃO FUNCIONA) e saber que algo será feito inibe um pouco o mal comportamento de pessoas que deveriam estar trabalhando e interessadas no bem estar de quem usa os seus serviços. Se isso não é feito pela própria consciência do motorista, que seja pelo medo de perder a vinculação a serviços que procuram à excelência para os consumidores.

Até que surgiu o Uber. E eu até demorei para instalar o App no meu celular, mas depois da minha primeira corrida eu só pensei: nunca mais entro em um táxi. O serviço de motoristas particulares consegue ser (na maioria das vezes) mais baratos que os táxis, por uma qualidade elevada à décima potência. E acho que não seria necessário nem a água ou as balas disponíveis no carro para me conquistar; não, os motoristas do Uber são educados, simpáticos e sabem que dependem dos usuários para fazer o seu trabalho. 

E os taxistas, o que fazem com a existência de uma nova realidade e com a concorrência de um bom serviço? Melhoram, investem em seus táxis e em suas posturas, visando sempre os usuários, correto? Óbvio que não. Partem para cima do Ubers, em uma verdadeira caça às bruxas, de maneira agressiva, agredindo motoristas e usuários e, como aconteceu no Rio na última sexta, 1º de abril, param a cidade para se mostrar como coitadinhos. E o tiro, é claro, sai pela culatra.

Não, meus caros, vocês são despreparados. São, em sua maioria, uns merdas de profissionais. E, como demostram os dados, não sabem nem mesmo como "protestar". Para terem ideia, enquanto os motoristas de táxi faziam uma baderna no Rio na última sexta, o Uber dava R$ 20 de desconto EM TODA corrida no mesmo dia, em retaliação ao protesto. E se você precisou utilizar o serviço nesse dia, nenhum dos motoristas falou depreciativamente sobre o movimento dos taxistas. O resultado: enquanto os taxistas fudiam atrapalhavam com a vida de quem precisava se locomover na última sexta pelo Rio, o Uber teve o recorde de crescimento de 700% no número de downloads do seu aplicativo para os celulares. Acho mais: além de ruins como taxistas, vocês também precisam, com urgência, de uma boa assessoria, porque fizeram, de graça, um ótimo marketing para o seu principal concorrente.

Eu, da minha parte, continuarei optando pelo Uber como minha primeira escolha. Porque desculpem-me, pobres taxistas, eu gosto de ser bem tratado e de bons serviços. Mas, fica a dica: melhorem! Somente assim vocês ainda terão uma chance real de mudar a imagem que carregam e que foi construída graças a cada mal profissional que dirige um táxi nesse país.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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3 comentários:

Sonia Rodrigues disse...

Adorei Leandro! Penso como vc. Raramente uso taxi, mas as minhas filhas usam muito e por toas essas questões que vc abordou e principalmente por serem mulher elas SÓ usam Uber e a mamãe aqui fica mais tranquila. Bjks

Shumy disse...

Uso pouquíssimo o serviço de táxi, mas sempre achei um absurdo o valor cobrado. Nada mais justo do que ter concorrência (ainda mais quando a relação custo x benefício é infinitamente superior)! 100% a favor do UBER

Fernando Guimarães disse...

Perfeito. O único porém: Foi educado demais. abs.