segunda-feira, 16 de maio de 2016

Juan Carlos Faria-Gonzaga





Em um dia qualquer de março, recebemos uma mensagem da nossa amiga veterinária preferida, com fotos de um gatinho filhote branco, maltratado pela vida, que ela havia resgatado em um desses temporais cariocas que assolaram a cidade naquele mês. Sem poder ficar com ele, mas com seu instinto em ação, ela o havia salvado, cuidado, mas agora apelava aos amigos e conhecidos: não querem mais um gatinho para a casa de vocês? 

Nós ponderamos. Já tínhamos Wolfgang e Dimitri vivendo aqui (e eu contei todo meu amor por eles nesse texto de 2014, que se você não leu, pode clicar aqui); Wolfgang tem problemas renais e exige determinados cuidados; Dimitri é o gato mais assustado do universo inteiro e não temos ideia de porque ele é assim; e com essas questões ficava a dúvida: mais um gato seria bem vindo? Mas, e são esses "mas" que ferram a nossa vida, a casa é grande, quando Dimitri veio para cá ele tinha um irmãozinho, o gatinho novo era branco (como Dimitri, olha que coincidência) e filhotes sempre alegram o ambiente, não é mesmo? Não tivemos como negar e foi assim que Juan Carlos Faria-Gonzaga surgiu em nossas vidas.

Quando nossa amiga trouxe Juan aqui para casa, ele era apenas uma sombra do que se tornou. Magrinho, maltratado e feio, muito feio, precisamos, primeiro, lidar com a aceitação de Wolfgang e Dimitri com esse intruso em seu espaço. Dimitri, apesar de ser o mais assustado, acabou se acostumando mais rápido, mas Wolfgang teve sérios problemas com Juan. Foram dias e mais dias de Wolfgang com um comportamento agressivo e assustado, se escondendo e atacando o filhote sempre que o encontrava. Com o problema renal de Wolfgang, chegamos a ficar preocupados com tamanho estresse, já que ele até mesmo hiperventilava cada vez que encontrava com Juan pelo caminho. Demorou bastante, mas ele enfim se acostumou - com ressalvas. Entretanto, com Juan inserido em nossas vidas, passamos a nos divertir com um novo filhote em casa. Curioso e burro (muito burro), ele nos divertia ao explorar o ambiente, brincar com o nada e tentar conquistar seu espaço; porque, é claro, nós já havíamos sido conquistados.  

Dimitri, à esquerda, e Juan Carlos

Mas Juan é um pouco peculiar e diferente de Wolfgang e Dimitri. Pra começar, apesar de branco e com o pelo parecido com o de Dimitri, Juan é vesgo. Mas ele não é só vesgo, o que poderia ser até bonitinho, porque acho mesmo que ele tem algum problema de visão (a normal e a paranormal), além de ser um pouco surdo. Ele não consegue calcular muito bem os espaços e vive metendo a cara na parede ou acertando as coisas quando sai correndo para brincar; erra portas; e procura desesperado por alguma comida que caiu no chão e, muitas vezes, está bem embaixo do seu nariz. Fora isso, ele gosta de brincar com o nada e eu, se acreditasse nisso, poderia jurar que ele está mantendo contato com entidades sobrenaturais. Ele pula para acertar alvos invisíveis; para no meio de uma corrida, olha para alguma coisa à sua frente que não existe e mia, para depois continuar com a corrida; mira alvos imaginários e fica horas brincando com o nada. Esquisito é uma boa palavra para definir Juan Carlos.

Além disso, diferente dos outros dois (mesmo do Dimitri, quando era filhote), Juan me irrita profundamente, porque ele tem uma energia que não tem fim e, muitas vezes, minha maior vontade é esganá-lo. Como um cachorrinho, ele nos segue pela casa inteira, onde quer que estejamos indo e a qualquer hora que isso aconteça; ele tem a irritante mania de brincar de acertar onde vamos pisar e estar lá, embaixo dos nossos pés - imagine quantos tombos eu já quase levei para não acertá-lo!; ele tem uma fome sem fim e come tudo, absolutamente tudo que apareça na sua frente, além da sua ração, da ração renal do Wolfgang e dos restos de comida que ele tenta roubar da louça que por acaso esteja sobre a pia. Fora a mania de roer as coisas e nos deixar preocupados, já que foram inúmeras as vezes que o vi roendo fios de eletrodomésticos e eu tendo mini-ataques cardíacos ao imaginá-lo tomando um choque.


Aliado a isso tudo, existe o hábito dele decidir brincar, no meio da madrugada, com sapatos e cadarços, além de estar desenvolvendo uma técnica perfeita para nos acordar a qualquer momento: mordiscar nossas pernas enquanto estamos dormindo, só para olhar a minha cara de puto antes de voltar a dormir, para fazer exatamente a mesma coisa uma hora depois - juro, tipo Telesena, de hora em hora na madrugada ele me morde para me acordar!

E se acho que ele enxerga mal e é meio surdo, o olfato é mega apurado. Se estou na cozinha preparando qualquer coisa, quem está lá, tentando chegar até o alto, escalando minhas pernas ou dando pulos desengonçados para chegar até à pia, o armário ou até mesmo no fogão? Sim, ele mesmo, Juan Carlos, o faminto sem fim!

Wolfgang é outro que sofre com a hiperatividade de Juan. Apesar de ~aceitá-lo~, Wolfgang nunca o tratou como faz com Dimitri. Nunca o vi brincando com o filhote ou embolados deitados juntos, enquanto um lambe o pêlo do outro. Sua postura é mais do tipo "ok, tudo bem, você chegou, mas eu mando nessa porra"; pena que Juan não entende isso! Juan fica perseguindo Wolfgang para todos os lugares e, exatamente por isso, vive levando umas porradas do nosso gato preto mais amado. Eu consigo entender o Wolfgang perfeitamente, porque muitas vezes eu  mesmo quero dar uns empurrões no Juan. Mas Juan não entende que está irritando o Wolfgang e, logo depois de levar umas patadas, sai correndo desenfreado atrás de Wolfgang que, desesperado, foge dele na maior parte do tempo, como o diabo foge da cruz. 

Juan tentando perturbar Wolfgang

Mas, quem eu quero enganar, não é mesmo? Apesar dessa maluquice peculiar e da irritação causada (como agora, que estou digitando e gritando para ele sair debaixo da mesa do computador e parar de puxar o fio da luminária), ele já nos conquistou e faz parte das nossas vidas. Porque amor é assim, né? A gente não escolhe e aceita o outro mesmo com seu jeito irritante e particular. 

Ok, pode até não ser assim, afinal, mas que deveria ser, ah, como deveria...

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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