domingo, 8 de maio de 2016

Não é Você, Sou Eu. De Verdade, Cara.





Estou solteira há mais de um ano e meio. Para uma garota que começou a namorar aos 17 e emendou relacionamentos em seus mais variados estados de conservação pelos anos subsequentes, isso é um naco considerável de tempo. Eu, que não chego a me dar bem com convenções sociais tipo datas, lembretes ou cadarços, admito que não tinha parado para pensar muito a respeito. Mas assim, meio sem alarde, veio o choque de realidade. "Estou solteira para caralho". Imediatamente, parti em busca da desolação emocional socialmente esperada por pessoas solitárias, já visualizando um futuro próximo envolvendo garrafas de vinho esvaziadas e moletons cinzas sujos de sorvete e pasta de amendoim. Mas, vejam vocês que virada cruel do destino. No caminho em direção à depressão amorosa, acabei esbarrando num sentimento ainda mais preocupante: uma certeza quase visceral de que simplesmente não tenho desejo algum de mudar minha situação.

A conclusão, embora aterradora, não chegou a surpreender. A verdade é que apesar de meu histórico amoroso ocupado, sempre fui pragmática nesse sentido. Não costumo prolongar histórias doloridas, lamentar falta de reciprocidade nem me moer por circunstâncias fora do meu controle. Isso não é pose. Não é uma máscara para esconder meus verdadeiros sentimentos. Não sou uma romântica disfarçada, e certamente não estou apenas esperando o “cara certo” para me salvar de minha existência estoica. Vez ou outra, surge um sujeito que claramente assistiu a filmes demais com a Zooey Deschanel arriscando umas no estilo “pose de durona, mas coração mole”. Por mais que eu aprecie essas análises pessoais pseudo-profundas vindas de elementos que não me conhecem, trago más notícias: NOPE. Isso sou eu. E hoje, mais de um quarto de século depois, eu finalmente começo a aceitar a inevitabilidade da minha condição. Meu kit ser humano veio com algum tipo de peça faltando e isso, lamentavelmente, é o que sobrou. Desde já peço perdão pela minha química cerebral.

Meus amigos sabem do que eu estou falando. Não sou desprovida de sentimentos - AINDA - mas de uma forma geral sou uma pessoa a ser evitada em casos de dor de cotovelo. Ninguém me procura para conselhos de crise de relacionamento, pois já esperam (com razão) uma resposta fria e analítica. Eu não falo isso com orgulho algum: tenho a empatia como grande bandeira de vida e estimulo a livre expressão de sentimentos como um direito inalienável do ser humano. Mas algo dentro de mim simplesmente não parece clicar em situações de coração partido. O cara tá sendo um bosta? Larga ele. Tá chato? Tá doído? Tá sem tesão? Tchau, baby. Qualquer resposta diferente disso exige um exercício consciente de expressões faciais simpáticas e mãos na cabeça. Até agora, admitindo isso alto, tenho certa vergonha. Acho feio. Não acho que isso seja particularmente legal da minha parte, nem que relacionamentos devam ser tão descartáveis para os outros quanto são para mim. Mas acho que tudo recai sobre meu senso feroz de individualidade, incapaz de imaginar situações tão sufocantes quanto relacionamentos não-perfeitos. No meu cérebro defeituoso, alguém perguntando se deve sair de um namoro em dificuldade por causa do alento de um companheiro de longa data é como um prisioneiro perguntando se deve sair da penitenciária mesmo tendo comida e teto de graça. 

Não que eu seja imune a situações românticas ruins. Já vivi algumas delas, e certamente estive do outro lado do “O QUE QUE VOCÊ TÁ FAZENDO DA SUA VIDA?”. Inclusive, recentemente tive uma prova de que posso agir de forma imbecil devido ao que posso justificar apenas como desequilíbrios hormonais, mas isso pra mim foi até um alívio. Uma prova de que a minha programação robótica ainda enfrenta lapsos de funcionamento. Mas de uma forma geral, sempre consegui entender quando me encontrava numa situação ruim e, cedo ou tarde, cortá-las. E até nisso tenho ficado cada vez melhor: não só vejo que hoje consigo pular fora, como pulo fora sem alarde. E sem lágrimas - o que é verdadeiramente impressionante vindo de uma garota que chora quando derruba um prato de comida recém-servida. Mais do que isso: antes mesmo de pular fora, evito pular dentro. Não que esteja sendo contemplada com uma pletora de homens maravilhosos loucos para iniciarem compromissos de longo prazo comigo - arrisco dizer que solteiro e hetero simultaneamente já é lucro (aparentemente, minha vasta oferta de citações de filmes adolescentes e variações violentas de humor não fazem de mim um grande partido?). Mas depois de muito tempo me perguntando o porquê de só atrair homens comprometidos ou geograficamente distantes (ou, em casos especiais, o combo), fui forçada a aceitar que talvez esses homens estejam entrando na minha vida porque é pra eles que eu dou passagem. Porque talvez as demonstrações  de afeto esporádicas e sem compromisso que eles estão dispostos a dar sejam justamente as que eu sou capaz de fornecer. E que talvez  - ela diz, num misto de resignação e pavor - isso não seja uma condição temporária.


Já estive apaixonada. Já estive em bons relacionamentos, cheios de quês de futuro e conversas de coexistência e cachorros adotados. E sempre dei um jeito de acabar com eles - não sem antes, claro, desenvolver uma angústia existencial tão profunda que posso apenas descrever como passar meus dias tentando andar submersa numa piscina de gelatina de limão. O processo sempre foi o mesmo: começa com um pequeno incômodo que se transforma numa incapacidade física de dividir meu espaço com o sujeito. Em parte, “culpo" meu despertar feminista: meu radar pra merdinha machista enrustida ficou um tanto quanto mais sensível, diminuindo bastante minha tolerância pra micro-agressões diárias. Mas acho que muito vem de como eu sou. De como eu reajo num nível muito primal e nuclear a perturbações da minha ordem. De minha inabilidade de escapar das profundezas da minha própria cabeça, mesmo quando eu mais quero. Alguns podem achar isso uma coisa boa - e considerando que sou capaz de conjurar ansiedade até pra escolher uma cor de esmalte, é mesmo legal ter um drama a menos. Mas eu admito que,  paradoxalmente, quanto mais aceito e abraço esse pedaço da minha personalidade, mais tenho medo. Medo do meu horror à ideia de reuniões familiares ou almoços de domingo com gente chata. Medo dos meus problemas para dividir a cama sem roubar as cobertas, da minha incapacidade de tolerar atrasos, ou da minha raiva cega ao se forçada a alterar os horários das minhas refeições. Medo das minhas poucas, porém inflexíveis, manias. Medo da minha inabilidade de deixar discussões passarem, de aceitar ideologias com as quais não concordo, de abrir mão - ainda que temporariamente - dos meus gostos e prazeres pessoais para acomodar os dos outros. Medo porque, apesar do papo adorável de que relacionamentos bons ocorrem sem esforço, sabemos que é mentira. Medo de não ser capaz de sacrificar o mínimo de mim necessário para acomodar outra pessoa. Medo de ficar sozinha. Medo de gostar demais de ficar sozinha.

Há um outro lado muito maravilhoso e lindo pra isso tudo, eu juro, e se vocês tivessem me pegado num dia diferente talvez tivessem recebido um texto muito mais iluminado. Forte. Empoderado. Num dia bom - e eu tenho tido vários destes - eu sei visceralmente que sou cada vez mais dona de mim. Sou mais capaz de desenhar linhas que simplesmente não preciso e não quero cruzar. Hoje sou capaz de dizer não para coisas que não quero fazer, para comidas que não quero comer, para situações que não me empolgam ou acrescentam. Sou capaz de ficar em casa sozinha no sábado em vez de ir para uma festa ruim. De não rir de piada bosta, e de responder quando algo me ofende. Cada dia mais, sei quem eu sou e do que eu gosto. Cada dia mais, sei melhor do que brigar contra os meus instintos em nome de uma ideia de como eu deveria ser. Cada dia mais, vejo distante a piscina de gelatina em que me forcei a nadar repetidas vezes para caber dentro de uma ideia de normalidade que não me pertence. Isso tudo é lindo, e novo, e empolgante, e o melhor de tudo: é a mais absoluta verdade. Num dia bom, esse texto seria sobre essas coisas todas. Mas a crueldade dos dias bons é que passam tão rápido que mal dá tempo de escrever. Eles são mais pra viver mesmo. Hoje não é um dia desses. 


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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Oi Fernanda, adorei seu texto, especialmente a metáfora do prisioneiro que não quer sair da prisão. Sobre essa questão de terminar ou manter um relacionamento eu penso o seguinte: 1) pra mim os relacionamentos tem um componente publico e um privado. A gente só sabe da parte publica do que rola, mas a parte privada nunca vamos ter acesso. Nem se a pessoa é nossa melhor amiga. O que rola entre quatro paredes é quase sempre inacessível. 2) Pra mim os relacionamentos são uma equação de muitas variáveis. Algumas a gente sabe o valor, outras não. Se a gente tenta resolver uma equação que a gente não conhece todas as variaveis, pode parecer que a resposta seja muito simples e as vezes não é. Eu acho que as pessoas envolvidas num relacionamento resolvem essa equação todo dia, e pra elas, se elas permanecem juntas num relacionamento que aparentemente é ruim, é porque o custo de manter é maior do que o custo de terminar. E por custo entenda-se financeiro, emocional, logístico, etc. Bom é isso que eu penso. Bjs e obrigado por nos brindar com seus textos excelentes. Robson/SJCampos