segunda-feira, 30 de maio de 2016

Nossos Preconceitos Infundados e Um Mea Culpa





Porque não somos perfeitos e, como eu já disse aqui outras vezes, desconstruir-se é necessário. A gente só deixa de aprender quando morre, ou quando tornou-se imbecil demais para dar valor às pequenas lições que nos são apresentadas diariamente. 

Fala-se muito em humildade, mas como é difícil reconhecer que se errou, que pode-se ter magoado alguém, que nossas ações foram irrefletidas. Eu tenho tentado mudar isso, principalmente quando o possível mal que causei não foi intencional (não sou bonzinho, confesso, mas me dói a consciência fazer algo de ruim para alguém sem nem mesmo me dar conta disso). E a minha mea culpa de hoje é para uma situação em que falei sem pensar e me arrependi muito depois.

Eu tenho alguns amigos virtuais que nunca conheci pessoalmente. São pessoas que cruzaram minha vida, com quem troquei likes e palavras breves. Alguns permaneceram, outros se foram, o que é até bastante comum nessa nossa vida hiperconectada. Um desses amigos, por um acaso, é o personagem que me levou a refletir e a escrever esse texto.

Conheci o garoto (que tem seus 20 e poucos anos) há mais de um ano. Divertido e bem-humorado, tivemos várias conversas, que se seguiam a meses de silêncio, até que um novo contato era feito, com mais conversas e, logo depois, um novo silêncio. Ele é um cara muito legal, mas que, apesar de morar no Rio, nunca quis aprofundar a amizade e me conhecer pessoalmente. Acontece, tem gente que prefere o mundo virtual e eu respeito isso. Até que, depois de mais um sumiço, ele reapareceu há duas semanas.

Os papos com ele são muito legais. Falamos sobre assuntos diversos, rimos e, dessa vez, ele disse que queria marcar uma conversa real, tanto é que até estávamos conversando via Skype, com a câmera aberta e finalmente vendo um ao outro, mais do que apenas por foto. Foi quando, no meio da nossa conversa, eu fui completamente babaca e preconceituoso, sem nem mesmo perceber.

Falávamos sobre trabalho. Ele, que entende de web design, dava dicas sobre o layout aqui do Barba Feita, me contando o que faria diferente e o porque disso. Era um papo muito interessante, porque eu adoro receber feedbacks e tentar agregar o que acho realmente válido para mim nesses papos. Por isso mesmo, talvez devido a um texto do João Geraldo por aqui, o assunto descambou para as relações sorodiscordantes e eu soltei a pérola:
"Ah, eu entendo que o HIV hoje em dia é uma doença crônica, que se a pessoa sabe que possui o vírus e está em tratamento, a carga viral é baixa e é praticamente impossível acontecer a transmissão, mas não sei se eu conseguiria me envolver sexualmente com alguém soropositivo sabendo disso. Acho que minha cabeça ia me prejudicar e nem mesmo sei se conseguiria me excitar com a situação."
E foi nessa hora que eu vi que tinha falado merda. O semblante dele mudou e ele me disse, sem rodeios:
"Eu sou HIV positivo. E é por isso que ninguém se aproxima de mim."
Eu gaguejei, disse que aquilo era um absurdo, mas o estrago já estava feito, né? Ele logo saiu do Skype e disse que não estava mais a fim de conversar. Eu respeitei, afinal, o que poderia fazer?

Mas fiquei me sentindo um idiota tremendo. Analisando o que eu falei, eu até conseguia entender o meu raciocínio (que é o de tantas pessoas), mas eu precisava ter dito? Mais do que isso, eu, esclarecido, precisava continuar pensando dessa forma e espalhando esse tipo de ~opinião~ desnecessária por aí? 

Pensei também no garoto. Tão jovem e já enfrentando uma doença crônica, que tem uma carga enorme de preconceito de brinde. Quantas vezes ele não ouviu absurdos simplesmente por um acidente que o acabou colocando dentro das estatísticas? Fora que isso pode acontecer com qualquer pessoa que tenha uma vida sexual ativa. E eu tenho consciência de que, exatamente por isso, a prevenção é sempre o melhor caminho.

Dias depois voltamos a conversar. Eu consegui me explicar, ele pareceu entender e até mesmo se abriu comigo, falando em como é difícil ser HIV positivo, em como as pessoas tem todos os tipos absurdos de preconceito, principalmente no que diz respeito à se relacionar emocional e sexualmente com soropositivos. É triste ouvir, por exemplo, que mesmo que ele avise antecipadamente a alguém que se predispõe a conhecê-lo para mais que amizade que ele é soropositivo, que ao encontrar com a pessoa ela se mantém distante, evitando até mesmo tocar nele, analisando-o como uma criatura exótica; que muitas vezes a pessoa só resolveu marcar o encontro para provar a si mesmo que não é preconceituoso e que, sem perceber, acaba sendo.

Eu continuo me sentindo um babaca pela forma como agi e pelo que disse para ele. Mas pedi desculpas sinceras e tenho aprendido bastante ao conversar com ele sobre assuntos diversos e deixando que meu interesse nele seja na pessoa que ele é e não na curiosidade de ter um amigo soropositivo.

Faço aqui o meu mea culpa, envergonhado, mas ciente de que ele é necessário. Queremos um mundo melhor, então, por que não começar mudando a nós mesmos a partir de comportamentos que, tantas vezes, nem percebemos serem preconceituosos? Fica a reflexão.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Latinha disse...

Olha muito legal tua atitude de rever essa posição, deveria mas eu reconheço que nem sempre é fácil lidar com situações inesperadas, mas é essencial ter a humildade de reconhecer quando nos equivocamos. Espero de coração que ele aceite tuas desculpas e tenho certeza que isso representou um crescimento para você.

Ainda que tenha sido um comentário duro, pelo o que tenho lido a respeito essa é uma constante na vida das pessoas que convivem com o hiv, outro dia eu assistia a um canal do YT e um dos apresentadores comentava dessa dificuldade de estabelecer relações. No caso dele, pessoa pública e militante na questão do hiv, as pessoas já sabem que é convive com o hiv... e ele dizia que sexo casual não "faltava", que as pessoas não tinham problema, mas desde que ele havia recebido o diagnóstico ele nunca mais tinha conseguido ter um namoro, pois nesse momento as pessoas encaravam uma maior dificuldade.

Obrigado por compartilhar esse momento conosco! E espero que a conversa "tête-a-tête" realmente aconteça! :)

rafael disse...

Complicado demais isso. Sou campeão de dar foras, de falar demais. Me policio, pq muitas vezes solto perolas irreparáveis sem ao menos ter consciência disso.

Mas sobre o assunto em questão, não sei como seria relacionar-me com um soropositivo, mas confesso que desisti da amizade de um amigo justamente por isso. Ele contraiu o vírus numa relação de anos, onde o parceiro havia omitido dele. Um tanto ingênuo pq confessou ver remédios pela casa, enjoos e alguns sintomas típicos dos coquetéis da época. Não tenho certeza, mas acredito que os efeitos colaterais são menores hoje. Enfim, ele ficou arrasado, conversamos muito a respeito, dei apoio psicológico, moral e tudo mais. Depois de um determinado tempo, onde ele ja estava medicado, com carga viral negativa, sem nenhum aspecto da contaminação o assombrando tornou-se juiz do mundo. Para ele todas as pessoas eram portadores do vírus, e começou a atirar para todos os lados, acusando meio mundo de ser portador e enganar as pessoas. Chegou a um ponto de não haver mais papo saudável, acusava a todos sem distinção. Resolvi me afastar. Não dava mais pra ajudar. Era caso para um profissional. Nunca mais o vi, nunca mais conversei. Não sei se errei deixando de lado, mas senti que não era mais necessário, nem como amigo, nem como ouvinte. Ja se passou muito tempo, as vezes dou uma olhada no perfil e vejo que esta bem, saudável, então seguiu o caminho, se um dia der certo, puxo papo e vejo como andam os ânimos.

No mais, como leitor, aceito o seu mea cuulpa em relação ao seu amigo...rs

abração