sábado, 14 de maio de 2016

Por Que Academia de Drags Não Chega Nem Aos Pés de RuPaul's Drag Race?





Estava eu começando a assistir, com atraso, diga-se de passagem, a oitava temporada do reality RuPaul's Drag Race e, logo nos primeiros dois episódios pensei "caramba, essa temporada (que teve sua estreia marcada pelo episódio de número 100) está sensacional!". A primeira eliminada foi uma das queens mais bonitas da temporada, ou talvez de todas, como afirmou a própria Ru. E no segundo episódio, duas concorrentes foram eliminadas. Chocante! Entre as queens, uma revelação no mínimo surpreendente, a fofa asiática Kim Chi, uma de minhas preferidas, conta que é virgem. Isso e outros babados em apenas dois episódios.

Mas é claro, se você for um fã fervoroso de RPDG já sabe de tudo isso e muito mais, até porque o programa estreou há dois meses. Por que então estou tocando nesse assunto? Porque como já comentei, comecei a assistir essa nova temporada só essa semana e, diante de toda a produção do reality americano e da comoção que ele causa em quem o acompanha, foi inevitável fazer uma comparação com a nossa versão tupiniquim do reality, o Academia de Drags, que atualmente é exibido todas as segundas-feiras, às 20h, no Youtube, com apresentação de Silvetty Montilla.

Obviamente, o web programa de Silvetty é claramente inspirado no ótimo RPDG, mas está muito aquém da qualidade do original americano. Algo que achei justificável na primeira temporada, em 2014, afinal, era um experimento. Tudo era muito precário, o ateliê onde as concorrentes se preparavam, o palco, o cenário, mas tinha potencial. Acompanhei todos os episódios, curtos, de 25 a 40 minutos, bem como a temporada de apenas 8 episódios. Havia drags ótimas, uma em especial era um luxo, Rita Von Hunt, que estava longe do estilo bate-cabelo e logo foi eliminada.

Assim que chegou ao fim a primeira temporada do Academia de Drags, Silvetty Montilla iniciou uma campanha na internet de arrecadação de fundos para a realização da segunda temporada, já que o programa não havia conseguido patrocinadores suficientes. Como demorou mais de um ano para a segunda temporada ser realizada, imagino que a campanha não tenha sido tão bem sucedida, mas enfim, estreou no dia 18 de abril. Com 10 competidoras, duas a mais que a primeira temporada, o reality quis se repaginar, criar uma identidade própria e ficou bem pior do que antes.

Na primeira temporada de Academia de Drags, apesar de toda a simplicidade da produção, havia uma aura de RPDG. Silvetty, fazendo as vezes de RuPaul, tinha um contato maior com as candidatas, estava engraçada, sempre com ótimas tiradas e figurinos super produzidos. Todo o esforço em fazer algo bem próximo ao reality americano criou boas expectativas com a segunda temporada, que certamente viria com uma produção mais caprichada, tendo talvez a chance de migrar para a televisão. Infelizmente, não foi isso que se viu com a estreia da nova temporada. Com ares de grande produção (apenas ares) e, diferentemente da primeira temporada e até mesmo de RPDG, as drags chegaram no ateliê todas juntas e vendadas. Foram recepcionadas não pela apresentadora do programa, mas pela querida e talentosa drag Alexya Twister, convidada da temporada passada, agora no elenco fixo, fazendo as vezes de inspetora. A meu ver, o primeiro grande erro desta segunda edição, o elenco fixo que Silvetty juntou mais os convidados a cada episódio, causando um distanciamento dela com as concorrentes que não é bacana, deixa o programa chato, sem ritmo e sem identidade.

Silvetty Montilla assumiu ares de grande estrela, pelo menos essa é a impressão que se tem, aparecendo apenas no momento dos shows de eliminação para julgar. Toda a dinâmica face to face com as drags da primeira edição desapareceu, o que era muito legal, e também delicioso de ver em RPDG. Sem falar que a apresentadora parece cansada e sem ânimo, vê-se pouco da Silvetty divertida, que não perde uma piada e tira sarro de si mesma, e até seu figurino tem pecado pela falta de glamour. A sensação que se tem é que é um programa feito com certa preguiça.

Sobre as concorrentes, uma ou outra se salva, mas a grande maioria ainda tem que comer muito feijão com arroz pra chegar ao nível das gringas; as piores de lá ainda são melhores que as daqui, e eu estou falando única e exclusivamente das drag queens selecionadas para o reality, porque por aqui nós temos drags incríveis, mas essas, infelizmente, parece que não se inscreveram pra nenhuma das duas temporadas de Academia

Para não ser injusto, citarei as boas candidatas de ambas as edições. Já falei de Rita Von Hunt, que faz o estilo pin up dos anos 50, sempre com produções caprichadíssimas, ela é tão feminina que foi acusada por um dos jurados da 1° temporada de querer parecer uma mulher e não uma drag. Estudante de Letras da USP, Rita é culta e inteligente, destoando bem de suas colegas. Yasmin Carraroh e Xantara Thompson, também da 1° temporada, fecham o meu trio de drags favoritas. Na atual edição temos a perfeita Malonna, que é impecável. Não há o que falar desta drag que não sejam elogios. Inteligente, simpática, engraçada, costureira talentosa, seus looks são impecáveis e suas apresentações de encher os olhos. Conheci Malonna muito antes do programa em um concurso ao vivo e fiquei fascinado, quando a vi no reality não tive dúvidas, Malonna já ganhou e, a cada episódio, ela só arranca elogios dos jurados. Também gosto muito de Nathy Dumont, vinda de Cuiabá/MT, e Mina de Lyon. Mina é do interior do Paraná, é bastante talentosa, mas sua drag segue uma linha Rainha de Copas, do País das Maravilhas, com uma maquiagem que lembra sempre uma senhora idosa, não me agrada, por isso não tem minha torcida, mas é uma ótima artista.

No conjunto da obra, o melhor de Academia de Drags são os jurados convidados. Em 2014, Alexandre Herchcovitch foi jurado fixo, um luxo, e houveram participações de Grace Gianoukas, Nelson Sheep e Titi Muller, entre outros. Este ano já passaram pela Academia, Regina Volpato, Luciana Liviero e Marcelo Médici, mas ainda contará com a presença de Miguel Falabella.

Mais dois pontos negativos do programa são o local das apresentações e as músicas para dublagem. As drags fazem seu show no palco de uma boate, cedida para as gravações. Com tantos teatros em São Paulo, será que nenhum toparia servir de cenário para o reality? E as músicas para o famoso lipsync são terríveis, não empolgam e, muitas vezes, prejudicam a apresentação.

Como se vê, da maior preocupação com a produção pouco caprichada e quase sem glamour ao detalhe da escolha da música, Academia de Drags é absolutamente inferior a RuPaul's Drag Race. E, antes que me critiquem, apontando que não tem como comparar, devido ao programa brasileiro ser virtual, sem patrocínio, etc e tal, acredito não ser desculpa, pois a atual temporada está aquém da primeira, que era bem mais precária. O que diferencia uma da outra é a vontade de fazer bem feito. Academia de Drags 2 é um produto mal acabado.

No fundo, a maior e crucial diferença entre Academia de Drags RuPaul's Drage Race é que no primeiro falta alma, tudo é superficial. As drags estão preocupadas apenas em serem engraçadinhas, debochadas e venenosas. Não existe a troca de experiência, um papo entre uma montagem e outra, que nos permita conhecer melhor quem são os seres humanos por trás das drags queens; talvez exista nos bastidores, mas o programa não mostra isso. Adoramos veneno, sarcasmo e close, mas também queremos profundidade, e RuPaul's Drag Race sabe dosar a humanidade e o glamour do mundo queen como nenhum outro programa, por isso o amamos tanto e nos identificamos, sendo drag ou não, e nossa versão tupiniquim não chega nem aos pés. Mas quem sabe um dia, talvez chegue lá.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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