sábado, 7 de maio de 2016

Simplesmente Martha





Confesso que não ando muito bem. Estou em pleno bloqueio criativo. Quero e preciso escrever, mas a inspiração não vem. Ouço músicas, leio poesias, busco por temas no Google, mas nada acontece. Entro rapidamente no aplicativo, leio textos antigos que escrevi, vou ao banheiro, e nada. Bebo um copo d'água, posto uma foto do prato que acabei de preparar pro almoço, ligo a TV e assisto por acaso um pedaço de uma comédia romântica que adoro, já em suas cenas finais. É a história de uma moça que se apaixona pelo noivo da melhor amiga, da qual será madrinha de casamento. Tão clichê, tão lindo! Penso que o enredo poderia render um texto sobre amizade e os motivos que levam essa a ser desfeita. Mas lembro que já escrevi sobre amizade desfeita a pouco tempo, e odeio me repetir, pelo menos num período de tempo tão curto. Aí, cogito escrever sobre o tema de outro filme que assisti durante a semana, e gostei bastante. Um drama sobre vingança, com Kate Winslet. Mas vingança é um tema com o qual me identifico muito, e por isso, teria que ser um texto bem elaborado. Tenho até planos de escrever um livro de contos sobre vingança. E, definitivamente, não estou com cabeça para nada muito elaborado no momento. Já disse, eu não estou muito bem.

Então, vou procurar inspiração em minha musa inspiradora. Visito a página da escritora Martha Medeiros, tudo nela me transborda. Ando meio sensível, mais do que de costume, angustiado, com um aperto no peito e uma aflição no estômago. Vou lendo suas postagens, crônicas que ainda não tinha visto; datas de peças inspiradas em seus livros, que preciso assistir; fico animado com a informação de que no segundo semestre será lançado a Parte 2 de seu livro com relatos de viagens, Um Lugar na Janela (o primeiro é delicioso), até me deparar com um texto chamado O Dia Seguinte e não conter minhas lágrimas. Deságuo no trecho final, após ela enumerar os benefícios do 'dia seguinte', de sempre termos uma nova chance para consertar certas coisas e celebrar outras quando nasce um novo dia. É nesse trecho que deixo a angústia, o aperto e a aflição suavizarem:
"...E se todos os dias seguintes têm sido repetecos dos dias anteriores, se você está cansado de aguardar que o dia seguinte traga alguma novidade que lhe tire o chão e abra um novo céu, se você já se convenceu que o dia seguinte é uma esperança que nunca se concretiza e que só serve para enganar os trouxas, ainda assim, prepare-se: um desses dias seguintes iguais a todos não terminará como você espera."
É bem impressionante o efeito que os escritos de Martha Medeiros causam em mim. Leio suas crônicas há 15 anos ininterruptamente. Comecei com 20, e foi ela que despertou em mim essa veia de cronista. Sempre quis escrever um romance, um longo romance, mas também tinha ideias e assuntos para pequenos textos, que eu não sabia que no mundo literário eram nomeados crônicas ou contos, e que podia tornar-se ótima Literatura. À partir de Martha, considerada por alguns como leitura rasa, o mundo da boa Literatura, a começar por contistas que são referências mundiais, entrou na minha vida através de nomes fantásticos e eternos como Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu.

Se aos 20 anos, começando minha caminhada pela vida fora do ninho familiar, cheio de sonhos, esperanças e ambições, Martha Medeiros com suas crônicas e sua prosa foi minha companhia constante, me falando de amor, auto-confiança, arte, viagens, realizações pessoais e profissionais, desejos e bem viver, fortalecendo minhas certezas e determinação, evitando o desânimo no meio do caminho, agora, quase aos 35, com os pés cansados e um tanto calejado da caminhada, é à ela quem recorro, com suas palavras cheias de serenidade, pra restabelecer minha crença no amanhã e nas realizações, chorar um pouquinho, ficar mais leve e até conseguir escrever essa coluna de hoje, que parecia que não ia sair nem com reza brava.

Mas musas inspiradoras serão sempre musas inspiradoras. Obrigado Martha!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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