sexta-feira, 20 de maio de 2016

Sobre Pessoas Como Eu, Como Você





Encontrei com Audrey dia desses, ela estava usando aquela calça capri, uma blusa branca e possuía um lindo lenço na cabeça. Numa das mãos segurava um borrifador com água, suas orquídeas não gostavam do regador que Fred havia dado. Na soleira da porta estavam os jornais que ela ainda não recolhera. Audrey se dizia decepcionada com as notícias que nem se preocupava mais com os jornais. "Eles dizem a mesma coisa, meu anjo, não vou me dar ao trabalho. Quem sabe Greta os leia, porque não os leva para ela?" Uma boa ideia. Greta estava reclusa há tanto tempo que notícias, por pior que elas fossem, pelo menos poderiam lhe dar a sensação de que ainda fazia parte deste mundo.

Recusei o convite para tomar chá e comer seus bolinhos de chuva, estava apressado e ainda precisava passar na casa de Joan. Seria uma visita difícil, mas não podia mais adiar, sabia que teria que ouvir muitas lamúrias, mas ela se sentia melhor depois que desabafava. Mas Audrey me pediu que viesse ter com ela na volta para casa. Queria me contar sobre o novo namorado de Marcos e o quanto ele era rico e lindo. Marcos estava viajando há um bom tempo pela Itália e, desde que chegou ainda não o vira. Prometi que passaria na volta, afinal queria saber quem era o tal gajo.

A casa de Joan estava uma bagunça, argumentei comigo mesmo se ela de fato queria conversar comigo ou se pretendia que eu a ajudasse a arrumar aquilo tudo. "A faxineira estava adoentada há dias, deixou-me na mão. Não posso receber ninguém até que ela volte", esbravejava. Mas ela poderia arrumar aquilo tudo sozinha se não fosse tão mimada. Se minha mãe se estivesse ali, já estaria arrumando aquela mixórdia e adorando ver Joan naquela situação, se fosse venenoso correria para contar-lhe tudo. Mas pensei que seria melhor tirar fotos do local e deixar que ela as visse sem querer, claro. 

Depois de ouvir seus dramas domésticos e sentimentais, me despedi. Mesmo ela insistindo para que eu ficasse, precisava ainda ir em outro lugar e, por fim, ainda ter com Audrey novamente. Na saída deixei com ela a carta que Christina havia me pedido para lhe entregar e ainda pude ver que seus olhos ficaram marejados. Foi a única vez que vi tal cena, Joan sempre me pareceu frívola, pela primeira vez senti que ela também poderia ter um coração.

Passei na floricultura e encomendei flores para serem deixadas na casa de Ingrid, meu dia estava demasiado cheio e sabia que ela e Roberto estavam trabalhando àquela hora. Nunca conheci casal que trabalhasse tão bem junto e ainda se mantivesse com a mesma chama de quando se conheceram. Lembrava das palavras de Roberto certo dia na casa de Vivian. "É tudo sexo, meu caro. O sexo resolve tudo e, por pior que o sexo seja, ainda é bom." Ok, quem seria eu para discordar? A floricultura estava vazia naquele horário e consegui resolver tudo bem rápido; dei por mim que a floricultura nunca é cheia quando não estamos no Dia dos Namorados ou Dia das Mães. Mas flores podem ser dadas em qualquer época. Um tolo romântico, eu sei que sou.

Bette me recebeu como sempre. O cigarro em uma das mãos, falando pelos cotovelos, me oferecendo mil coisas para comer e beber, sobre Oscar, Lassie e, obviamente, querendo saber o que tanto Joan queria hoje comigo. Eu tentava raciocinar no que iria responder primeiro e, quando dei por mim, precisava correr para casa de Audrey. Bette me ofereceu um lindo relógio, pediu que desse lembranças a Audrey e que antes de chegar em casa lhe ligasse para contar tudo sobre o tal novo namorado de Marcos. 

Audrey me esperava com os famigerados bolinhos de chuva e chá mate gelado. Me senti no Rio novamente. Durante o tempo em que ela me contava sobre o quanto Marcos estava feliz com Clift e que o quanto eles eram feitos um para o outro, ia eu pensando que, no fundo, todas essas pessoas são iguais a mim. Suas vidas não eram melhores nem piores que as de ninguém. Éramos pessoas. Como eu. Como você.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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