terça-feira, 31 de maio de 2016

Todo Amor Em Nosso Amor Se Encerra





Ah, Neruda e seus brilhantismos discretos. O poema que entitula esse texto é lindo, como toda a obra do poeta, mas eu vim aqui só pra ser do contra mesmo e dizer que Pablito talvez pensasse diferente se vivesse nos dias de hoje.

Outro dia me contrataram pra escrever alguns artigos sobre relacionamentos e, como eu preciso pagar as contas, topei. Tentei não desistir depois de deletar o décimo quarto rascunho, e decidi que essa amargura do ser humano só nos distancia ainda mais do que realmente importa.

(e antes que você diga "do amor", tá errado)

O que importa nessa vida é a tal da empatia. Aquela coisa camarada de se importar com o outro, porque o outro sente, chora, necessita e, na maioria das vezes, não pede. Ou pede e a gente não ouve. 
De que adianta esse amor todo se na hora de evitar a canalhice rotineira, a gente se justifica dizendo que o que importa é ser feliz? Feliz às custas de quem?

E de que adianta aquele amor bonitão pro Facebook inteiro ver, se você vai continuar acreditando que seus desencantos são os únicos que doeram? E que seus medos são mais sérios que os de alguém? Ninguém ama mais que eu, ninguém gosta mais que eu, ninguém vai te amar como eu. Pior que vai. Porque a gente ama como todo mundo ama. O que talvez alguns façam diferente é que levam em conta que a felicidade não é própria. Nunca é, na verdade.

Será que ninguém, então, merece ser feliz? Merecemos todos. Mas para isso já passou da hora de revermos o que de fato é felicidade. E o que de fato é amor. E quem, de fato, enxerga tudo isso. Dá pra desapaixonar, dá pra ser relapso com o amigo, dá pra ser egoísta de vez em quando pra realizar um sonho ou outro, mas não dá pra ser canalha. Nem dá pra fazer isso o tempo todo, com todo mundo. 

A questão, meu caro Pablo, é que tem algo de muito verdadeiro nesse seu poema. Somos tão, tão pequenos e imaturos, egoístas e desalmados, que todo amor encerra mesmo quando encosta no nosso. Porque esse tal de amor-próprio - êta mundo egóico - cega tanto a gente, que passamos a acreditar que é uma defesa. Não é. Se defender é poder abrir o peito e dizer que ama, acima do trauma e abaixo do ego. E dizer que ama, significa, também, amar. E amar é cuidar, acima de gostar. Amar é só empatia. Amor próprio é empatia, também. Não é bloqueio. Não é encerrar o sentimento de alguém porque o seu cansou. Nem porque você sofreu, viu? 

O que encerram são todos os outros amores, como Neruda disse. O seu recomeça.

E começa. 

De todo jeito. De cada vez. 

Pode ser dando um bom dia pro moço que passa fome na esquina da sua casa.

Pode ser abrindo um sorriso pra moça que vem na sua direção, também.

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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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