domingo, 22 de maio de 2016

Uma Boa História





Como algum sábio disse nos primórdios da história desse mundo: o importante é ter saúde. Eu adicionaria "e saber contar uma boa história". Seja ela verdadeira ou não, meio triste meio alegre, meio real meio fantasia, meio sua meio minha - histórias são armas poderosíssimas. Elas podem construir ou destruir basicamente tudo. 

Tem gente que gostaria de muito dinheiro, outros de um grande amor. Eu - que me sinto muito mais velha do que sou - aprendi que hoje, tudo o que eu quero mesmo, é ter história pra contar. Eu confio no poder da narrativa mais do que nas incertezas da verdade. E, sabendo contar, o enredo importa mais do que a razão. 

Por isso, o cinema ainda sobrevive à publicidade. Por isso, as séries se reinventam e arrastam multidões de espectadores. Porque são, basicamente, uma forma de se viver a vida contando história. Inventando uma existência que não precisa respeitar nada: nem tempo, nem física, nem cultura. A história, quando é sua, respeita só a sua voz. E quando não é, você conta como se fosse. E conta o que quiser.

Claro que, como tudo na vida, isso é usado de forma negativa mais regularmente do que deveria. O que precisava se limitar à uma experiência de transcender aos pormenores do cotidiano e nos levar além, é usado para agrupar pequenas massas de corpos uníssonos e cansativos, repetindo as histórias que ouviram como se apenas isso fosse a verdade. Ou como se a verdade, no fim das contas, importasse. 

A política é uma grande narrativa: ganha quem conta melhor. E ganha quem é contado de forma melhor por outra entidade que usa do mesmo recurso, a mídia. Fatos não são histórias, mas são narrados por quem sabe contá-los. E história vira manipulação. E manipulação vira eco. Faz mal. 

Fico entre a cruz e a espada pensando que, às vezes, me acho boa contadora de histórias. Das minhas, das inventadas, das que dão voz a quem não sabe como contar. Mas, às vezes, penso que quem conta história nesse mundo abre mão de ética, de alma e de consciência. 

Que nossa ficção não se torne vida, e que nossa vida não se torne essa história - de passado, de livro velho largado, de quem não foi cuidado.

Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: