sábado, 21 de maio de 2016

Uma Mulher Vestida de Lua - Parte 1





Tomavam banho de rio, os três, sempre inseparáveis. Ulisses, sempre ousado, mais ao fundo, enquanto Pandora e Ângelo, perto da margem, observavam e admiravam os mergulhos e as braçadas do menino bonito e corajoso, com ar selvagem, ao longe. 

Naquela tarde escaldante, enquanto observava Ulisses com ar de veneração, Ângelo disse à Pandora, com a inocência peculiar a uma criança de 6 anos, que amava Ulisses. No que Pandora rebateu: 

- Claro que ama, ele é nosso melhor amigo!
- Mas eu quero me casar com ele quando a gente crescer.

Pandora, também do alto de seus 6 anos, olhou para Ângelo com uma cara de estranhamento e explicou: 

- Mas menino não casa com menino, seu bobo!
- É, eu sei, mas se ele também quiser casar comigo não tem problema, podemos ser os primeiros meninos a se casarem.

Pandora deu uma risada e disse: 

- Acho que você tá falando a maior bobagem!
- Por quê? - quis saber Ângelo. 
- Porque ele já falou que quer se casar comigo.
- E você aceitou?
- Ainda tô pensando. Mas se ele quer casar comigo, você vai ter que procurar outra pessoa pra casar. De preferência uma menina, né, pra ficar igual aos nossos pais, menino com menina. 

Depois da última frase de Pandora, Ângelo calou-se com o semblante entristecido. Com seu jeito doce, a prima havia sido categórica, meninos com meninos não se casam, só meninos com meninas. Mas ela não havia dito nada sobre meninos com meninos não se apaixonarem.

Ângelo e Pandora eram primos da mesma idade, suas mães engravidaram no mesmo período. Pandora nascera poucos meses antes. As irmãs Francisca e Martina, de origem humilde, sempre tiveram uma vida simples, se sustentando como costureiras. Até que um belo dia, um jovem que acabara de perder o pai, um rico fazendeiro dono de terras e cabeças de gado, conheceu e se encantou por Martina. Os dois se casaram e mudaram-se para uma das maiores fazendas nos arredores da região de Alvorecer. Martina levou a irmã consigo, que logo conheceu um peão e também se casou. Ficaram os quatro morando juntos no imenso casarão da fazenda. Zé Raimundo, marido de Francisca, como administrador e homem de confiança da fazenda de seu co-cunhado Sebastião, e as irmãs abriram uma pequena confecção de roupas num dos muitos galpões vazios da sede, que não demorou muito a crescer e se tornar um negócio rentável. Logo vieram os filhos, Pandora e Ângelo, pra aumentar a harmonia e a felicidade da família. 

Ulisses era filho de Tereza, cozinheira da família de Pandora e Ângelo. Viúva, perdeu o marido antes de saber que estava grávida. Desolada, recebeu todo o apoio, carinho e cuidado dos patrões. Ulisses nasceu pouco mais de um ano antes de Pandora e Ângelo. Naturalmente os três cresceram grudados. Tomando banho de rio, andando à cavalo, ordenhando e bebendo leite saído direto da vaca, livres, em contato com a natureza. Subindo em árvores, comendo as frutas do pé, correndo pelos milharais, escalando pequenas elevações que formavam lindos montes esverdeados, que enfeitavam os arredores de Alvorecer e onde se conseguia ver o céu mais de perto.

Em Alvorecer o tempo passava manso, devagar, num ritmo cheio de poesia, histórias e causos; muitas vezes difíceis de acreditar, alguns deles davam conta que coisas sobrenaturais aconteciam no lugarejo, cercado por fazendas, chácaras e sítios. A paisagem de Alvorecer era quase que completamente rural, mas seu núcleo era composto por um centro comercial, onde funcionavam lojas, armazéns, bares, clubes de lazer, restaurantes, farmácias e uma agência bancária. 

E neste lugar bucólico, Ângelo, Pandora e Ulisses cresceram unidos e felizes. Descobrindo juntos os sentimentos e os desejos. Aos 12 anos, Pandora trocou o primeiro beijo com Ulisses, e este selou o amor que os marcaria pra sempre. Iniciaram um namoro de criança, puro e inocente. Tudo sob as vistas de Ângelo, seguidor da prima de personalidade forte e encantadora e, resignadamente apaixonado por Ulisses, o belo e forte aprendiz de domador de cavalos. 

Aos doze anos, Ângelo já tinha a mais pura clareza da impossibilidade de seu amor por Ulisses ser correspondido e concretizado. O garoto o amava como um irmão, e era um amor poderoso e verdadeiro. Ulisses reconhecia a fragilidade e as delicadezas de Ângelo e o protegia de tudo. Pandora também, apesar da diferença de idade de apenas alguns meses, tratava o primo como um filho e a ligação entre ambos era muito forte. A verdade é que Pandora sabia, que não só ela, mas Ângelo também, amava Ulisses profundamente. Nunca havia se esquecido da conversa que tiveram naquele dia às margens do rio, embora jamais houvessem tocado no assunto novamente. E saber do amor impossível do primo e de como esse sentimento o tornara retraído e melancólico, a fazia sentir uma pena imensa dele, despertando em si um inescapável instinto maternal. Ângelo era mais que seu primo, era seu irmão, seu filho, um pedaço seu que doía se algo de ruim acontecesse a ele. E ela tinha certeza que um dia, um novo amor surgiria na vida dele e toda sua tristeza passaria. Todos seriam muito felizes juntos, ela e Ulisses e Ângelo com um possível e correspondido amor.

Quando completou 16 anos, Ângelo partiu para estudar medicina veterinária, numa renomada universidade longe de Alvorecer. Pretendia voltar após formado para cuidar dos inúmeros animais das fazendas de seu pai. Quanto a Ulisses e Pandora, haviam se tornado o casal mais amado da cidade, todos os admiravam e tinham um imenso carinho pela forma como eles se amavam, eram um retrato da perfeição. Jovens, bonitos, idealistas, de temperamento forte. Os dois só se desentendiam quando Pandora falava sobre seu desejo de ir embora de Alvorecer. Ulisses era filho da terra, convicto de suas origens e desejo de permanecer nela até envelhecer. Tinha se tornado um exímio domador de cavalos, um dos melhores da região e já estava sendo preparado pelo sogro Zé Raimundo para ficar em seu lugar, administrando as terras de Sebastião, que seriam de Ângelo, tão logo ele e o co-cunhado já não estivessem mais entre eles. Porém, os planos de Pandora eram outros. Ela se envolveu nos negócios da tia e da mãe na confecção de roupas e descobriu-se uma talentosa e promissora estilista, encantou-se pelo mundo da moda e resolveu expandir os negócios mais ainda. Queria fazer um curso de alta-costura em Paris, mas a simples menção deste desejo era o suficiente para que os pombinhos apaixonados entrassem em um campo de batalha. Ulisses não admitia ficar quatro anos longe de Pandora, e muito menos morar na capital, quando ela voltasse pronta para abrir uma rede de lojas de moda country. Pandora sofria e chorava muito com a resistência de Ulisses às suas ideias, pois não suportava brigar com o homem de sua vida e queria fazer entendê-lo que nada abalaria o amor dos dois. 

Foi para deixá-lo mais seguro que, aos 18 anos, Pandora aceitou casar-se com Ulisses. O casamento foi anunciado com festa na cidade, todos comemoraram alegremente a notícia. Faltando uma semana para o casório, Ângelo chegou à Alvorecer, seria padrinho da prima. Sozinhos no quarto, Pandora colocou o vestido de noiva desenhado por ela para que o primo a visse linda e esfuziante toda de branco. Foi nesse momento íntimo entre os dois que Pandora contou a Ângelo suas intenções após o casamento. Ela achava que casando-se seria mais fácil convencer Ulisses a ir com ela para Paris. A porta do quarto, que estava entreaberta, foi bruscamente empurrada por Ulisses que, furioso, confirmava aos gritos para Pandora que não iria com ela para Paris nunca e que não conseguia acreditar que ela tinha aceitado se casar só para manipulá-lo. Os dois discutiam aos berros, enquanto Pandora tentava explicar e acalmar o noivo, diante de um Ângelo incrédulo. Finalizando a discussão, Ulisses bradou que não haveria mais casamento e saiu batendo a porta, deixando Pandora em desespero. Vendo Ulisses sair transtornado, Pandora foi atrás dele. Pela janela do quarto, no andar de cima do casarão, Ângelo observou Ulisses entrar em seu jipe como um foguete. Em seguida, viu a prima montar em Diamante, seu cavalo branco, e sair disparada em direção ao jipe. 

Todos ficaram nervosos e apreensivos dentro da casa. Às vésperas do casamento mais esperado pela sociedade alvorecense, uma briga que poderia acabar com tudo. Ângelo pensou em ir atrás dos dois, mas foi demovido da ideia pelos familiares. 

Pandora cavalgava num ritmo assustador, no intuito de alcançar Ulisses. Diamante era perigosamente veloz. De repente, um estrondo. O relincho assustado de Diamante. Pandora no chão. Sangue.
Continua...
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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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