sábado, 28 de maio de 2016

Uma Mulher Vestida de Lua - Parte 2 (Final)






Ao ouvir o estrondo da queda de Pandora, Ulisses freou o jipe violentamente e correu disparado em direção à noiva. Seu grito de horror e desespero ecoou por todo o redor. Ajoelhou-se ao lado dela e pegou-a no colo, o sangue já se espalhando por todo o vestido branco. Acomodou-a no jipe e partiu em uma velocidade alucinante, rumo ao posto médico de Alvorecer. Enquanto dirigia, seu coração agitado e ensandecido, parecia prestes a explodir. Forçava a respiração, a ideia de perder Pandora pra sempre o deixava literalmente sem ar.

Pandora foi atendida às pressas. Do posto médico, Ulisses ligou para Ângelo contando o acontecido. Lívido e angustiado, Ângelo teria que comunicar os pais e os tios. E assim foi. O pânico foi geral. O estado de Pandora era grave. Com traumatismo craniano, teve que ser transferida para um hospital da capital. 

O casamento foi adiado. Os moradores de Alvorecer, praticamente todos, que conheciam Pandora desde menina, ficaram consternados e se mobilizaram em correntes de orações, para que a jovem se recuperasse o mais depressa possível. Mas, na manhã do domingo em que seria realizado o casamento mais esperado da cidade, Pandora teve morte encefálica.

A comoção foi total em Alvorecer. Os preparativos para o enterro de Pandora foram todos providenciados por Ângelo e seus pais, pois Francisca e Zé Raimundo, pais de Pandora, não tinham forças pra nada, e Tereza fazia o impossível para que seu filho, Ulisses, agora uma figura derrotada pela dor e pela culpa, não perdesse a sanidade e cometesse uma loucura.

A cerimônia de adeus à Pandora foi a mais bonita e triste que Alvorecer já havia visto. Quando todos se foram, Ângelo, que manteve-se forte todo o tempo, permaneceu sozinho e, diante do túmulo da prima, ajoelhou-se e chorou copiosamente. Deixou jorrar toda a emoção represada. Saiu do estado de inércia provocado pelo choque inicial e em mais uma conversa íntima e particular com sua amada prima, entre soluços, desabafou: 

- Por que você se foi? Por que me abandonou? O que vai ser de mim? Eu acho que sem você eu não sei existir. Como é que a gente vive sem um pedaço do nosso coração? Você não podia ter ido assim!

Permaneceu sentado ao chão, recostado ao túmulo, completamente descomposto, por um tempo que pareceram horas, até as lágrimas secarem sozinhas, exausto, até sentir algo que parecia um leve sussurro em seu ouvido. Atento, levantou-se e se recompôs, desejando sentir novamente aquele sopro suave, que não se repetiu, mas o deixou com uma estranha esperança. 

Poucos dias depois da morte de Pandora, Ângelo foi ao monte verdejante que costumava ir quando era criança com ela e Ulisses. Ali eles brincavam e passavam inúmeros momentos deitados, olhando pro céu e contando as estrelas ou adivinhando o desenho das nuvens. Foi ali também que Pandora lhe confidenciou que havia tido sua primeira noite de amor com Ulisses. E naquele momento, em que ele ia lá pra matar a saudade e sentir-se mais próximo da prima, encontrou Ulisses aos prantos. Ainda não tinham se falado desde o terrível ocorrido. Cada um vivendo sua dor separadamente, à sua maneira. Sofrendo pela perda da mulher que mais amavam.

Ângelo achou que seria o momento propício para unirem suas dores e se consolarem. Precisavam um do outro naquele momento. Afinal, também se amavam. De formas diferentes, mas se amavam. E podiam encontrar forças um no outro pra continuarem, pois sozinhos, talvez, não suportassem a falta de Pandora. 

Então Ângelo o abraçou, recostando o rosto dele em seu peito, deixando que suas lágrimas fartas encharcassem sua blusa. E não disseram palavras. Apenas se consolaram em silêncio. E ambos entendiam perfeitamente a imensidão de seus sofrimentos.

Ângelo sentiu que precisava ficar em Alvorecer por tempo indeterminado. Trancou o curso de medicina veterinária na capital e permaneceu em sua terra natal. Uma noite, cheio de angústia, em que sonhou com Pandora sem parar, despertou na madrugada, quase sufocado. Era noite de lua cheia. Ao abrir os olhos, uma visão. Pandora na janela, observando a bola branca e imensa no céu, como numa prece silenciosa de agradecimento. Ângelo não se assustou, achou que ainda sonhava e chamou pela prima: 

- Pandora!

Pandora o encarou delicadamente, com um sorriso doce nos lábios. 

- Meu querido, você consegue me ver! Eu tive medo, que não conseguisse. 
- Sim. Eu vejo você Pandora! Você voltou?
-Infelizmente não, meu querido. Agora eu sou um espírito. Um fantasminha camarada. E só você pode me ver.
- Só eu? Mas por quê? E o Ulisses? 
- Você será a ponte entre Ulisses e eu.
- A ponte? Como assim? Eu não entendo.

Pandora saiu da janela e sentou-se à beira da cama, próxima a Ângelo, que tentou tocá-la, mas traspassou-a; ela era imaterial. 

- Só espírito. Lembra?
- Queria tanto te dar um abraço!

Exclamou Ângelo, visivelmente decepcionado. 

- Você vai me sentir mais intensamente do que num simples abraço. Basta que aceite meu pedido.
- Pedido? Qual? 

Pandora pôs-se a explicar: 

- Você, mais do que ninguém, é testemunha do amor imenso entre mim e Ulisses. E agora posso afirmar, um amor maior que a vida. Ele está sofrendo, Ângelo. Sente minha falta. E eu também. O sofrimento dele não me deixa em paz. E eu sinto saudade. Esse amor ainda é muito profundo e carnal, não me deixa partir em definitivo. E eu sei que você também o ama, tão profundamente quanto eu, talvez, até mais.
- Pandora, não...

Ângelo tentou interromper, mas Pandora continuou: 

- ...Ângelo, não precisa negar. Eu sei. Eu sempre soube. Desde aquela tarde no rio, lembra? Você nunca deixou de amá-lo. E talvez eu tenha sido cruel em fazê-lo presenciar o nosso amor esses anos todos. Mas eu realmente acreditei que um dia você encontraria alguém que o fizesse superar Ulisses. Hoje, eu sei que não. Ulisses sempre será seu único e grande amor, mesmo que você conheça outro. Mas Ulisses nunca sentiu atração por rapazes nem nunca sentirá. Ainda assim, eu posso fazer com que você concretize o seu maior desejo.
- Do que você está falando, Pandora? - Questionou Ângelo.

Pandora prosseguiu:

- De uma troca. Você me empresta o seu corpo e nós dois compartilharemos da paixão que Ulisses sente por mim. Eu preciso senti-lo de novo, Ângelo, tocá-lo, fazer amor com ele. Mas sozinha eu não consigo. Olha pra mim, eu atravesso paredes. Preciso de você, de um corpo físico, do seu corpo.

Notando a expressão de terror e incredulidade do primo, Pandora tentou amenizar a situação e finalizar sua "visita". 

- Não tenha medo Ângelo. Você é especial. Nós somos especiais. Eu sussurrei no seu ouvido, lá no cemitério, que voltaria, e tô aqui. Agora, eu te peço que não me abandone. Pra que tudo aconteça, você só precisa subir a colina verdejante em noite de lua cheia, como essa de hoje, e me esperar. Olhe fixamente pra lua e eu estarei em você em poucos instantes, o meu espírito e a minha imagem. Seremos os dois, ao mesmo tempo, um só corpo.

Dizendo isso, partiu, desaparecendo no ar como fumaça.

Ângelo despertou com os primeiros raios de sol. Os sonhos que tivera com Pandora, de tão reais, haviam lhe acalmado um pouco a alma. Sentia-se mais calmo e sereno. Após o café da manhã, foi ao encontro de Ulisses para contar-lhe que tinha sonhado com a prima. Disse-lhe que ela aparecera linda e radiante em seu vestido de noiva, seus cabelos negros brilhavam à luz do luar e ela estava bem, pedindo que ele lhe acalmasse o coração e não sofresse tanto com sua ausência, pois ela sempre estaria por perto. Ângelo omitiu toda a história verdadeira, o real motivo do sonho, que mais parecia uma visão. Ulisses gostou de ouvir o sonho de Ângelo, mas não se conformava que ela não aparecesse pra ele em sonho. Achava injusto não conseguir conversar com sua amada nem em sonho. Vendo a tristeza de Ulisses, Ângelo quis fazer algo. Desejou que o sonho da noite passada fosse real, não apenas uma alucinação. Queria que fosse verdade tudo o que Pandora lhe disse. Precisava arrancar daquele homem, o homem que amava, um pouco, de tanta infelicidade.

Na noite de lua cheia que sucedeu a aparição de Pandora para Ângelo, o primo apaixonado pelo noivo da prima subiu a colina verdejante. Ele ajoelhou-se bem ao cume e mirou a lua com sofreguidão, como se suplicasse para que Pandora o possuísse. Não demorou e a magia se fez. Em poucos minutos, Pandora tomara o corpo de Ângelo para si e materializara-se em uma mulher de carne e osso. Vestida de noiva, partiu em busca de Ulisses, seu amado.

Ulisses mal podia acreditar em seus olhos. Era sua mulher, seu amor, igual como a tinha visto pela última vez, só que ainda mais linda. Não fez perguntas, apenas sorriu ao vê-la, o sorriso mais bonito que Pandora já vira. E abraçou-a fortemente. Tocou seus cabelos fartos e ondulados, seu rosto alvo, aspirou seu perfume profundamente e beijou seus lábios com toda a força de uma paixão cheia de saudade. Fizeram amor como se fosse a primeira e a última vez. E quando acordou na manhã seguinte, Ulisses não a encontrou. Mas havia um bilhete no travesseiro: "Me espere nas noites de lua cheia."

Ângelo sentia-se pleno e realizado, fora a noite mais linda de sua vida. Quando encontrou Ulisses naquela manhã, notou que o domador de cavalos não parecia tão infeliz. Tinha voltado a trabalhar e seu semblante estava cheio de esperança. Perguntou a ele se estava tudo bem. Ulisses não se conteve e contou a Ângelo que Pandora havia aparecido pra ele na noite passada: 

- Você acredita ou acha que eu tô ficando maluco?

Ângelo lançou a Ulisses seu olhar mais puro, um sorriso terno e disse com todo o amor do mundo: 

- Acredito!

E por incontáveis noites de lua cheia, Ulisses, Ângelo e Pandora viveram seu amor.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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