sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Às Vezes Morremos Para Provar Que Vivemos"





Entre dezembro de 1990 e maio de 1991, eu acompanhei uma graphic novel muito interessante chamada Moonshadow. Originalmente, foi publicada em 1985, nos Estados Unidos, pela Epic Marvel, que já buscava novas histórias com temática adulta que fugisse do estereótipo do “super-herói”. Confesso que me emocionei muito com a história fantasiosa de Moonshadow e seu peculiar universo, com elementos espaciais do Pequeno Príncipe, recheado de criaturas bizarras e sua incessante viagem pelas estradas da vida, em um tom de autoconhecimento e que poderiam, com toda certeza, ser a minha, a sua ou a história de qualquer outra pessoa. 

Mesmo com toda aquela aura mítica e surreal, Moonshadow me atingiu em cheio. Parecia que em muitas páginas, o autor John Marc DeMatteis estava dando um recado para mim, através do jovem protagonista, que tinha a mesma inocência, os mesmos medos, frustrações, desejos e descobertas. O que mais me impressionou em Moonshadow foi que ela não somente poderia ser a história de nossas vidas, mas principalmente, do nosso despertar.

Moonshadow foi publicada no Brasil pela editora Globo, que incluía as primeiras publicações de Sandman e V de Vingança. Nunca mais a série foi reeditada, fazendo com que o público praticamente desconheça essa bela obra.

Escrevi essa introdução para somente fazer um paralelo entre Moonshadow e uma outra obra que li uns anos atrás e reli semana passadac chamada Daytripper, que provocou em mim os mesmos sentimentos que achava que nunca mais ia encontrar lendo uma HQ.


Criada pelos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, a série saiu nos Estados Unidos em 2009, em 10 edições. Aqui no Brasil foi publicada pela Panini Books, em parceria com a Vertigo e ganhou o prêmio Eisner, considerado o Oscar dos quadrinhos.

Daytripper conta história de Brás de Oliva Domingos, um escritor de obituários que tenta ser um escritor famoso como foi seu pai. Cada capítulo conta uma fase da vida de Brás e os sentimentos que permeiam nossa existência, como o primeiro beijo, as dúvidas sobre o futuro, as desilusões, o medo da morte, os sonhos que precisam ser alcançados e o significado da vida. O mais interessante da narrativa é que no fim de cada capítulo, o protagonista morre e nos deixa à margem de uma reflexão: “e se aquele foi o momento mais importante de sua vida?”.

Não se espante se você começar a ler e começar a chorar no meio da história. Eu mesmo chorei várias vezes, a ponto de soluçar. Os dois últimos capítulos eu li no ônibus a caminho do trabalho. Nem reparei que havia uma senhora ao meu lado, assustada com minhas lágrimas, a pingar. O impressionante é que não é um choro de tristeza... mas de redenção, de alívio.

Assim como Moonshadow, Daytripper é uma obra prima que vale cada minuto da leitura e que faz aflorar nossos sentimentos de uma forma mágica, garantindo um novo olhar sobre a vida e as pequenas coisas que deixamos por muitas vezes, passar despercebidas. Em um dos momentos mais interessantes da série, somos surpreendidos com a frase “essa é a história de minha vida. Respire fundo, abra os olhos e feche o livro”, provando que ela é, a história da vida de qualquer um de nós.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Marcia Pereira disse...

Sempre claro e objetivo, nos remetendo a delícias de nossa velha infância, juventude...Parabéns!

Jairo Paulino disse...

As vezes, a ficção nos leva a uma reflexão sobre o rumo da nossa própria história, e não ache que quadrinhos são infantis, coisa de criança, na verdade, é arte para todas as idades.