sábado, 11 de junho de 2016

Barulho Feio





Semana passada acordei com a notícia do menino de 10 anos morto pela polícia. O garoto, ao que parece, estava armado e fugia da polícia após uma tentativa de assalto. Este drama, quase cotidiano, comoveu muita gente, mas é bom nos prepararmos para as próximas situações semelhantes que não tardam, vão se repetir. Tanto a criança (10 anos, meu Deus!) quanto a PM sanguinolenta provocaram em mim uma série de recordações difíceis de digerir.

Logo lembrei de Mineirinho, o bandido cuja morte indignou e foi tema de celebrada crônica de Clarice Lispector. Baleado 13 vezes, Lispector intercedeu: “Qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala bastava. O resto era vontade de matar. Era prepotência”. Ainda mais: “[...] se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime”.

Assim, desse desejo clariceano de benevolência, ressoou em mim o genial Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, uma narrativa dura e quase documental que conta a vida tortuosa de um menino abandonado pelos pais que passa a viver de roubos, amizades intensas e uma carência de afeto que explode em umas das maiores cenas do cinema (quando a prostituta interpretada por Marília Pêra oferece seio materno ao menino sem mãe).

Encadeada ao Pixote, me veio, repentinamente, a imagem do moleque subindo árvores, pulando muros e atravessando telhados no filme O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho. O personagem representa a ameaça invisível e constante da violência, servindo de alimento para a paranoia das grandes cidades e da classe média engradeada. O ladrãozinho ficcional é o mesmo ladrãozinho real assassinado semana passada; o mesmo que ao mesmo tempo nos põe medo e comove.

Ora estamos em constante vigilância e rompantes de “bandido bom é bandido morto”, ora ficamos diante de vidas condenadas desde o primeiro abrir de olhos, nas quais a marginalidade é uma inerente condição de existência. O nosso senso de humanidade nos faz um apelo caloroso de compreensão e resistência, mas a perpetuação da criminalidade nos empurra para fossos profundos, bestiais. É um choque de discursos e intenções difíceis de conciliar.

Dentre tantas informações assombrosas deste caso recente, o fato do menino ter apenas 10 anos não me sai da cabeça: garoto de 10 anos, várias passagens pela polícia, pai preso, mãe reincidente, dirigindo um carro a toda, disparando tiros pela noite. É chocante.

E o que dizer da música O Meu Guri, onde Chico Buarque dá voz a uma mãe do morro que cegamente acredita na honestidade do filho assaltante? O guri, como parece destinado, acaba em manchete de jornal, morto, com venda nos olhos.

Onde erramos?, eu te pergunto. Não sei responder a essa chaga histórica, sem data de resolução. Apenas sinto um barulho feio, ruidoso, que é externo a nós, que é interno em nós e que nos põe acovardados diante do absurdo. É triste. E vai durar.

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Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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Um comentário:

The Crow disse...

...KKKKKKK... Pra ser mais esquerdopata só faltou colocar a culpa nas armas.
Pois saiba... que a policia só a vassoura da sujeira que pessoas como "VC" deixam pra trás. Policia sanguinolenta...rsrsrsrs faz me rir tanta hipocrisia.