sábado, 4 de junho de 2016

Bem-Vinda, Estranha





Tenho um animal de estimação. Um animal fatalmente animal, mas de estima incalculável. Para conhecer nossa história exemplar, basta remontar algum enredo já ouvido, no qual a sequência seja basicamente: um vira-lata ao léu + um humano ao léu + o encontro dos dois + doses de boa vontade = doação efetivada com sucesso.

Pois bem. Tenho um animal de estimação. E ele me traiu. Eu ia serena e cotidianamente trocar a sua água quando ele, impaciente por alguma razão, me mordeu. O ferimento no meu braço direito, hoje cicatrizado, doeu como o Diabo. No entanto, não machucou mais do que a sensação de espanto que senti quando pensei que até mesmo as nossas figuras de maior apreço podem nos surpreender negativamente.

Lembrei deste episódio porque recentemente passei por uma decepção: os posicionamentos ético-políticos de Regina Duarte. Talvez minha atriz favorita, Regina sempre me levou pra frente da TV, da telona e do palco. Tive a oportunidade de vê-la em cena na peça Bem-vindo, estranho e presenciei a força de uma atriz cujo domínio de seu ofício atinge da primeira à última fileira, numa métrica exata entre técnica e emoção. Um absurdo de intérprete!

Logicamente, como todo homem vivo e afeito às expectativas, passei anos depositando em meu imaginário um ideal de Regina que, infelizmente, foi diluído e desaguou. O ferimento no meu lado direito do cérebro (a zona artística), hoje cicatrizado, doeu como o Diabo. Demoro para superar.

Foi então que fui lembrando de outros capítulos de um livro de desencantos que não cessa, e percebi que é necessário, embora arduamente, separar a obra do artista. Não é porque Gilberto Freyre apoiou o golpe militar de 64 que a importância de uma obra fundamental como Casa-grande e senzala pode ser relativizada; um diretor genial como Roman Polanski não pode ser menos incensado porque foi acusado de abuso sexual; a relevância mundial do reggae de Bob Marley pode ser colocada em cheque porque ele batia na mulher?

Pessoas físicas e jurídicas causam, às vezes, embates inconciliáveis. E não seria diferente quando se trata de meio, mensagem & outras confusões. É um lugar de paredes pontiagudas e cadeiras desconfortáveis esse onde me enfiei, mas faz parte da arte de questionar.

Meu cachorro ainda abana o rabo e parece contente ao me ver, embora eu nunca mais tenha tido coragem de sair pra trocar a sua água. Portanto, nada será como antes. Quanto à Regina Duarte, ainda a acho grande atriz, mas sua figura está tristemente embaçada pra mim. Quando eu encontrá-la por aí, querendo ao mesmo tempo abraçar e virar o rosto, só poderei dizer uma frase: bem-vinda, estranha.

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Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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