domingo, 12 de junho de 2016

Eu, os Homens e Umas Verdades Difíceis





“Estou chorando porque tenho 33 anos e não consigo fugir do sentimento de que os homens me veem como o tipo de pessoa para quem fazer a coisa certa não vem naturalmente. É por isso que eles se aproximam de mim nas ruas, ou em bares, ou no Twitter. Eles me veem como a pior versão de mim mesma, a versão que tanto tentei não ser – ou ao menos não demonstrar tanto.” - (Jessica Valenti – Sex Object)
Já dediquei algumas das minhas colunas a reflexões sobre solidão, solitude e suas variáveis. Não sei exatamente porque é um tema tão recorrente na minha escrita, mas imagino que seja porque é um tema recorrente na minha cabeça. A solidão me inspira, me assusta, me completa e me intriga.

Eu já falei sobre o lado inspirador de estar sozinha. Já falei sobre a responsabilidade dos outros – os indivíduos e o coletivo – sobre minhas reservas e minha introspecção. Mas hoje eu quero falar sobre a minha responsabilidade. Sobre a minha culpa. Sobre o que eu fiz para estar sozinha.

É um momento epifânico e aterrorizante quando você percebe algo sombrio sobre a sua natureza. Além do alívio do “isso explica muita coisa”, existe certo poder em se dispor a brigar conscientemente contra algo que você identifica como defeituoso. Mas, assim como ocorre com todo esforço ativo, no lado oposto ao da recompensa tem a fraqueza, a perna bamba, a ocasional desistência. Brigar contra si mesmo é possível e é importante. Mas nem sempre funciona.

OK, talvez até aqui eu esteja sendo metafórica. E admito que é menos pela poesia da coisa do que pelo meu receio em admitir certas coisas. É difícil botar em palavras para os outros coisas que você passou tanto tempo contextualizando e justificando para si mesma. 

Eu escolhi ficar sozinha por mil motivos, mas o mais sincero deles – e o mais feio, talvez –  é porque eu não sei ser namorada de ninguém. Sou fácil de conversar, de brincar, de tomar cerveja, de sair pra jantar, de transar. Mas não de me comprometer. Não traí todos os meus namorados, mas sempre pensei sobre o assunto. A monogamia é uma tortura pra mim. E foi bem foda confessar pra mim mesma que, feminista pra caralho, tenho fraco por homem. Não posso tomar duas cervejas sem começar a flertar compulsivamente com gente que mal me interessa. Inevitavelmente pego um idiota qualquer. Passo meu telefone sem nenhuma cerimônia – apenas para usar a mesma determinação para apertar o block no dia seguinte. Já acordei muitas vezes, confusa e envergonhada, do lado de gente em quem jamais pensei com o mínimo de carinho ou tesão em momentos de sobriedade. Vivo repetidos ciclos de orgulho, vergonha e eventual preocupação com minha promiscuidade.

Essa minha personalidade bêbada tem até nome – Chantal, quem viu sabe quem é – e virou piada no meu grupo de amigos. Sou artilheira, camisa 10, a da cara toda borrada de batom vermelho às 4h da manhã. A que ri das derrotas e acorda no dia seguinte precisando de confirmação sobre o placar da noite. Tenho muitas noites divertidas. Em algumas delas eu me sinto sexy, interessante, divertida. Mas em tantas outras eu me sinto patética e insegura. Uma presa fácil para homens medíocres armados com elogios baratos. Para-raio de ladainha machista de ~você é diferente das outras~. Enojada com a facilidade que caras comprometidos parecem ter pra chegar em mim, como se eu emitisse alguma vibração de disponibilidade e desprendimento moral.

Que fique claro: não vejo vergonha numa mulher fazendo do próprio corpo o que bem entende.

O problema é que eu sei que essa maravilhosa da Chantal esconde mil outras coisas muito menos divertidas que moram dentro da Fernanda. Sei que essa necessidade de me sentir desejada é resultado dos vários anos em que, convencidíssima da minha feiúra infinita, achei que jamais seria atraente pro sexo oposto. Sei que meus decotes e rendas e transparências escondem culpa, vergonha e restrição. Sei que minha simpatia na hora de ficar dando trela pra mala parte de uma incapacidade de dizer não pra homem – coisa que inclusive já me colocou em reais situações de risco físico. Porque faço do “foda-se sua opinião” uma bandeira ideológica, mas no fundo ainda quero que os homens gostem de mim. Que me achem legal. Que riam das minhas piadas. Que curtam meu batom e meus peitos.

É fácil culpar a bebida. Mas a verdade é que o álcool é apenas um intermediário, um catalisador, o mero veículo que conecta essa minha natureza de bosta ao mundo exterior. 

Como que pode, a essa altura, cheia de pose feminista e tão ávida por atenção masculina? Francamente, não sei. Não sei porque ainda brigo tanto para conseguir a admiração sexual  e intelectual masculina, mas a rejeito no minuto em que ela parece virar qualquer coisa próxima de afeto. Não sei porque sou tão pouco interessada em papinho merda, tão rápida para apontar discursinho machista babaca, tão capaz de me desapegar de namorado, e ao mesmo tempo tão carente de atenção de macho que nunca mais vou ver na vida. Tão necessitada de elogio de chefe e colega de trabalho homem.  Não sei – mas estou tentando descobrir. É um começo, talvez.

A cada novo dia, a cada nova auto-descoberta, busco me armar para brigar contra esses malditos instintos. Mas a verdade é que é isso mesmo que eles são: instintos. Eu posso racionalizar, sufocar, afastar, relegá-los aos cantos mais obscuros e afogá-los em pensamento positivo. Mas eles estão lá.

Minha solteirice foi produto de mil coisas – várias delas decisões saudáveis e maduras, acompanhadas de respeito pela minha própria natureza individualista. Mas também foi uma forma que encontrei de proteger os outros de mim mesma. Porque mesmo apaixonada, mesmo querendo ser boa, eu tenho medo da filha da puta dentro de mim. Dessa sensação de que ela dar as caras não é questão de “quando”, mas de “se”. Eu SEI o que vai acontecer. Eu sei que vou cansar de transar com o mesmo cara. Eu sei que vou querer flertar com algum dos amigos dele, ou dar mole para alguém no WhatsApp enquanto ele vê TV, ou simplesmente fantasiar com outra pessoa para passar o tempo enquanto corro na esteira. E ao mesmo tempo em que preciso respeitar minhas vontades e meus anseios, compreendo a monogamia como um acordo que até hoje não fui capaz de cumprir. 

E talvez nunca seja.

Gosto de pensar que há ao menos alguma redenção no ato de me confessar. Que existe alguma nobreza na decisão consciente de não aceitar carinho até ser capaz de retribuí-lo. Que há de vir algum crescimento no esforço de auto-aceitação. E, quem sabe, alguma beleza em entender que fazer a coisa certa pode não ser a minha natureza, mas pode – e deve – ser a minha escolha.

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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
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