quarta-feira, 29 de junho de 2016

LGBT Com Orgulho?





Ontem foi o Dia do Orgulho LGBT. A data pauta uma série de eventos mundo afora, no Brasil, mais notadamente, as Paradas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mas o que significa o tal orgulho LGBT para quem é... LGBT? Não são (somente) os estereótipos de deuses gregos se beijando em público nem das drag queens abrindo seus vaporosos e ruidosos leques cobertas de maquiagem. É algo bem mais íntimo que precisa, sim, ser considerado ao se falar em sermos mais humanos.

A pergunta, para mim, remonta aos tempos de descoberta da minha sexualidade e, consequentemente, de mim mesmo. Foi com 16 anos que percebi que pessoas do mesmo sexo me atraíam e que isso não me tornava pior do que ninguém. O que não me impediu de viver um turbilhão em minha cabeça. "Nunca terei uma família?", "E o meu sonho de ter filhos?", "Como serei aceito?", "Como meus pais vão reagir com o único filho homem não dando uma nora pra eles?", "Deixarei de ser um bom exemplo para a minha irmã mais nova?".

Sim, caríssimos não-LGBT, não é fácil. Se fosse uma opção, tenham certeza, muitos teriam escolhido uma vida socialmente mais aceita, mais tradicional, na qual um simples afeto na rua não seja passível de uma agressão verbal ou física. Sobre esse assunto, dia desses fui perguntado por um estudante de jornalismo da PUC, e eu disse que nunca sofri agressão direta, embora só o fato de ter o meu direito à livre manifestação pública do amor ameaçado por algo do tipo já se tratar de uma agressão.

A única opção que fazemos é a de viver ou não na hipocrisia. Ser quem esperam que sejamos ou sermos minimamente nós mesmos. Quantos não têm seus imaculadamente perfeitos casamentos hetero aos olhos dos outros, mas mantém seus relacionamentos extra-conjugais com outros rapazes? Fogem com a sinceridade não somente às suas esposas, mas consigo mesmos; infelizes num padrão imposto e perpetuado de família correta?

Orgulho-me, sim, de me ter percebido ainda adolescente, com a ajuda de amigos preciosos e da minha irmã Natalia, que chorou quando eu contei para ela que eu era gay - não porque eu era gay, mas porque ela viu o quando eu sofri para lhe dar essa notícia. Orgulho-me de ter um companheiro há quase 12 anos em um relacionamento estável e cheio de amor - uma pessoa que conquistou meus pais, minha família e até a minha avó evangélica. Orgulho-me de, mesmo não hasteando ostensivamente a bandeira do arco-íris por aí, não me esconder nos esgotos da sociedade por ser quem sou.

O Orgulho LGBT tem que ser celebrado, sim. Enquanto morrer quase um gay por dia no Brasil, em clara associação à homofobia (eu mesmo já tive um conhecido, amigo de um ex-namorado, que foi assassinado com essa suspeita); enquanto houver atiradores em boates como as de Orlando; enquanto crianças apanharem ou sofrerem bullying por terem traços desconformes com aquilo que se esperam delas em relação a seus gêneros; enquanto ainda temermos por nossa integridade física por beijarmos quem amamos na rua.

Que seja celebrado publicamente. E intimamente. Sempre. Pois nada é melhor do que não termos vergonha de quem somos.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Ronaldo Torres disse...

Leandro, acredito que este tipo de celebração é necessária para que todos os integrantes do movimento LGBT, ou LGBTQIA (como já tenho notado e vários eventos da militância aqui em São Paulo) sejam vistos, cada um ao seu modo.
Ainda precisamos lutar contra a invisibilidade, por reconhecimento, repeito, direitos, etc. Mas enquanto fazemos isso, vamos celebrando o que já foi conquistado.
Abraços.