sexta-feira, 3 de junho de 2016

Nonada





Queria ser um mestre em neologismos. Tal qual um Guimarães Rosa, inventando palavras novas, que ainda não existem em nenhum dicionário ou em nossa linguagem. Queria começar o texto desta coluna com uma palavra bombástica, sucinta... Como nonada, iniciada em sua grande obra-prima, Grande Sertão: Veredas, que fiquei anos e anos tentando decifrar o significado. Ou então traduzir o intraduzível. Um Cocteau Twins, que ouço enquanto escrevo este texto. Dezenas de etéreas camadas de sintetizadores, frases ininteligíveis e a indefectível sonoridade da “voz de Deus”. 

Apesar de nem chegar próximo das técnicas vocais de Liz Frasier, sou um cara comum e sem graça, juro. Nonada.

Mas gostaria que você, leitor, tivesse uma boa impressão. Afinal, estamos aqui, eu e você, nos conhecendo. Já apareci esporadicamente algumas vezes e, a partir de hoje, cultivaremos essa relação de maior proximidade. Estarei aqui todas as sextas, com mais ou com menos inspiração, tentando roubar alguns minutos de seu tempo.

Alguém um dia disse que escrever dói. E que não há nada tão amedrontador e desafiador do que uma folha em branco, ou a página do Word aguardando os primeiros toques e caracteres. Lembra aquela sensação taquicárdica (opa, acho que acabei de criar um neologismo) do primeiro encontro. Você já trocou umas mensagens, enviou uma foto, a pessoa já fuçou o seu Facebook em busca de informações que você tentou esconder e até já mandaram ingênuas mensagens de voz desejando uma boa-noite. Mas quando chega o dia D do encontro, vem o nervosismo, a gagueira e a dificuldade em concatenar as ideias.

Pois é. Eu sempre escrevi para mim. Na minha época de adolescente não havia redes sociais, mas existiam aqueles típicos cadernos de perguntas que, furtivamente, cruzavam a sala de aula. Em casa, na solidão do quarto, tentava decifrar aquele grande quebra-cabeças de respostas da menina que nunca dava “mole”, mas deixava escapar uma certa “condição” nas entrelinhas. Amores platônicos que viraram textos e poemas. Mas, para mim e somente para mim. Coisas que antes de saírem do fundo das gavetas para serem destruídas pela maturidade, jamais sonharíamos que seriam lidas por alguém.

Por isso, escrever para você é muito mais difícil. É quase assombroso. 

Pablo Neruda dizia que "escrever é fácil: você começa com maiúscula e termina com ponto. No meio, você coloca ideias". Clarice Lispector já dizia o contrário. Dizia que "não é fácil escrever, é duro como quebrar rochas, mas voam faíscas e lascas como aço espelhado".

Às vezes tenho quase certeza de que tudo já foi dito. Como então dizer de outra maneira e fugir do óbvio?

Está aceito o desafio. Te encontro novamente na semana que vem. Que São Neruda me auxilie nas ideias. Que Santa Lispector me permita ser intenso. Que o Arcanjo Guimarães Rosa me ilumine com muitos neologismos. Que a voz de Deus de Liz continue reverberando no meu lobo frontal e parietal, pois escrevo para sobreviver.

Nonada. O que é? Ah, algo sem a mínima importância.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e há mais de uma década à frente da assessoria do Hemorio. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft and Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Edalmo Guitarra disse...

Esse eu assino embaixo!
Muito Fera!
Parabéns ao Barba Feita pela aquisição e ao Marcos pela publicação!
Aquele Abraço ...

Márcia Marino disse...

Lindo texto!!!! Fiquei com aquela sensação taquicardia... ��. Muito sorte e até o próximo encontro!!!! Bjão, meu querido ��