quarta-feira, 8 de junho de 2016

O Grito





Tudo o que Esmeralda precisava era gritar.

Toda a vida no mais perfeito lugar, mesmo os detalhes. O casamento ideal há 15 anos, com o marido bem-sucedido e sadio. Fidelidade acima de qualquer suspeita. Nunca lhe faltava nada, desde o pão até o perfume.

Mas Esmeralda precisava gritar.

Os filhos na escola pontualmente dia após dia. Notas altas, todas acima de 8. Disciplinados, bons moços, exemplos dentro e fora de sala. Inglês, espanhol, capoeira e natação. Ainda a ajudavam nas tarefas de casa em troca de uns beijos e um chocolate.

O grito entalado naquela garganta mais que quarentona.

O cachorro voltava escovado e cheiroso semanalmente do pet shop. O liso e imaculadamente alvo pelo; mal dava para notar qual era a frente ou o verso do animal. Portava-se como um bibelô dentro de casa e fazia as necessidades somente no jornalzinho colocado na área.

Sufocada...sufocada...

O padre, o sermão, a hóstia. Todo domingo. “Dizei uma só palavra e eu serei salva”. “Não sou digna, não sou digna”... A bênção, a ajuda na sacolinha que corria, o combinado de levar cuscuz para vender na quermesse.

Já não suportava mais.

O cheiro de amaciante das roupas lavadas no varal misturado com o da cera que brilhava no chão de tábuas corridas espalhava-se pela sempre arrumada casa. Naquela noite, tudo o que Esmeralda precisava era gritar. Recolheu-se em seu quarto, sentada em sua poltrona revestida de estampa floral e chorou. Chorou tanto que molhara o pequeno casaco de tricô que usava. Quando parecia que não havia mais lágrimas, o grito lhe veio como um vômito. Não havia marido, não havia filho, não havia cachorro que a impedisse.

Respirando fundo, entre os soluços que lhe restavam, enxugou o pranto com as mangas do casaco. Levantou-se, atravessou a sala e alcançou a cozinha.

Com a faca mais amolada que tinha em sua gaveta, preparou o certeiro golpe.

Sabia como ninguém cortar os melhores pedaços do frango para fazer a canja que a família tanto gostava.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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